Raul Seixas foi muito mais que um guru, maluco beleza, alcoólatra autodestrutivo e mago
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Raul Seixas foi muito mais que um guru, maluco beleza, alcoólatra autodestrutivo e mago

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Se formos capazes de deixar de lado por um segundo a imagem do guru, do ícone doidão, do maluco beleza, do alcoólatra autodestrutivo, do mago ou os imitadores caricatos e até mesmo o sucesso onipresente de algumas de suas canções, poderemos chegar a um ponto tão essencial quanto injustamente soterrado debaixo de tantos rótulos: Raul Seixas foi um dos melhores e mais interessantes compositores da música brasileira. Ponto. Poucos alcançaram tanto sucesso e ainda criaram um repertório tão vasto e plural de grandes canções, independentemente do sucesso comercial destas, como fez Raul Seixas.

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É claro que foi o próprio Raul o principal arquiteto do folclore ao redor de sua figura — que hoje parece ter se tornado maior do que propriamente a herança de suas músicas e sua arte. Mas, tal qual acontece com Bob Marley, John Lennon e até mesmo Jesus Cristo (já que o assunto também sempre será um tanto místico, simbólico e mitológico quando se fala em Raulzito), muitas vezes acabamos olhando somente para a sombra da imensidão desses folclores. Dialogamos exclusivamente com a camada mais externa, visível e engessada dos mitos — esquecendo o que de fato os levou à eternidade: suas obras. Seja como for, o Raul Seixas que mais merece ser lembrado é sem dúvidas o grande compositor que o baiano foi, além de um dos mais importantes fundadores do rock e da música pop no Brasil. 

Não que a simbologia e as canções mais famosas de Raul Seixas não mereçam nosso interesse, debate e admiração. Muito pelo contrário, é seu o pioneirismo e a coragem em falar sobre temas densos e complexos dentro da música popular, como astrologia, morte, ocultismo, religiosidade pagã, ufologia. Junte-se a isso críticas sociais tão utópicas quanto contundentes, ao ponto de chegar a efetivamente propor uma nova estrutura social, uma sociedade alternativa, e tudo isso no contexto da ditadura militar. 

E por mais que tenham se repetido à exaustão, os mais famosos clássicos de Raul são todos grandes canções. “Maluco Beleza”, “Metamorfose Ambulante”, “Mosca na Sopa”, “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, “Trem das 7”, “Aluga-se”, “Cowboy Fora da Lei”, “O Dia em Que a Terra Parou”, “A Maçã”, “Al Capone”, “Rock do Diabo”, “Tente Outra Vez”, “O Carimbador Maluco”, “Como Vovó Já Dizia” e muito mais. É espantoso como pode ser extensa a lista de clássicos imortais de seu repertório — e faltaram na seleção talvez seus dois maiores sucessos, “Gita” e principalmente “Ouro de Tolo”, destacadas aqui por se tratarem de duas das maiores obras-primas da música brasileira. 

É difícil lembrar de algum outro compositor no mundo que tenha sido capaz de transitar pela música de protesto e músicas com humor sem perder a qualidade

Esse texto, no entanto, poderia ser somente uma muito mais extensa lista de canções “desconhecidas”, ao menos do grande público (se é que é possível alegar que alguma coisa da obra de Raul Seixas não é celebrada pelos fãs mais apaixonados) que merecem também a imortalidade no berço esplendido do imaginário popular, na dimensão do compositor que Raul Seixas foi. “Medo da Chuva”, “Meu Amigo Pedro”, “Tu és o MDC da minha vida”, “Eu também vou Reclamar”, “Eu sou Egoísta”, “Sapato 36”, “Rockixe”, “Metrô Linha 743”, “S.O.S”, “Abre-te Sésamo”, “Água Viva”, “Super Heróis”, “Paranóia”, “Cachorro Urubu”, “As Minas do Rei Salomão”, “As Minas do Rei Salomão”, “Só Pra Variar”, “Novo Aeon”, “Todo Mundo Explica”, “É Fim de Mês”, “Teddy Boy, Rock e Brilhantina”, “A Verdade Sobre a Nostalgia”, “Sessão das 10” e a lista nem começou.

É difícil lembrar de algum outro compositor no mundo que tenha sido capaz de transitar pela música de protesto e músicas com humor sem perder a qualidade — ou sem desaparecer na passagem do tempo, quando passa o contexto em que foram compostas originalmente. Tratam-se possivelmente dos dois gêneros mais difíceis de se trabalhar em canções: basta um mínimo excesso ou deslize para que a música de protesto soe pernóstica, arrogante, didática ou autoritária, e o mesmo vale para as músicas humoradas ou engraçadas, que invariavelmente acabam soando bobas, descartáveis ou esvaziadas com o tempo. Raul Seixas, porém, não só trabalha com maestria nos dois campos, como muitas vezes consegue combinar as duas coisas — ou “Ouro de Tolo” não é, ao mesmo tempo, uma canção de protesto contundente com toques efetivamente cômicos? 

Há uma força juvenil na relação entre a obra de Raul e seus fãs e talvez nas próprias canções que, no entanto, se afirma como virtude, e não como infantilidade ou imaturidade do criador: tal qual muitos artistas ligados ao rock, a obra de Raul funciona como um espelho, uma bússola para nossas jovens identidades em formação, apontado a direção diante dos grades temas de que as músicas tratam – vida e morte, futuro, capitalismo, misticismo, loucura, amor – para que possamos, um pouco através da identificação com as canções, nós tornarmos quem de fato somos. É similar à relação que costumamos ter com a obra de artistas como Pink Floyd, Elvis, Beatles, Nirvana, Legião Urbana, Queen. Trata-se de um tipo de artista dos mais singulares: aqueles que se entranham na vida de seus admiradores de tal forma, que é como se passassem a ser parte do DNA de quem os ouve — como se ajudassem cada um a ser quem de fato se é.   

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