Que fim levaram as Go-Go's? No Rock in Rio de 1985, elas fizeram amizade com Neusinha Brizola e foram 'doidas demais' para Ozzy Osbourne e Rod Stewart
Rock in Rio 35 anos

Que fim levaram as Go-Go's? No Rock in Rio de 1985, elas fizeram amizade com Neusinha Brizola e foram 'doidas demais' para Ozzy Osbourne e Rod Stewart

A resposta à pergunta é fácil: por onde andam as Go-Gos, atração marcante, mas um tanto quanto decepcionante, da primeira edição do Rock in Rio, em 1985? Bem, elas estão em razoável evidência nos Estados Unidos. No Sundance Film Festival que começa na próxima quinta-feira (23/1), há um documentário que terá sua estreia mundial no dia 26 de janeiro. O nome? “The Go-Go’s”, simplesmente. Dirigida pela australiana Alison Elwood, que também assinou um filme sobre The Eagles (“History of The Eagles”, de 2013), a produção é descrita como “uma crônica da ascensão meteórica de uma banda que saiu da cena punk de Los Angeles para se tornar fenômeno pop”.

Um musical produzido pela atriz Gwineth Paltrow com 18 músicas das Go-Go’s, “Head Over Heels” (mas inspirado em um livro sem relação com a banda ou suas integrantes), esteve em cartaz na Broadway, em Nova York, entre julho de 2018 e janeiro de 2019.

Nada mal para uma banda de carreira irregular, com longos hiatos desde o começo, em 1978, e apenas quatro álbuns lançados (o último deles, “God Bless The Go-Go’s”, de 2001, sucedendo sem grande repercussão a reluzente trinca inicial “Beauty and The Beat”, de 1981, “Vacation”, de 1982, e “Talk Show”, de 1984).

As Go-Go's em 1985, ano em que tocaram no Rock in Rio/ George Rose (Getty)
As Go-Go's em 1985, ano em que tocaram no Rock in Rio/ George Rose (Getty)

Confortáveis na condição de item de nostalgia pop desde o começo deste milênio, as Go-Go’s completaram sua turnê oficial de despedida em 2016, mas volta e meia fazem shows avulsos, conforme a demanda da memória afetiva americana e as brechas nas agendas individuais das integrantes. A última reunião gerou uma série de três apresentações no Hollywood Bowl em julho de 2018.

Em 1985, quando as Go-Go’s vieram ao Brasil, não eram exatamente desconhecidas. Importância história já tinham: foram o primeiro grupo inteiramente formado por mulheres a ter um álbum em primeiro lugar nos Estados Unidos, contavam com credibilidade por ter surgido na cena punk da Califórnia, tinham aberto turnês para grupos como The Police... Para o público brasileiro, já havia algumas referências, um de seus hits, “Our Lips Are Sealed”, tinha até feito parte da trilha do filme “Menino do Rio”, exibido em 1982.

A banda era uma aposta no segmento “new wave” do Rock in Rio. Mas chegou em momento complicado. A guitarrista Jane Wiedlin, co-autora de “Our Lips Are Sealed” junto com o inglês Terry Hall, do Fun Boy Three e dos Specials, tinha saído para uma carreira solo — que jamais decolou — menos de dois meses antes das datas no Brasil.

A banda tentou consertar isso de maneira infeliz, passando a baixista Kathy Valentine para a guitarra-base e contratando uma nova baixista, Paula Jean Brown. As duas funções saíram perdendo. Mesmo ensaiando diariamente em dezembro, a banda não soava tão coesa, como observou a própria cantora Belinda Carlisle, em sua autobiografia “Lips Unsealed: A Memoir”.

O livro, lançado em 2010, trouxe muitos detalhes controversos da passagem dela pelo Brasil. Belinda estava começando a viver problemas com o vício em cocaína, que tentava consumir sem que o marido, Morgan Mason, soubesse. Uma das perspectivas que mais a excitava com a viagem ao Rio, mais até do que a chance de tocar num evento gigante com bandas legendárias, era poder comprar muita droga a um preço irrisório, para os padrões californianos: cinco dólares a grama.

Belinda conta que, por sua conta e risco, pegou um táxi no Copacabana Palace e pediu para ser levada a um lugar que vendesse pó. Foi parar numa favela, claro, e trouxe uma quantidade farta, uma pequena montanha de cocaína que definiu como “a maior que já tinha visto”. No mesmo dia, por coincidência, tinha uma festa no hotel organizada por Rod Stewart. E nesse evento travou conhecimento com uma “filha de um político local’, que, pela descrição, tem tudo para ser a saudosa Neusinha Brizola, filha do então governador do Rio Leonel Brizola.

Pois Neusinha lhe indicou um traficante muito melhor, com droga de melhor qualidade, e que morava de frente para o mar, possivelmente no Leblon ou Ipanema.

O resultado foi que, com tanto combustível, as Go-Go’s conseguiram cansar até o party animal Rod Stewart, que expulsou todo mundo de sua suíte em determinado momento da festa, alegando que, dentro de não muitas horas, tinha um show para fazer. Ele fez o show, elas também fizeram. O dele foi um sucesso imenso, rendendo momentos antológicos, como o coro de 200 mil pessoas em “Sailing”. O delas conseguiu decepcionar até alguns “new wavers” mais empedernidos.

Em outro episódio famoso do Rock in Rio, a guitarrista Charlotte Caffey conseguiu a façanha de ser expulsa do camarim de Ozzy Osbourne por estar doidona demais. “Isso resume tudo. Foi o auge do nosso abuso de drogas — abuso mesmo, não uso”, recordaria a baterista Gina Schock, anos depois. As Go-Go's brigaram e terminaram com a banda pela primeira vez meses depois, ainda em 1985.

Charlotte teve que se afastar dos palcos ainda no milênio passado, devido a um problema degenerativo nos canais auditivos. Mas mantém-se musicalmente ativa, compondo com o marido Jeff McDonald, cantor e guitarrista da banda Redd Kross. A baterista Gina Schock desenvolveu razoável carreira como atriz e, em novas funções, compôs hits para Miley Cyrus e Selena Gomez. Jane Wiedlin jamais decolou na carreira solo e voltou ao grupo em outras ocasiões. Kathy Valentine também tem carreira significativa no Texas e, depois de processar as ex-colegas, reatou a ligação (ainda que apenas profissional) e tocou com elas em 2018.

Belinda, apesar de ter feito oito álbuns solo de estúdio, teve uma carreira decepcionante após a primeira fase das Go-Go's. O último álbum, de 2017, “Wilder Shores”, é de cânticos indianos de ioga kundalini. O anterior, de 2007, “Voilà”, era uma excentricidade, um exercício em chansons francesas. O que mais atrapalhou sua trajetória foi o vício em cocaína, que manteve até 2005.

Aos 61 anos, ainda casada com Morgan Mason, vegetariana, ela é ferrenha ativista pelos direitos animais, vinculada à Peta, e também milita pelos direitos LGBT — seu filho Duke, é gay assumido desde os 14 anos. Em junho, Belinda vai fazer uma temporada em Nova York, no famoso Carlyle Café (nenhuma relação com a família), tradicional endereço intimista dos amantes do jazz.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest