Playlist da vida de dona Jacira, mãe de Emicida e Fióti, tem cheiro de café com samba
Especial

Playlist da vida de dona Jacira, mãe de Emicida e Fióti, tem cheiro de café com samba

Publicidade

A palavra griot é a tradução, em francês, para "dieli", da língua bamana. Falada em diversos países do noroeste da África, ela significa "o sangue que circula". Há milênios, representava aqueles que percorrem diferentes regiões exercendo suas profissões e, pela convivência e itinerância, acabavam repassando notícias por entre vilarejos. Nos tempos modernos, os griots carregam o simbolismo de reproduzir histórias ligadas à ancestralidade. Muitas vezes, em forma de música. 

LEIA MAIS: Garcia Gang, a família de artistas negros que usa música como militância

GRIOT: Com mais de 100 músicos na família, Kimi Djabaté conta como é viver num vilarejo musical

Dona Jacira se considera uma griot em formação. Tecelã e amante da natureza, ela reúne em sua casa elementos da arte que produz com tecidos, além de suas plantas. "Antigamente, os griots eram as pessoas que levavam a história adiante. Muitos deles, originalmente, eram tecelões que se instalavam nas casas das famílias e preparavam os tecidos. A partir dali, passavam a saber o que acontecia naquela região. Quando acabavam de fazer o tecido naquela casa, eles iam para outras casas e, assim, se levava as notícias adiante. Isso é algo que se faz muito onde eu moro ainda. A minha tradução é através da fala", explica ao Reverb.  

Mãe de quatro filhos — Kátia, Katiane, Leandro e Evandro — construiu um lar calcado no samba, mas que viu a ascensão do hip-hop brasileiro no jardim de casa. Seus dois filhos são reconhecidos nacionalmente como Emicida e Fióti. Da infância, reconhece no cheiro do café o ídolo que fincou suas raízes na música nordestina: Luiz Gonzaga. “A relação dos griots com a música acontece de um jeito muito louco. Eu me lembro de, ainda de madrugada, sentir o cheiro do café sendo passado pela minha mãe logo cedo. Aquele perfume ia tomando conta do quarto e, logo depois, ela ligava o rádio e dele surgia Luiz Gonzaga. Ele ficou comigo para sempre e me faz buscar coisas do Nordeste desde muito criança. Sempre quis saber que lugar era esse onde o pessoal falava arrastado e o canto deles vinha até nós”, conta a moradora do bairro da Cachoeira, na capital paulista. 

Não importa onde esteja: sempre que sente o cheiro do café passado no coador de pano (“não é qualquer café não!”), volta à sua  formação musical. “Ele me remete à fala e ao lugar do Luiz Gonzaga e da cultura nordestina de raiz". A força da bebida é tanta em sua vida que decidiu chamar de “Café” (Editora LiteraRUA / Laboratório Fantasma) seu livro recém-lançado. Nele, compartilha histórias e pensamentos de sua trajetória. Uma aula de auto-conhecimento repassado com a humildade de quem assume que a vida é um aprendizado constante.  

Também foi pelo rádio que o samba se achegou. Dos programas que a mãe ouvia, especialmente de "O Samba Pede Passagem", recolheu os primeiros batuques que, mais tarde, seriam reavivados com a influência das escolas de samba do bairro. "Eles vinham buscar as pessoas que iriam desfilar. Quando chegava fevereiro, aquelas pessoas coloridas iam se juntando. Minha avó era evangélica e chamava aquilo de demônio, mas eu ficava me perguntando para onde aquele povo colorido ia”, relembra dona Jacira. Para além do samba, ouvia com frequência também Léo e Robertinho, Tonico e Tinoco e Nelson Gonçalves. “Minha mãe passava roupa ouvindo e cantando, apaixonadamente: ‘boneca de trapo, pedaço da vida que vive perdida no mundo a rolar. Farrapo de gente que inconsciente peca só por prazer…’”, cantarola. 

As letras entoadas pela mãe a faziam refletir: “‘O que será pecado?’, eu pensava e ficava imaginando aquelas coisas que ela ia cantando”, diz, e segue os versos de Nelson Gonçalves. Eram palavras fortes para ouvir e reflexões complexas para uma menina de cinco ou seis anos. Pouco depois, foi levada para viver em um convento, onde morou por dois anos. Lá, sofreu pela ausência da mãe e se sentiu traída por ela, por conta do afastamento. 

Quando passou a viver sozinha, começou a se interessar pelos movimentos políticos. Nas ações do Movimento Sem Terra, descobriu músicas que falavam sobre o deserto que o povo de Deus atravessava. “Perdoa se às vezes, não creio em mais nada”, canta. Em um contexto de ditadura militar, a liberdade para escutar músicas era tolhida. Dona Jacira gostava de Ney Matogrosso, mas o cantor era ousado demais para uma época de repressões. “As músicas iam sendo proibidas naquela época”, diz ela, cantando “Sangue Latino”, empolgada. “Eu nem imaginava o que era ser latino, mas essa música me ensinou isso. Isso fustiga dentro da gente uma coisa que a gente já era, mas não sabia que era”.

