‘Que se dane o Yes, vou beber minha cerveja’: Guto Goffi e Maurício Barros, do Barão Vermelho, relembram Rock in Rio de 1985,  em momento histórico
Rock in Rio 35 anos

‘Que se dane o Yes, vou beber minha cerveja’: Guto Goffi e Maurício Barros, do Barão Vermelho, relembram Rock in Rio de 1985, em momento histórico

Quando Cazuza deixou o palco do Rock in Rio no dia 15 de janeiro de 1985, os ventos que sopravam eram o da esperança. Tancredo Neves havia acabado de se eleger, pelo voto indireto, à presidência da República, colocando fim a um período de mais de duas décadas de severa ditadura militar. "Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã, com um Brasil novo, com a rapaziada esperta!", disse o líder do Barão Vermelho antes de deixar o palco, encerrando a apresentação com “Pro Dia Nascer Feliz”.

“Eu tenho um pouco de frustração de ter feito parte da geração que acreditou na mudança, era um momento de luz porque a gente acreditava que o país não estava vendido. A gente falava aquilo de coração aberto e não aguentava mais ver o Brasil, um país novo, todo travado na ditadura”, relembra Guto Goffi, baterista da banda, em entrevista ao Reverb feita pelo telefone.

Guto Goffi se apresentou na primeira noite do Barão no Rock in Rio 1985 com duas bandeiras do Brasil na bateria / Foto: Reprodução
Guto Goffi se apresentou na primeira noite do Barão no Rock in Rio 1985 com duas bandeiras do Brasil na bateria / Foto: Reprodução

Na primeira apresentação do grupo no festival — eles retornariam ao palco cinco dias depois, em 20 de janeiro, para outro show — o contexto político ajudou a dar o tom no nervosismo dos então jovens meninos do Barão: à época, Cazuza era o integrante da banda mais velho, com 26 anos. Guto, que colocou duas bandeirinhas do Brasil na bateria no primeiro show, e Roberto Frejat, que vestiu verde e amarelo para a performance, tinham 22; Maurício Barros, tecladista, 21, e Dé Palmeira, baixista, era o mais jovem, com 19 anos.

"A gente era tudo garoto. Nós nunca tocamos para uma plateia daquele tamanho. Deu aquela balançada do tamanho da responsabilidade e do tamanho do palco", conta Maurício. Guto lembra que a primeira memória que tem do festival é de quando a Cidade do Rock ainda não estava nem pronta. “A gente foi até lá e ainda era um grande matagal perto do Recreio, mas um descampado, um terreno baldio enorme que só tinha uma pequena construção de alvenaria, que era uma bilheteria no cimento. Só tinha isso construído na época”, conta.

Além da pressão por tocar em um festival daquele tamanho, a reação do público também deixou a banda aflita. Antes do Barão, Eduardo Dussek e o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens haviam sido vaiados por boa parte da plateia. "O público do Barão a gente sabia que era fiel, mas a gente não sabia como aquele público ia reagir", diz Maurício.

Apesar da tensão, o grupo estava "azeitado", como definiu Guto. Com o lançamento do álbum “Maior Abandonado” no ano anterior, a rotina da estrada, incluindo uma turnê de 21 dias seguidos pelo Nordeste, tinha dado ao Barão Vermelho uma sinergia de palco como poucas já vistas no rock nacional.

Maurício Barros nos teclados do Barão / Foto: Reprodução
Maurício Barros nos teclados do Barão / Foto: Reprodução

“Antes de tocarmos, me lembro da expectativa de um grande festival e até de uma certa desconfiança porque era algo muito fora da nossa realidade de show business no Brasil. E olha que já tinham vindo alguns artistas internacionais como o Genesis, o próprio Jackson 5, mas não era comum ter um festival aqui com aqueles artistas. Faz tanto tempo que parece que foi em outra vida”, reflete.

O Barão Vermelho subiu ao palco do Rock in Rio de 1985 em dois dias. Além da apresentação no dia 15, o quinteto voltou para uma segunda performance no dia 20. Apesar de tecnicamente iguais, os dois dias tiveram shows bastante diferentes.

"A gente entrou no palco, no dia 15, e já estava escuro. Fomos fazer o show com uma certa apreensão por conta das reações ao Eduardo Dussek e ao Kid Abelha (parte do público havia sido hostil com eles). Público de festival é mais amplos e nós também não estávamos acostumados com um palco daqueles, naquelas dimensões” explica Maurício. “Você queria tocar tudo certinho também, não errar nota nenhuma”, diz, em meio a risos. “Hoje é bacana de ver meu corte de cabelo. Talvez não fosse o melhor, com aquele mullet, mas estava totalmente na moda na Inglaterra. Depois o Chitãozinho e o Xororó descobriram também e aí popularizou”, brinca.

Barão Vermelho na formação atual: Guto Goffi, Fernando Magalhães, Rodrigo Suricato e Maurício Barros / Foto: Divulgação / Marcos Hermes
Barão Vermelho na formação atual: Guto Goffi, Fernando Magalhães, Rodrigo Suricato e Maurício Barros / Foto: Divulgação / Marcos Hermes

“A gente viu, depois, que o show foi bem recebido e que as pessoas gostaram. Quando a gente foi fazer o segundo show, do dia 20, já estávamos mais relaxados. Acabou que eu fui com a camisa furada que minha avó costurou para mim e que eu usava no meu time de futebol alguns anos antes”, se diverte o tecladista. Guto também concorda que o segundo show foi mais descontraído, até por ter sido durante o dia. “A gente foi de bermuda, mais relaxado. Eu acreditava muito que o primeiro tinha sido melhor, mas eu vi depois que o segundo show é maravilhoso também, muito leve e com as pessoas curtindo de verdade”, completa.

A única lembrança negativa daquele dia veio do Yes. A banda inglesa de rock progressivo que fecharia a noite de apresentações. Por conta da presença deles no backstage, muitos artistas nacionais tiveram que ficar “trancados” nos camarins por alguns momentos. “Eles iam entrar e a gente curtia o Yes bastante, eu pelo menos curtia muito. E eles pediram que ninguém saísse dos camarins para eles cruzarem o corredor até o camarim deles. Eu achei ridículo. A gente teve que ficar confinado no camarim porque eles iam passar. Achei de uma indelicadeza deles... No entanto, eu admiro a banda pelo trabalho que foi feito. Ao longo dos anos eu me desinteressei, mas essa foi a primeira coisa que me fez pensar que talvez eu estivesse curtindo pessoas que não tinham muito nada a dizer. Fiquei irritado e disse: ‘Que se dane o Yes, vou beber minha cerveja’”, relembra Mauricio.

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