Retrospectiva: 40 faixas para entender a música nacional na década
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Retrospectiva: 40 faixas para entender a música nacional na década

Nem parece que 2010 passou há tanto tempo, mas lá se vão dez anos. E no meio de tantas transformações políticas, sociais e econômicas, a música também mudou, se moldou e ganhou novos recortes. Quando falamos de música nacional, vimos a MPB se manter relevante — com nomes de peso como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil —, o surgimento da chamada Nova MPB, do funk 150 bpm e a consolidação do sertanejo como gênero mais ouvido pelos brasileiros.

Do pagode ao gospel, o Reverb mergulhou fundo nos últimos dez anos e escolheu 40 faixas nacionais que ajudam a entender como a música brasileira se transformou nesta década.

‘Uma Coisa Bonitinha’, de Gilberto Gil

Em uma década de problemas de saúde e trabalhos retrospectivos, Gilberto Gil deixou para marcar seu gol de obras inéditas no final, em 2018. Em “OK OK OK”, além da recuperação do vigor físico em voz e instrumento, ele deu mostras de estar com a criatividade tinindo. A maior delas, talvez, seja a parceria com outro gênio, João Donato, a dengosa “Uma Coisa Bonitinha”, embora o samba “Jacintho” também pudesse muito bem figurar nesta lista.

‘Dance, Dance, Dance’, de Mano Brown

O sample escolhido já é covardia: a hipnótica guitarra de Nile Rodgers em “Soup For One” é um dos tesouros menos conhecidos do Chic (que por sinal, começou a carreira com um single com o mesmo nome da faixa de Mano, “Dance Dance Dance” — óbvia a homenagem aí). Mano Brown divide com Don Pixote e Seu Jorge os raps e vocais, falando de um amor proibido com gosto de destino incontrolável conduzido por um “groovaço”. Nostalgia não fica melhor que isso.

‘Infiel’, de Marília Mendonça

Não é exagero dizer que foi Marília Mendonça que abriu as portas para o que ficou conhecido como “feminejo”. Em um gênero musical dominado por homens — as duplas sertanejas de décadas passadas e as da subdivisão “universitária” do gênero —, o estouro de Marília com “Infiel”, seu primeiro grande hit, impulsionou a ascensão de nomes como Maiara & Maraisa e Simone & Simaria. Em 2019, Marília foi a cantora mais ouvida do país, fato que a coroou como um dos maiores fenômenos da música brasileira na década.

‘Foimal’, de Boogarins

Conhecidos pelo som lisérgico, pelas apresentações em festivais internacionais e por remar contra a forte maré de hegemonia do sertanejo do Centro-Oeste do país, a banda goiana Boogarins representa, com cada vez mais força, a música independente brasileira. “Foimal”, de 2017, pode até não ser considerada uma das melhores composições do grupo, mas com certeza foi porta de entrada para muitos fãs se apegarem ao peculiar e benfeito som dos quatro integrantes.

‘Show das Poderosas’, de Anitta

Foi com a sineta de “Show das Poderosas” (2013) que o nome de Anitta chegou de vez no pop. Cria da Furacão 2000, época em que lançou hits como “Menina Má”, “Proposta” e “Meiga e Abusada”, a cantora lançou o “prepara” e tirou a alcunha de MC, clássica no funk carioca, para colocar os dois pés no estilo sobre o qual domina atualmente. Goste dela ou não, fato é que não há outro nome com tamanha relevância para a música pop brasileira na década.

‘Levanta e Anda’, de Emicida

Dentro de toda a importância do repertório de Emicida para o rap nacional, “Levanta E Anda”, de 2013, talvez resuma bem a missão do rapper paulista até aqui. Ao lado do cantor e amigo Rael, a faixa traz esperança, força, resiliência, orgulho, gratidão, amor pela vida, incentivo, apoio, união — todos grandes pilares das rimas e da carreira do compositor. No mais recente álbum “AmarElo”, fica visível que o significado do trecho “você é o único representante do seu sonho na face da terra” segue norteando a caminhada do artista.

‘Só Você E Eu’, de Vanessa da Mata

O single que prenunciou o álbum “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”, no começo de 2019, veio relembrar ao país da grande hitmaker que é Vanessa da Mata, estrela de palco e estúdios. A mão cheia e a verve afiada para sucessos populares da década passada se mostram por inteiro nessa cândida canção pop que aposta no hiper-romantismo. Em tempos de amores líquidos, Vanessa faz cristalizar feito diamante um encontro raríssimo, não poupando diminutivos, suingue e brasilidade brejeira.

