Prince: memórias da engenheira de som que o acompanhava em longas e solitárias jornadas no estúdio
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Prince: memórias da engenheira de som que o acompanhava em longas e solitárias jornadas no estúdio

Lançada em junho, em streaming, e com vendas em LP e CD previstas para o mês seguinte, a coletânea “Originals”, com demos inéditas de Prince (1958-2016) traz, além do artista tocando suas primeiras versões para canções que se tornariam hits, a presença constante da engenheira de áudio Peggy McCreary, que trabalhou com ele entre 1981 e 1986.

Uma das poucas mulheres em uma função majoritariamente masculina, Peggy costumava ser a única pessoa na sala de estúdio, durante o processo de mixagem, junto com Prince — sabidamente, uma pessoa difícil, de ego inversamente proporcional ao seu 1,57 metro de altura.

Peggy McCreary trabalhou com Prince entre 1981 e 1986 / Foto: Reprodução
Peggy McCreary trabalhou com Prince entre 1981 e 1986 / Foto: Reprodução

Em entrevista ao site Pitchfork, Peggy conta seus momentos de tensão, dos aprendizados mútuos — e até de alguma (rara) ternura — com o baixinho de Minneapolis, em Los Angeles, no estúdio Sunset Sound, durante sua fase mais produtiva, na qual se transformou em um superstar.

Essa meia década incluiu os álbuns “Controversy” (1981), “1999” (1982), "Around The World In A Day” (1983), a megaestourada trilha sonora de “Purple Rain” (1984) e “Parade” (1986).

As quatorze faixas de “Originals” vão de “Manic Monday”, que ele entregou às Bangles a “You’re My Love”, composta por Prince sob o pseudônimo de Joey Coco e lançada por Kenny Rogers, passando por músicas compostas junto com cantoras que viriam a lançá-las, como as parceiras Martika (“Love… Thy Will Be Done”) e Sheila E. (“Holly Rock” e “Noon Rendezvous”).

A lista não poderia deixar de fora “Nothing Compares 2 U”, dada, inicialmente a The Family — primeira banda de Prince e, depois, contratada por ele em sua gravadora Paisley Park Records —, mas que viria a estourar em 1990, tornando-se o grande sucesso da irlandesa Sinéad O’Connor.

“Ele [Prince] me disse uma vez que a única razão pela qual ele foi para casa foi porque ele sabia que eu precisava dormir", lembra Peggy McCreary, que era uma espécie de faz-tudo do Sunset Sound quando precisou se transformar em engenheira de áudio em um fim de semana quando um estúdio próximo, Hollywood Sound, precisou de um profissional urgente para trabalhar, em um fim de semana, justamente com… Prince.

“A recepcionista disse: ‘Peggy não pode trabalhar sozinha no estúdio no fim de semana com ele. Prince escreve músicas realmente sujas sobre boquete e outras coisas do tipo'”, lembra a engenheira. A imagem de Prince, no entanto, viria a ser de uma pessoa geralmente educada e discreta, mas que pouco falava — geralmente, para reclamar dos músicos.

Prince toca guitarra durante ensaio / Foto: Arquivo / Reprodução
Prince toca guitarra durante ensaio / Foto: Arquivo / Reprodução

“Eu disse ‘sabe de uma coisa? Se você quer que eu trabalhe com você, você vai ter que falar comigo, na minha cara, para que eu possa ouvir você!’”, lembra Peggy. “Isso foi no “‘Controversy” . Nós terminamos esse álbum, e eu pensei “nunca mais vou trabalhar com esse cara’. Mas ele voltou para fazer o “1999” e pediu que quem estivesse fosse eu. Então eu acho que nos conectamos de alguma forma. Mas ele não era muito comunicativo e não era muito cordial. Não tinha o básico que a maioria das pessoas têm — olá e tchau e obrigado”.

Isso não eliminou a insegurança por trabalhar com Prince. “Me lembro depois do ‘1999’, quando éramos só eu e ele no estúdio, estávamos trabalhando no Vanity 6 [trio vocal feminino para o qual Prince compôs “Make-Up”, com demo também presente em “Originals”], eu acho. Eu perguntei ‘você gosta do meu trabalho?’ e ele olhou para mim como se dissesse ‘você está aqui, não é?’ Isso é tudo que você tinha dele”, lembra a engenheira de áudio.

Peggy McCreary ressalta que sentia Prince “mais confortável com as mulheres, em geral”, em seu trabalho. “Eu acho que é por isso que ele se cercou de mulheres [vide a guitarrista Wendy Melvoin, que toca o riff de “Kiss”]. Sendo uma mulher no estúdio, ou você tem muito ódio - que você não deveria estar lá — ou muita atenção indesejada, que você tinha que administrar sem ofender. E ele era apenas ... você era um igual. Eu nunca me senti objetificada por ele”, afirma.

Durante o período em que trabalhou com Prince, Peggy McCreary ensinou técnicas a ele — e, depois, se admirou com o que ele fazia com a lição. Inusitadamente, ela o ensinou a usar uma mesa de mixagem para que ele pudesse assistir ao seriado “Dallas” no estúdio.

Registro de Prince em gravação no estúdio / Foto: Arquivo / Divulgação
Registro de Prince em gravação no estúdio / Foto: Arquivo / Divulgação

De posse desse conhecimento, Prince a surpreendeu no dia seguinte àquele em que — para ela — haviam finalizado “When Doves Cry” no estúdio. “Não prestei muita atenção à música, que parecia grandiosa e superproduzida demais. Mas, quando a escutei [no álbum], vi o porquê. Nós voltamos no dia seguinte e ele basicamente não produziu — tirou todos os sintetizadores e as guitarras gritando. A última coisa que ele fez foi tirar o baixo. Ele apenas olhou para mim e disse: ‘ninguém vai acreditar que eu faço isso’. E foi um grande sucesso!”

Eu só acho que é onde a música o levou. Eu me lembro de quando nós fizemos “When Doves Cry”, eu não prestei muita atenção a isso. Parecia uma coisa grandiosa e superproduzida. E quando eu escutei o original, eu vejo o porquê. Nós voltamos no dia seguinte e ele basicamente não produziu - tirou todos os sintetizadores e as guitarras gritando. A última coisa que ele fez foi tirar o baixo. Ele apenas olhou para mim e disse: "Ninguém vai acreditar que eu faço isso". E foi um grande sucesso!

Prince chegou a “prender” Peggy McCreary em estúdio no dia do aniversário dela. “Eu estava, tipo, ‘Deus, ele não poderia me dar meu aniversário de folga? Merda!’ (...). Nós trabalhamos em uma música rockabilly durante todo o dia. Então terminamos, e eu fiz um cassete e entreguei a ele. E ele ficou lá na porta com um sorrisinho no rosto, jogou a fita para mim e disse ‘feliz aniversário!’. E essa era a minha canção de aniversário. Eu tenho uma música inédita do Prince. Para ele, esse provavelmente foi o maior presente que ele poderia ter me dado — um dia no estúdio!”

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