Por onde anda Cid Guerreiro, compositor de ‘Ilariê’, da Xuxa
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Por onde anda Cid Guerreiro, compositor de ‘Ilariê’, da Xuxa

As gerações mais recentes podem não conhecê-lo pelo nome, mas é quase impossível pensar em alguém no Brasil que não tenha ouvido alguma música dele. Cid Guerreiro, baiano que foi um dos pioneiros do axé, ficou conhecido a partir dos anos 1980, quando firmou uma parceria de estrondoso sucesso com ninguém menos que Xuxa. É de Guerreiro a composição (e o riff emblemático) de “Ilariê”, uma das músicas mais conhecidas do nosso cancioneiro, que alavancou o sucesso de “Xou da Xuxa 3”, considerado o disco brasileiro mais vendido de todos os tempos. Há pelo menos 15 anos, contudo, o artista anda meio “sumido” – pelo menos do cenário mainstream do entretenimento brasileiro.

Por onde anda Cid Guerreiro? “Ministrando, cuidando das ‘ovelhas’, fazendo shows, dando palestras, projetos sociais…”, ele descreve as atividades que vêm ocupando sua agenda nos últimos anos, em entrevista ao Reverb. Hoje convertido ao evangelho, membro da Igreja da Paz de Fortaleza, o baiano largou os holofotes para se dedicar à religião e a causas sociais. “Dirijo uma igreja que é um projeto de uma comunidade carente”, acrescenta. “Tinha muitos problemas e hoje uma benção, uma coisa maravilhosa.”

Guerreiro vem de uma família de artistas e, na juventude, abandonou a faculdade para ir em busca do sonho de ser músico. Roqueiro, ele lembra de ouvir Kiss, Queen, Dave Lee Roth e Black Sabbath, entre outras bandas, antes de enveredar para a música baiana. “Quando eu vi que na Bahia o trio elétrico estava começando a ter uma força grande, vi um espaço e quis levar essa sonoridade pra cima dos trios”, conta. “Comecei com trio elétricos, mas minha praia era o rock”.

Guerreiro foi muito influenciado pela sonoridade do guitarrista Santana, e tentou unir a estética do rock com a música de trio elétrico, desenvolvendo a linguagem popularizada como o nosso axé. “O artista baiano sempre foi pesquisador. Na época, todos nós pesquisávamos músicas internacionais”, explica. “Eu gostava de rock e a pegada do trio elétrico era frevo, então o que eu fiz foi botar um suingue e a guitarra na coisa de frevo. Foi aí que surgiram os ritmos diferenciados do frevo.”

“Saí de Salvador, fui morar no Rio de Janeiro e comecei minha carreira profissional”, lembra. “Logo após meu ingresso no (famoso trio elétrico) Tapajós, conheci Chacrinha, Xuxa. Eu já tinha me apresentado no Chacrinha, a Xuxa estava no ar, e a Marlene Mattos, diretora do programa da Xuxa, me pediu pra fazer uma música estilo música baiana. Eu fiz ‘Ilariê’”. Marlene, conhecida por ter sido empresária da Xuxa, era uma das maiores do Brasil, e também passou a trabalhar com Guerreiro, que tinha exposição na TV em rede nacional, uma parceria consolidada com a Rainha dos Baixinhos e hits cada vez mais constantes (além de “Ilariê”, ele também é autor de “Tindolelê” e “Pinel Por Você”, entre muitas outras). Entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990, ele seguiu a carreira por conta própria, lançando discos de axé e lambada, tendo algum sucesso internacional, com gravações em espanhol e até ganhando prêmios na Argentina.

Guerreiro viveu intensamente os anos de fama. “Conheci o poder do dinheiro nas mãos, porque nem sabia quanto ganhava, quanto gastava, o que eu tinha de volume de dinheiro, nem no banco nem dentro da minha casa”, revela. “Mas dinheiro não compra felicidade. Só descobri isso depois. Eu era prisioneiro da fama e do sucesso. Fazia shows, tinha que entrar no hotel com dois seguranças na porta e dois embaixo. Era prisioneiro do meu próprio sucesso”.

Ele ainda chegou a se aventurar na televisão, no Espírito Santo, apresentando programas como “Tribo Radical” e “Verão da Tribo”, antes de se converter. “Fui convidado para ir a um culto na casa de um amigo meu, mas quando vi era a casa de Xanddy, do Harmonia do Samba, e de Carla Perez, ex-dançarina do É o Tchan!”, Guerreiro conta sobre o dia em que teve o contato mais profundo com a religião evangélica. Na época, há cerca de 15 anos, ele havia decidido retomar a carreira nacional, depois de se aventurar em espanhol. “Não sabia o que era coisa de evangélico, nem nada disso, não gostava. Quando cheguei lá, Deus já tinha preparado tudo. Saí convertido, já sabendo que minha vida não voltaria mais atrás. Recebi muitas propostas de dinheiro para ‘voltar para o mundo’, e eu sabia que minha direção era outra”.

Guerreiro diz que hoje, longe do sucesso, encontra a felicidade genuína, e até recrimina algumas ações do passado, como as músicas com duplo sentido (“Xibiu”, “Cabecinha do Papai”, entre outras) que gravou. “Preferia nem tocar no assunto, porque acho que na época era falta de sabedoria”, defende-se. “Hoje em dia, meu Deus do céu, a gente vê até onde a música baiana foi. Na composição do meu repertório, poucas coisas foram de duplo sentido. Minha praia sempre foi fazer música com outra roupagem. Refrãos, musicalidade fácil, poucas notas e letras que fossem alegres. Gravei ‘Xibiu’ depois de gravá-la na Argentina, como um pedido do pessoal”. Hoje, ele diz que não precisa compor: “Quem compõe pra mim é Deus. Antigamente eu me preocupava em fazer música, sucesso. Agora, ele me traz como revelação, me traz as músicas, me acorda de madrugada, vem tudo pronto. Por isso, sei o que é viver na felicidade”.

Dedicado à música evangélica, Guerreiro gravou recentemente o filme de show “Eis-me Aqui Nos Ribeirinhos”, do qual não se contém de orgulho. “O lugar onde fui gravar o DVD não tem água potável, nem luz, uma estrutura com 50 pessoas. Gente que nunca viu um som na vida, só se chega de barco. São 250 pessoas que moram nesta comunidade”, ele conta, falando da Costa do Tapará, localizada no coração da Amazônia, em Santarém, no Pará. “Queria fazer no estádio, com meus amigos participando. ‘Estádio é onde artista quer ir, aqui é lugar onde adorador vai’. Basta ver um teaser do DVD, você vai ter certeza do que é a história do Cid Guerreiro. Não quero holofote para cima de mim, quero que apareça a obra de Deus”.

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