‘Amor de Chocolate’, de Naldo Benny

O nome de Naldo Benny termina a década mais associado aos casos de agressão contra sua mulher, Ellen Cardoso, conhecida como Mulher Moranguinho. Porém, em 2012, o funkeiro fez de “Amor de Chocolate” uma das músicas mais tocadas do país. Era quase impossível não associar vodka a água de coco ou não fazer piadas envolvendo a música em casos de dúvida diante de duas alternativas em qualquer situação. Com a música, da mesma época de “Show das Poderosas”, Naldo tentou (e pavimentou) a transição do funk para o pop, êxito só alcançado pela cantora de Honório Gurgel.

‘Tá Vendo Aquela Lua’, de Exaltasamba

“Te filmando, eu tava quieto no meu canto, cabelo bem cortado, perfume exalando”. Você nem precisa gostar de pagode para reconhecer esses versos. “Tá Vendo Aquela Lua” foi lançada em 2010 e marcou a década no pagode. Composta por Thiaguinho, então no Exaltasamba, e pelo produtor Pezinho, a faixa é, quase dez anos depois, uma das mais populares dentro do gênero musical. Duvida? No Spotify, a canção ocupa o primeiro lugar entre as preferidas da banda de pagode paulistana.

‘Depois’, de Marisa Monte

Destaque no álbum “O Que Você Quer Saber de Verdade”, de 2011, e no show subsequente, a balada composta por Marisa Monte com os habituais parceiros Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown se valeu muito bem daquele toque Roberto e Erasmo. Um tema sobre separação que marcou casais e ex-casais. Com um pé no popular e outro numa visão moderna e muito direta sobre relacionamentos, a letra calou fundo em diferentes gerações.

‘Ex Mai Love’, de Gaby Amarantos

“Ex Mai Love” foi o segundo singles do álbum de estreia de Gaby Amarantos, “Treme”. A cantora paraense começou a ganhar destaque ao lançar uma versão em português para “Single Ladies”, de Beyoncé, no YouTube. O estouro nacional veio de verdade com “Ex Mai Love” na abertura de “Cheias de Charme”, novela da TV Globo que tinha uma de suas principais personagens, Chayenne (Claudia Abreu), como cantora de tecnobrega. O folhetim abriu uma nova janela para o tecnobrega, semeando o caminho que daria, anos mais tarde, a evidência necessária para fazer do brega funk um gênero conhecido no Brasil todo.

‘Te Amo Disgraça’, de Baco Exu do Blues

Vencedora do Prêmio Multishow 2018 como Canção do Ano, “Te Amo Disgraça”, de 2017, representou não só um ponto importante da carreira de Baco Exu do Blues, mas também a consagração de diversas tendências que alimentaram o rap brasileiro na última década. Beats e instrumentais cada vez mais melódicos e temáticas bastante voltadas para a subjetividade individual são duas características em ascensão no cenário nacional do gênero, e também presentes no trabalho do artista baiano — que fez do blues e das letras sobre saúde mental algumas suas marcas registradas.

‘K.O.’, de Pabllo Vittar

Lançada em abril de 2017, “K.O.” foi o terceiro single do álbum de estreia de Pabllo Vittar, “Vai Passar Mal”. A música abriu portas para o pop com mistura de brega e forró eletrônico e, principalmente, para as cantoras drags no país. Foi a partir do estouro de Pabllo que nomes como Aretuza Lovi e Gloria Groove ganharam, merecidamente, maior destaque no mainstream. Naquele ano, mesmo sem ser uma das atrações principais dos palcos do festival, Pabllo foi uma das estrelas da edição ao cantar na arena de um dos patrocinadores e ser convidada por Fergie para subir ao Palco Mundo.

‘Oração’, de A Banda Mais Bonita da Cidade

Viralizada em 2011 a partir de um vídeo brilhantemente gravado em plano-sequência, a música da banda indie curitibana superou expectativas de sobrevivência. Foi precursora de toda uma linhagem “fofolk” usada em fórmulas anódinas e atraiu muita rejeição também. Mas todos tiveram que engolir sua sobrevivência para além da trajetória dos próprios criadores; “Oração” é onipresente em formaturas de ensino fundamental, apresentações escolares infantis e saraus adolescentes. Perderam, haters.

‘Tombei’, de Karol Conká

Grande expoente das mulheres rappers do Brasil, a curitibana Karol Conká bagunçou a divisão e todos os estereótipos nos quais poderiam tentar encaixar sua música, imagem e personalidade. Com cantos feministas e letras contra a imposição de padrões, Karol fortaleceu espaços também ocupados por nomes como Drik Barbosa, Tássia Reis e Negra Li. “Tombei”, de 2014, é a ilustração do poder e da didática das letras de Karol, que também não costumam deixar o aspecto dançante de lado.

