'Renascida' após atropelamento e longa convalescença, Tita Lima fala sobre o disco e a cantora que sobreviveram
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'Renascida' após atropelamento e longa convalescença, Tita Lima fala sobre o disco e a cantora que sobreviveram

De família intimamente ligada à música, ela aprendeu a tocar piano com avó e baixo com seu pai, Liminha, produtor e ex-membro de Os Mutantes. Tita Lima até tentou fugir da música por um tempo, mas sempre foi artista. "Na escola eu era aquela que organizava e dirigia as apresentações de dança e teatro. Eu amava fotografia numa época em que não havia foto digital e revelava meus filmes no quintal de casa", conta Tita, que está lançando seu terceiro CD, "Titanium".

Tita foi adolescente para os Estados Unidos com a família, onde estudou cinema. "Durante a faculdade eu fazia o book de atores e atrizes iniciantes, e à noite trabalhava na House Of Blues, casa de shows em Los Angeles. Era também assistente de produção numa produtora de vídeo e, entre um dos cineastas com quem trabalhei, estava Samuel Buyer, diretor do clipe "Smells like teen spirit", do Nirvana. Ele foi quem mais me incentivou, ensinando fotografia, me emprestando uma Hasselblad durante as filmagens. Então, mesmo que indiretamente, sempre estive ligada à música", conta.

Tita criança com o pai Liminha. Divulgação
Tita criança com o pai Liminha. Divulgação

A vida corrida dos sets de filmagens precisou ser interrompida quando Tita não conseguiu mais conciliá-la com o papel de mãe. Foi quando voltou ao Brasil com o pequeno Caio e se instalou na Vila Madalena. "Estava ao lado de Grazie A Dio, Studio SP, Ó do Borogodó (bares com programação musical alentada) e perto do yb, famoso estúdio de publicidade paulista. Um dia fui chamada para gravar um jingle lá e alguém comentou com o meu primo, que me chamou para cantar poesias dele. Nessa banda estavam Tatá Aeroplano, Guilherme Held, Gustavo Ruiz, Zé Aurélio... chamava-se Luz de Caroline. Eu virei a Caroline", brinca.

Um dia, o trombonista Bocato viu Tita cantando e a convidou para gravar uma canção, que acabou dando origem ao seu primeiro disco, "11:11", lançado em 2007. Um trabalho que, ao contrário do que muitos podem pensar, não teve influência de seu pai. "Ele recebeu o CD pronto. Acho que estávamos meio brigados na época, normal entre pai e filha. Depois, ele mandou uma mensagem linda no Myspace. Foi legal ele não estar no primeiro disco para eu me assegurar como artista sozinha. Depois nos reaproximamos e ele sempre grava um baixo ou uma guitarra nos meus discos", diz.

Ser filho de famoso é sempre uma estigma para jovens que seguem seus mesmos passos profissionais. Com Tita e Liminha não foi diferente, mas ela diz que hoje em dia lida bem com isso. "Aprendi a aceitar que essa comparação, que já me incomodou mas não ligo mais, vai me acompanhar para sempre. Tenho um puta orgulho dele e hoje em dia tenho segurança do que faço", afirma.

Renascimento

Tita lançou o segundo CD, "Possibilidades", em 2010 e, três anos depois, gravou o "Titanium" ao vivo com a banda e no estúdio Plug in, em São Paulo, em maio de 2013. "Estava finalizando o disco e, durante as mixagens em Los Angeles, em 2015, sofri um acidente que foi quase fatal. Levei quatro anos para me recuperar", conta a cantora, que foi atropelada na Sunset Boulevard por um carro em alta velocidade.

"Num piscar de olhos, estava numa cadeira de rodas. A longa passagem pela UTI foi como estar num limbo, num outro universo, vi muita coisa que não existia, tive alucinações. Mas para que a energia do acidente não volte nas minhas narrativas, eu chamo de um renascimento. Sou outra pessoa, a vida ficou mais colorida e a morte menos assustadora."

O nome do novo disco é uma referência ao metal que foi implantado no ombro, braço e perna de Tita, além de ser uma referência a seu próprio nome. "Também costumava ser uma piada entre eu e meu pai, pois eu falava que ele era feito de titânio por conta da energia que tem, e agora eu também sou!", brinca.

