Por que as pessoas odeiam Yoko Ono?
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Por que as pessoas odeiam Yoko Ono?

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Todo beatlemaníaco incorrigível sabe que essa categoria de fanáticos pode ser dividida em dois grupos através da opinião a respeito de Yoko Ono. Quem ainda afirma que Yoko acabou com os Beatles, que sua música é ruim por não ser convencional e principalmente quem acredita se tratar de uma oportunista precisa rever seus conceitos. Assim, possa talvez parar de reproduzir um vocabulário simplista, pobre e um tanto machista a respeito de uma grande artista. 

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A verdade é que a trajetória e principalmente o trabalho de Yoko Ono poderiam jamais ter cruzado com os Beatles que continuariam relevantes e merecedores de um lugar de destaque na história da arte do século XX. Antes de se apaixonar e se casar com John Lennon, no fim da década de 1960, Yoko já era uma performer, artista plástica e poeta importante, com um caminho profissional verdadeiramente pungente, que havia trabalhado com nomes como John Cage, Morton Feldman, La Monte Young, o grupo Fluxus, além de uma série de artistas experimentais japoneses. 

Muito é dito a respeito de como John e Yoko se conheceram, mas a verdade é que os fatos ao redor de tal encontro efetivamente pouco importam. Duas pessoas se apaixonaram, como diariamente acontece em cada bairro de cada cidade. Ocorre que uma dessas pessoas era o artista mais famoso do mundo na época, e a outra era uma mulher japonesa que estava, com o perdão do clichê, à frente de seu tempo. E o mundo jamais os perdoou essa combinação. 

A maneira com que Yoko é tratada pelos historiadores de música ao escreverem sobre os Beatles pode ser vista como um termômetro do próprio machismo, sexismo e da desigualdade de gênero do mundo. Os bons livros, porém, apontam o óbvio: quem acabou com a banda foi a própria banda, e mais precisamente, John Lennon e Paul McCartney e as brigas financeiras e empresariais. A pressão era demais, o tempo havia passado, todos estavam cansados, e era hora de seguir em frente. 

Yoko Ono é uma artista que, em verdade, recebeu contra ela por toda sua vida um ódio proporcional ao seu brilhantismo e sua coragem

Supor, afinal, que os dois mais importantes compositores da história da música pop permitiriam que outras pessoas que não eles dois – excluindo, inclusive, George Harrison e Ringo Starr de tal conta – acabassem com a banda é, para dizer o mínimo, ingênuo. A verdade é que Yoko ajudou Lennon a se tornar um artista mais complexo, desafiador, não-convencional e, acima de tudo, vivo, minimamente são e produzindo, em um momento que as drogas e a própria loucura da época, de seu sucesso e de sua cabeça possivelmente o levariam ao ocaso ou à morte. 

A forte influência de Yoko sobre John é algo que o mundo deveria celebrar, admirar e perceber nas interessantes performances, peças musicais, provocações artístico-políticas, trabalhos plásticos e nos discos de ambos, a partir de 1968 até o assassinato do ex-beatle, em dezembro de 1980. Para além disso, trata-se somente de uma confusa, complexa, um tanto louca, intensa e interessante história de um casal – que calhou de acontecer sob os holofotes e olhares do mundo. 

O não-conformismo, a rebeldia, a provocação ao status quo político, social, sexual e comportamental colocam em verdade Yoko Ono não só como uma corajosa feminista vinda de uma família tradicional japonesa, como uma importante e influente cantora e compositora – mesmo tendo o mundo contra ela. Sem pedir licença a ninguém, Yoko foi punk antes do punk, foi new wave quando o punk ainda engatinhava. Os gritos, as guitarras barulhentas em noise, a rejeição ao establishment, está tudo lá – e com a impulsividade e a autonomia que viriam a definir o slogan punk do “faça você mesmo”

Yoko fez a música pop se aproximar das vanguardas musicais e artísticas com naturalidade, sabendo se tratar também de um gesto ético, social, político. Sua influência sobre Lennon só pode ser rejeitada por alguém que não o admirava como realmente era: indomável, inconformado, revolucionário e provocador como ele sempre quis de fato ser – e incomodar aos ouvidos e espectadores conservadores ou acomodados é parte essencial de tal influência. Pattie Smith, Blondie, Sonic Youth, Gang of Four, e mesmo Madonna, Joan Jett, St. Vincent e Lorde transitaram ou transitam por caminhos pavimentados por Yoko Ono – uma artista que, em verdade, recebeu contra ela por toda sua vida um ódio proporcional ao seu brilhantismo e sua coragem. 

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