‘Lepo, Lepo’, de Psirico

O arrocha que saiu do cavaquinho de Filipe Escandurras (autor, em parceria com Magno Santana, que entrou com a dancinha e com a saborosa expressão usada no título) para ganhar as ruas de todo o país no verão e no carnaval de 2014 é daquelas felizes e raras conjunções. A letra expõe o momento social complicado do país (já então), mas leva para o lado malicioso, dizendo tudo de uma forma sacanamente baiana, com borogodó e sagacidade. O arranjo do Psirico do talentoso Márcio Victor levantou tudo.

‘Sinhá’, de Chico Buarque

A obra-prima do compositor e cantor nesta década é um rara parceria dele com outro craque, João Bosco. Um feliz encontro lançado em 2015 no álbum “Chico”, um afro-samba meio milongueiro carregado de tensão sexual. O lado criador literário de Chico está inspiradíssimo e certeiro, explorando o clássico formato conto dentro de um conto e já fazendo cair por terra futuras críticas (para sua “Tua Cantiga”) advindas da moderna incompreensão básica do que seja “eu lírico”: “E assim vai se encerrar / O conto de um cantor / com voz de pelourinho / E ares de senhor”.

‘Vamos Pra Gaiola’, de Kevin O Chris

Baile da Penha, sempre lotado. Mais lotado ainda ficou depois que Kevin O Chris lançou “Vamos Pra Gaiola”. Com a explosão da música, o artista, que começou a carreira como DJ em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, passou a ser conhecido na indústria e, ao lado de Rennan da Penha, ajudou a transformar o funk carioca com as batidas de 150 BPM. Graças à música, Kevin foi convidado para cantar ao lado de Post Malone, no Lollapalooza, em abril, e fechou o ano com um remix de ninguém menos do que Drake para “Ela É Do Tipo”.

‘Esse Cara Sou Eu’, de Roberto Carlos

Em uma década opaca, o Rei se deixou envelhecer sem demonstrar muita capacidade de resistência ou reinvenção. Seu momento mais “fora da casinha” e de maior sucesso foi quando, no fim de 2012, emplacou nacionalmente esta canção, que fez sozinho, já após o “divórcio” de Erasmo. Na época, a patrulha foi leve em cima do comportamento obsessivo do narrador da letra, mas Roberto não escapou das paródias bem-humoradas como “Esse Mala Sou Eu”. Anacrônico ou não, um super-hit popular com a marca de Roberto Carlos.

‘O Que É Que Tem’, de Jorge & Mateus

Os artistas mais ouvidos na década do Spotify, Jorge & Mateus foram trilha sonora certa para casais que não se desgrudavam em baladas sertanejas do início até meados dos últimos dez anos. Com “O Que É Que Tem”, lançada em 2012, o duo goiano se estabeleceu como uma das principais duplas de sertanejo universitário e, até hoje, continua líder nas paradas nacionais no gênero.

‘Vou Desafiar Você’, de MC Sapão

Jefferson Fernandes Luiz, o MC Sapão, morreu precocemente, em abril, aos 41 anos, mas deixou para os admiradores do funk verdadeiras relíquias da música. Se na década passada Sapo, como era chamado pelos amigos, fez de “Tranquilão” um hit, “Vou Desafiar Você” ficou para os anos 2010 como um dos sucessos do pop funk. Lançada em 2014, ainda hoje, na virada da década, empolga pistas de dança por aí.

‘Deu Onda’, de MC G15

Hit do verão 2017, “Deu Onda” representou o funk carioca no momento de quase total liderança do funk paulista no cenário do gênero. Lançada em 2016, tanto a versão light da faixa, quanto a proibida, foram entoadas à exaustão nas ruas do país inteiro antes, durante e depois do Carnaval do ano seguinte. Diz a lenda que, até hoje, se você cantar o início do refrão em público, a multidão continuará a letra...

‘Tá Tranquilo, Tá Favorável’, de MC Bin Laden

Quando emplacou esse mega-hit, em 2015, com dominação que se estendeu ao carnaval do ano seguinte, o paulistano Jefferson Cristian tinha 21 anos e já havia mostrado talento em dois hits deliciosamente demenciais, à altura do seu bizarro nome artístico: “Bololo Hahaha” e o dadaísta “Passinho Do Faraó”. O funk paulista mostrava sua melhor face escapista/desmiolada, enquanto o país dançava à beira do abismo. E a produtora Kondzilla chegava para ficar (ao menos até aqui, fim da década).