Da juventude, reflete sobre a importância de Martinho da Vila na sua caminhada. “'Chefe de Polícia', o primeiro samba a ser cantado no Rio de Janeiro”, ela diz, “me fez estudar a diáspora negra e entender a diferenciação do gênero”, conta. Até ali, dona Jacira aceitava a verdade que lhe haviam repassado de que “qualquer batuque era samba”.

A descoberta da variedade simbólica que cada um carregava a fez entender um pouco mais sobre sua própria história. “Há o samba do Rio de Janeiro, tem o maracatu, o samba de São Paulo, tem as variações do Maranhão, do Recife, não é tudo batuque. Cada lugar tem a forma. O fundamento do samba é africano, com as músicas e o batuque, mas como o Brasil é um país em formação, essas coisas vêm para cá e vão se transformando em várias outras. Eu passei por um tempo em que o samba virou pagode, mas em São Paulo também há os grupos de chula, de nego fugido, as cirandas, danças de mulheres... E aí eu encontro o samba que São Paulo não conhecia mais”. 

Ao perceber suas raízes no samba, dona Jacira passou a transferir essas vivências para o bordado. O som que guiava sua vida passou a definir suas peças artísticas. Com algumas delas, chegou às passarelas da São Paulo Fashion Week, em 2017, pela LAB, grife criada pelos filhos em uma parceria com João Pimenta.

Mesmo assim, a aceitação de que seus bordados constituíam uma forma de arte demorou a chegar. “Antigamente as pessoas falavam que meu trabalho era uma grande vadiagem, que era uma coisinha boba para dar de presente. Depois eu fui conhecendo um público que me disse que aquilo era um Brasil real. Isso foi por volta de 2008. Eu não me achava nem negra naquela época. Eu me achava parda. Como eu não tinha grandes dificuldades na vida, eu não me identificava com esse pessoal que sofreu. E eu não conseguia entender por que eu gostava desse trabalho. Essa foi minha angústia a vida inteira. Eu só descobri mesmo quando eu fui para a sala de aula e vi vários negros contando a mesma história que a minha. Nessa época, eu mantinha meu cabelo alisado, estava completamente segura no mundo em que eu estava. Quando cheguei em um mundo em que as mulheres estavam com seus cabelos black, com seus vestidos de chita, pensei: ‘gente, como eu sou feia’. Eu me senti um patinho feio transformado e falei para mim mesma: ‘tira essa fantasia’”. 

Música é como o dom que veio para fazer a humanidade dar as mãos, mas, antes que a gente consiga fazer isso, a gente tem que respeitar o dom dentro da gente. Quem não consegue respeitar o próprio dom se perde. E a humanidade também perde com isso

Após o período no convento, buscou forças nas mais diferentes religiões. Quando os filhos começaram a carreira musical, ela frequentava a igreja evangélica. “Eu achava que eles tinham saído pelo avesso, achava que não tinha nada meu ali, não queria aquelas músicas tocando lá em casa”, conta. Ela diz que a família ri dos episódios hoje em dia. A chave virou quando ela viu Emicida, ou melhor, Leandro cantar, e reconheceu em seus versos a sua própria história e arte. 

Antes, ela tinha medo de os dois não conseguirem colher frutos na música. “Eu lembrei do pai deles que era DJ e, como não conseguia dar baile, virou alcoólatra. Ele dançava break, ouvia James Brown, Marvin Gaye e eu perguntava quem eram aqueles caras que falavam umas coisas que a gente não entendia e ficavam se esfregando na poeira. Quando eu vi os meninos fazendo aquilo no show do Leandro, senti vergonha da minha própria ignorância”. 

Além disso, Dona Jacira foi e voltou da umbanda por vezes a fio. Ela tinha medo dos tambores. Um medo que não havia nascido nela, mas sido colocado em sua cabeça. Não no coração. “Eu fui muito amedrontada pelos tambores e tinha muito medo de voltar à umbanda. Meu coração nunca saiu, mas meu cérebro, que é a parte racional, me dizia para não ir porque aquilo era de parte do demônio”, diz ela que tentou até ser budista e falar chinês. A resistência durou até o momento em que sentiu que devia “fazer as pazes com a sua nação”. Na volta aos terreiros, conseguiu tocar tamborim e agogô. “Eu descobri que um instrumento não faz mal a ninguém, que eu posso reverenciar o meu Deus com toque de tambor”, diz. 

Dona Jacira vê na música o elemento que une a matéria ao espírito. “O que sai de dentro da gente e se liga com a outra pessoa é a música. Ela é como o dom que veio para fazer a humanidade dar as mãos, mas, antes que a gente consiga fazer isso, a gente tem que respeitar o dom dentro da gente. Quem não consegue respeitar o próprio dom se perde. E a humanidade também perde com isso.”

Dona Jacira: ' Quem não consegue respeitar o próprio dom se perde. E a humanidade também perde com isso' / Foto: Divulgação
Dona Jacira: ' Quem não consegue respeitar o próprio dom se perde. E a humanidade também perde com isso' / Foto: Divulgação

Publicidade

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest