Georgia, sensação das pistas de dança britânicas, leva a alma do estilo house aos ouvintes de quarentena
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Georgia, sensação das pistas de dança britânicas, leva a alma do estilo house aos ouvintes de quarentena

A cultura das pistas de dança é o sangue que corre nas veias da família de Georgia Barnes. Na verdade, esqueça o sobrenome. Artisticamente, ela é apenas Georgia, britânica de 30 anos que lançou recentemente seu segundo álbum de estúdio, “Seeking Thrills” (“Procurando emoções”, em tradução livre) e alcançou o primeiro lugar nas paradas britânicas de música indie. Filha de Neil Barnes, um dos integrantes do duo de música eletrônica Leftfield, sucesso nos anos 1990, a ligação com o estilo musical veio do berço. Não só do pai, mas também de sua avó, Lily, que dizia assumir outra personalidade quando estava curtindo a pista de dança — a de um alter ego chamado Lola. Com som que mistura música eletrônica e a sonoridade vocal do indie pop, Georgia diz que o mesmo acontece com ela — mas sem definir um nome para a outra persona.

“Isso também acontece comigo, mas eu não adotei outro nome. A pista de dança é um lugar onde acontece um momento transcendental para mim. É um lugar para eu ser apenas quem eu sou e eu gosto da ideia de transcender para um outro plano, para um outro lado de quem eu sou”, explica, em entrevista, pelo telefone, ao Reverb. De sua casa em Londres, Georgia avalia com estranheza tudo que acontece no mundo em decorrência da pandemia de coronavírus. “É estranho, eu tenho que admitir. Estou em casa agora, mas é um tempo complicado. Você tem que se manter positivo ao mesmo tempo em que tudo é assustador”, reflete.

‘A pista de dança é um lugar onde acontece um momento transcendental para mim’, diz Georgia / Foto: Divulgação
‘A pista de dança é um lugar onde acontece um momento transcendental para mim’, diz Georgia / Foto: Divulgação

A crise global fez Georgia ficar em casa depois de três meses na estrada. A turnê — de ingressos esgotados — rodou o Reino Unido e outros países europeus, o que torna o confinamento ainda mais esquisito. “Artistas sempre cumpriram um papel importante em tempos difíceis. Boa arte sempre foi criada em tempos turbulentos e de dificuldade”, ela diz, mesmo sem saber exatamente o que poderia ser feito agora. Na quarentena, a britânica conta que tem ouvido muito o jazz revolucionário do trompetista Miles Davis (1926-1991), mas garante que escuta absolutamente de tudo. “Desde que eu me conheço por gente, tudo que eu tenho feito é ouvir música. Eu sou inspirada pelos sons do Brasil, da Índia, no momento eu tenho ouvido muito Miles Davis, mas também estou obcecada pelo novo projeto do Calvin Harris, ‘Love Regenerator’”, conta.

“Seeking Thrills” foi um projeto fruto de um objetivo pessoal específico de Georgia. Seu álbum de estreia, “Georgia”, lançado em 2015, recebeu críticas bastante positivas da mídia, mas foi pouco ouvido pelo público. Desta vez, ela quis que o trabalho alcançasse o maior número de pessoas possível. “Eu me coloquei um objetivo e mergulhei em pesquisar referências. Eu fui ouvir os artistas que eu amava para entender o que eu queria fazer. Eu me joguei nesse álbum e comecei a gravar as demos no meu próprio estúdio. Todos os sons que você ouve foram criados pelos meus sintetizadores, é tudo analógico”, conta a cantora. Em suas pesquisas, Georgia ficou obcecada pelos anos 1980, especialmente por bandas como o Depeche Mode.

Foi na cena oitentista da house music de Chicago e no som nichado do Detroit techno que ela encontrou a tal emoção que pretendia. “Fiquei completamente obcecada. De repente, eu havia encontrado o caminho para a produção do álbum. Sabe, eu amo as pistas de dança. Eu amo a cultura das pistas de dança, isso está no meu sangue.” Nas pesquisas do som que queria expressar no álbum, Georgia conversou muito com Black Madonna, nome artístico da DJ norte-americana Marea Stamper, que assina um dos remixes feitos para a faixa “About Work The Dancefloor”. “Ela me ensinou muitas coisas sobre a house music de Chicago. Fiz muitas pesquisas online, mas também procurei conversar com as pessoas envolvidas na cena”, diz.

A faixa que abre o disco é “Started Out”, single lançado em 2018, é um resultado claro da busca de Georgia. O equipamento usado na gravação, um sintetizador SH 101 e um kit de bateria característico da época, poderiam colocar a música nos anos 1980, não fossem as harmonias mais similares às do pop moderno. Das 12 faixas do álbum (ao todo, ele tem 15 músicas, mas três canções são versões alternativas), “Till I Own It” e “The Thrill” são as que a cantora e instrumentista guarda com mais carinho.

“Eu amo a Kate Bush, ela sempre foi uma das minhas maiores inspirações, e eu acho que ‘Till I Own It’ foi algo que eu criei e que se tornou um pouco parecida o trabalho dela. Já em “The Thrill” eu acredito que encapsulei muito do que eu aprendi com a house music de Chicago e, particularmente, com o (selo) Dance Mania. Essas músicas são o que o álbum realmente é.”

Assistir a uma apresentação ao vivo de Georgia é ser absorvido por uma energia que parece inesgotável, enquanto ela canta e dita o ritmo com um kit de bateria eletrônica. Faz parte da faceta sem nome da artista. “Quando eu estou me apresentando e fazendo música eu sou uma pessoa diferente. Essa é a grande psicologia por trás de ser um artista, eu acho. Quando eu estou na pista de dança eu me transformo em outra pessoa e eu acho que isso é algo universal entre todos. No Brasil você tem outras coisas que te libertam, o carnaval, os enormes e maravilhosos bailes funks nas favelas, eu acho que esse é um sentimento universal. Aquele que nos move a nos juntar a outras pessoas para dançar e se libertar. Eu acho que esse é um sentimento universal.”

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