‘Lucro’, de BaianaSystem

Grupo de identidade melódica única, o BaianaSystem faz uma mistura latino-americana de rock, reggae, música eletrônica e rap que conversa (e muito) com a última década da música e dos contextos sociopolíticos e culturais do país. Em “Lucro (Descomprimindo)”, lançada em 2016, a guitarra conversa com a percussão brasileira em um som que trata de afeto e de mazelas da população de maneira coerente e poética.

‘Mulher do Fim do Mundo’, de Elza Soares

Estandarte da reinvenção de Elza Soares, em 2015, aos 84 anos, a canção de Kiko Dinucci e Alice Coutinho traz uma performance vocal da sambista à altura de sua trajetória gloriosa e apresenta o que de melhor foi trazido no álbum produzido brilhantemente por Guilherme Kastrup. Sem discurso postiço nem panfletarismo tolo. “Mulher do fim do mundo eu sou / Eu vou / Até o fim cantar” é mais que visceral, é destino.

‘Ninguém Explica Deus’, de Preto No Branco

Com um mercado cada vez maior, dado ao aumento expoente no número de evangélicos no país nas últimas décadas, a música gospel viu seu horizontes ampliarem com o advento do streaming e do próprio YouTube. O movimento das grandes gravadoras em assinar com artistas do nicho se tornou cada vez mais expressivo e personalidades como Priscilla Alcântara, Gabriela Rocha, Isaias Saad e do grupo Preto no Branco passaram a ter mais relevância na indústria. A música “Ninguém Explica Deus”, lançada na metade da década, se destaca em primeiro lugar na playlist oficial do Spotify com as canções gospel mais tocadas no Brasil desde a entrada do serviço no país, em 2013. No YouTube desde em dezembro de 2015, a música acumula quase meio bilhão de visualizações. Em 2016, foi um dos vídeos do Brasil mais assistidos na plataforma e compartilhado por fãs famosos, como o jogador Neymar.

‘Trevo (Tu)’, de Anavitória

O duo Anavitória, formado por Ana Caetano e Vitória Falcão, teve a carreira alavancada por Tiago Iorc, que descobriu as duas no YouTube. Tiago pode ser considerado o primeiro nome da chamada Nova MPB, mas foi a dupla que cravou o subgênero como um fato e moldou o estilo que deu à música brasileira nomes como a banda Melim, Jão, o duo OutroEu e outros na mesma linha “good vibes”. “Trevo (Tu)”, gravada e composta em parceria com o próprio Tiago, é o primeiro grande registro disso.

‘Beijinho no Ombro’, de Valesca Popozuda

Quando “Beijinho No Ombro” foi lançada, em 2013, sororidade ainda não era um tema tão em pauta. O fortalecimento, algum tempo depois, do discurso em favor de uma rede de apoio entre mulheres fez Valesca Popozuda mudar os versos da música para torná-los mais adequados às prerrogativas feministas. “Desejo a todas inimigas vida longa para que elas vejam cada dia mais nossa vitória” virou “Desejo a todas as amigas vida longa, unidas vamos conquistar ainda mais vitórias.”

‘Hoje’, de Ludmilla

Primeiro hit de Ludmilla (não mais como MC Beyoncé) a estourar, “Hoje” fez de 2014 um ano mais dançante. Apenas o início da série de sucessos da compositora, cantora e dançarina, a canção deu uma dica ao mundo do potencial da artista para emplacar sucessos do funk que também flertam com outros estilos, como o pop e o pagode.

‘Velha e Louca’, de Mallu Magalhães

De voz doce e violão macio como protagonistas, Mallu Magalhães marcou o início da década na nova música popular brasileira com letras sensíveis e presença firme como jovem artista. Em “Velha e Louca”, de 2011, ela explora liberdades femininas de maneira sutil, mas já características de uma década marcada pelo engajamento político das mulheres.

‘Hoje Eu Vou Parar na Gaiola’, de Rennan da Penha e MC Livinho

DJ não é bandido; é artista com conhecimento antropológico do que agrada ou não as multidões. E nisso, Rennan da Penha é mestre. O produtor musical e um dos maiores nomes e representantes do funk 150 BPM no Rio de Janeiro se uniu ao paulista MC Livinho em “Hoje Eu Vou Parar na Gaiola”, de 2018, para tocar em festas, caixas de som e fones de ouvido incansavelmente pelo país inteiro. Em 2019, o sucesso da faixa continua (e ainda não parece ter data de validade).