"Titanium" foi produzido por Carlos Eduardo Miranda, que morreu em março de 2018. "Eu havia me preparado e feito vários ensaios com a banda antes do estúdio.

O Miranda desconfigurou todos os meus arranjos! As músicas eram bossas, com mais jeito de MPB. Os gaúchos estavam em maioria no dia da gravação, e como já eram amigos de Miranda, Ross e Guri ( teclado e guitarra) já tinham uma pegada pop-rock e um diálogo mais íntimo com ele, então tudo rolou naturalmente.

Tínhamos três dias no estúdio para gravar toda a base do disco — o que foi ótimo porque, como cresci em estúdio, eu não tenho muita paciência de ficar semanas 'encavernada'. A energia fluiu tão bem que foi o melhor e mais louco jeito que já gravei um disco!", lembra.

Otto, Miranda, Camila Raffanti e Tita. Divulgação
Otto, Miranda, Camila Raffanti e Tita. Divulgação

"Devoradores" de rock dos anos 80, Tita e Miranda acabaram se deixando influenciar por artistas como Hall and Oates, Rita Lee e The Korgis, por exemplo. "Mas tem outras quatro músicas co-produzidas por Peter Pedro e Alexandre Burzstyn (ex- Móveis Coloniais de Acaju) com uma pegada contemporânea bem legal", destaca ela. O novo CD tem 11 faixas, duas delas cantadas em inglês ("Go Beyond" e "Bittersweet") e uma bilíngue ("Novidade"). "Eu morei no exterior adolescente mas virei cantora quando voltei para São Paulo, me dedicando à bossa e MPB. Quando gravei '11:11', só me interessava por Tropicália e samba-canção. Cantar em inglês pra mim sempre foi OK, mas compor e escrever em inglês é mais complexo. Fui procurar a ajuda de Ili Nedelman, Cris Cado e de Peter Pedro. Cris me ajudou a escrever 'Novidade', música de Ricardo Kudla, uma das minhas prediletas", diz.

O disco também traz uma canção em espanhol chamada "El Amor Del Perro Por Paloma", que é de Liminha. "Eu estava trabalhando o arranjo dela com os guris quando surgiu a letra em espanhol. O Guilherme Almeida (baixista de Pitty e ex-Pública) foi quem começou uma brincadeira em espanhol. Ela tem a letra mais lúdica e bonita do disco, que fala sobre o amor platônico de um cachorro por uma pomba, esse pobre cão que sonhava ter asas para poder voar com ela", descreve.

Decepcionada com o mercado musical brasileiro, onde acha ser necessário fazer parte de "uma panela" ou ser do mainstream para ser ouvido, ela prefere esperar passar essa fase "esquisita" para poder voltar ao país para divulgar o disco, rever fãs e amigos. "O meu timing de lançamento do 'Titanium' tem alguns obstáculos. O que acontece aí na política é tão revoltante que fica difícil desligar de tudo isso. Essa polarização é assustadora, tive algumas brigas nas mídias sociais com pessoas muito raivosas e até com alguns familiares e amigos de infância. Então, como passar por cima disso? Como sorrir, dançar e se desligar dos absurdos que estão rolando?", questiona, incomodada.

O mercado americano tem sido bem receptivo para Tita. "Felizmente aqui na Califórnia a gente tem uma blindagem contra a política de Trump, e Los Angeles segue fazendo arte, cinema e música a todo vapor. Aqui eu faço shows, participo de festivais e toco com frequência em rádios mais alternativas, então eu me sinto aceita, bem vinda e mais ativa", diz, satisfeita, já preparando a turnê do novo disco, que vai passar pela Ásia e Europa. Tita mora entre Los Angeles e o deserto do Coachella, onde ela diz ter se encontrado: "Estou apaixonada por essa vida em duas cidades, o cenário aqui é de tirar o fôlego. Amo essas montanhas, amo Joshua Tree e Palm Desert".

Tita no Deserto de Coachella, onde divide seu tempo com Los Angeles. Divulgação
Tita no Deserto de Coachella, onde divide seu tempo com Los Angeles. Divulgação

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