Projeto de hip-hop de Nova Iguaçu mobiliza jovens a mudarem o próprio bairro
Inspiração

Projeto de hip-hop de Nova Iguaçu mobiliza jovens a mudarem o próprio bairro

A arte transforma, sendo capaz de mudar realidades e comportamentos. Com o hip-hop não é diferente. E foi através dele que Dudu de Morro Agudo, rapper, escritor, mestrando em Educação e empreendedor social, de 39 anos, começou a transformar a própria realidade e a de outros jovens do lugar em que nasceu e cresceu. Foi ele quem criou, há mais de 18 anos, o Instituto Enraizados, ONG que realiza oficinas de grafite, saraus de poesia, workshops e diversos eventos de integração com a comunidade de Morro Agudo, em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Sempre mesclando arte e ativismo.

Dudu é figura renomada no rap, com reconhecimento dentro e fora do país. Em 2015, com o grupo #ComboIO, foi campeão do Take Back The Mic, em Miami, Estados Unidos, uma espécie de Copa do Mundo do hip-hop. Ele tem uma carreira sólida na cena musical, com mais 200 músicas gravadas, mas foi no ativismo, carregando no nome artístico da sua comunidade, que Flávio Eduardo da Silva Assis viu seu trabalho reverberar ainda mais.

O Enraizados começou a partir de uma necessidade muito genuína do rapper. Jovem, negro e morador de uma região violenta, Dudu era um garoto cheio de perguntas, sem nenhuma resposta. Até conhecer o rap, aos 13 anos. “A minha história é muito parecida com a molecada preta da minha época. Eu era um jovem frustrado, não entendia por que as pessoas me viam de forma diferente. É quando você começa descobrir o racismo. Nem meus pais sabiam me explicar porque aquilo acontecia. E um dos meus melhores amigos da época, que considero como um irmão, conseguiu uma fita cassete com raps gravados. Nesses raps, vinham todas as respostas para as dúvidas que eu tinha e até para as que eu ainda não tinha”, conta, em entrevista ao Reverb.

Dudu de Morro Agudo é o idealizador do projeto Enraizados / Divulgação
Dudu de Morro Agudo é o idealizador do projeto Enraizados / Divulgação

Anos mais tarde, o incentivo para a criação do instituto veio de uma situação inusitada. Quando tinha 18 anos, Dudu comprou uma revista de rap que permitia que os leitores se correspondessem entre eles. Enviou cartas para pessoas do movimento de outros estados se apresentando, dizendo fazer parte de uma grande organização de hip-hop (que na época só existia em sua imaginação) e propondo uma integração em todo o país através da arte.

O nosso trabalho de frente não é nem o hip-hop, porque os moleques já chegam aqui sabendo cantar, sabendo grafitar, então a gente trabalha com formação cidadã

Deu certo. Vários interessados responderam, e foi então que o Enraizados deixou de ser apenas uma ideia. Em 2007, o projeto conseguiu uma sede própria e chegou a contar com 40 funcionários. Até ser impactado com a crise financeira entre 2013 e 2014, quando sofreu com a perda de patrocínios. Foi justamente o título de campeão em Miami que possibilitou o instituto tomar um novo fôlego e conseguir o espaço que ocupa hoje, justamente onde tudo começou: o Morro Agudo.

Atualmente, o local trabalha com três frentes: formação, intercâmbio e comunicação que, juntos, resultam em outras atividades como festivais de incentivo à criatividade e à economia local, além de intervenções culturais e políticas de impacto direto no bairro e em outras localidades carentes.

“Tudo o que a gente faz no Enraizados a gente também ensina a fazer. Somos do hip-hop, mas a gente dialoga com todo o tipo de instituição e com todo o tipo de pessoa. A gente traz pessoas para dentro do projeto e também leva para fora. E fora do Enraizados pode ser ali na praça, fora do estado ou até fora do país. O nosso trabalho de frente não é nem o hip-hop, porque os moleques já chegam aqui sabendo cantar, sabendo grafitar, então a gente trabalha com formação cidadã”, explica.

Assim, promovendo formação social e consciência política através do olhar crítico do rap, Dudu de Morro Agudo multiplica o que sabe e troca vivências com outros jovens dispostos a não serem simples espectadores da própria vida e da própria sociedade. As rodas de conversa entre os integrantes do instituto são constantes. E é nelas que, antes de tudo, se baseia o trabalho do Enraizados.

“A arte é reflexo daquilo que você vive. Daquilo que você discute. Então, para mim, é muito mais fácil ficar horas discutindo sobre algum assunto com eles, do que ficar horas compondo, por exemplo. A arte é técnica e repetição. A inspiração vem da vivência. A discussão política aqui é diária”, finaliza.

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