‘Nem de Graça’, de Pixote

O Pixote não estourou agora. Na estrada desde os anos 1990, a banda completou 20 anos em 2013, mas é fácil reconhecer em “Nem De Graça”, música de 2019, um dos maiores sucessos do pagode nos anos 2010. A coroação de uma banda que ditou regra no gênero popular e fez de suas músicas algumas das mais tocadas nas playlists do tipo.

‘Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?’, de Paraíso do Tuiuti

É lindo quando um samba-enredo levanta mais que um desfile. Este samba de 2018, escolhido sem o processo viciado habitual nas escolas, foi histórico mesmo, foi uma luz que ajudou a pouco badalada Paraíso do Tuiuti, agremiação do Rio de Janeiro, a alcançar um surpreendente segundo lugar. Com o dedo do craque Moacyr Luz entre os compositores, a composição trouxe uma visão mais profunda da escravidão, para além da celebração dos 130 anos da Lei Áurea.

‘Todo Homem’, de Zeca, Caetano, Tom e Moreno Veloso

A mais linda pérola do belíssimo projeto “Ofertório” saiu inesperadamente de Zeca, o talento menos conhecido da família Veloso. Escrita por ele aos 22 anos (foi a segunda canção que mostrou ao pai), traz elementos musicais surpreendentes para o universo caetânico, como o falsete ao modo Prince. E na letra aborda de forma lapidar a fragilidade masculina, em sintonia com novos tempos e novos papéis: “Todo homem precisa de uma mãe”.

‘Não Espero Mais’, de O Terno

Em uma década dura para o rock nacional, O Terno se mostrou consistente desde o começo, investindo em repertório com dicção própria e sonoridade autoral (diferentemente de outros ótimos grupos, mais presos a aspectos retrô, ainda que tão vigorosos quanto). Um dos momentos mais especiais em que a banda paulistana fundiu o aspecto popular com a essência roqueira foi no hit “Não Espero Mais”, de 2017, acompanhada por um excelente vídeo.

‘Recomeçar’, de Tim Bernardes

Homônima ao primeiro álbum solo do músico paulista, “Recomeçar” remete a artistas antigos, de décadas anteriores aos 28 anos de Tim Bernardes. Lançada em 2017, a faixa traz piano e voz de maneira tão introspectiva, que é possível sentir-se no estúdio intimista onde as gravações aconteceram. Tim cresceu ao lado da banda O Terno sem perder o fio que conduz qualquer compositor: o contato consigo mesmo e com os outros.

‘Dona de Mim’, de Iza

Falar de fenômenos da música pop no Brasil e não falar de Iza é, em exagero, um absurdo. A cantora carioca surgiu em 2017 com “Pesadão”, parceria com Falcão, do Rappa, tocada à exaustão nas rádios, as foi em 2019, com “Dona De Mim”, que ela cravou seu nome no hall de superstars nacionais. Com um dos melhores shows do Rock in Rio 2019 e uma cadeira de jurada no “The Voice”, Isabella Lima marcou a década com muito carisma e uma voz como poucas.

‘Medo Bobo’, de Maiara & Maraisa

A canção de 2016 da dupla de irmãs mato-grossenses Maiara & Maraisa conquistou o Brasil inteiro com versos de rasgar o coração de até mesmo quem não tem pelo o que sofrer. Destaque na década do Spotify, o sertanejo universitário ganhou ainda mais representatividade feminina na voz das duas cantoras, que fizeram “Medo Bobo” se tornar uma espécie de hino a amores que finalmente tomaram o rumo da felicidade. Querida por diversos públicos, a faixa também recebeu uma versão intimista feita pelo músico fluminense Rubel, disponível nas plataformas digitais.

‘Zero’, de Liniker

O verso “A gente fica mordido, não fica?” ecoou nos ouvidos de quem descobriu a mistura do soul com MPB de Liniker por meio de “Zero”. A canção de 2015 apresentou oficialmente a potência e a poesia da cantora paulista, que segue na construção de uma carreira marcada pela representatividade e pelo empoderamento de minorias sociais.

‘Aliança’, de Tribalistas

O retorno dos Tribalistas em 2017 rendeu uma turnê triunfal e novos sucessos. Mas a canção escrita por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Pretinho da Serrinha e Pedro Baby entrou sem escalas em outro patamar: o das canções atemporais, escolhidas para cerimônias e aniversários de casamento. Um feito e tanto para uma composição de beleza simples, mas que trouxe um lindo refresco de romantismo idealizado em meio ao repertório contemporâneo de uma MPB pouco inspirada nas composições politizadas.

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