‘Rigoletto’: em São Paulo, soprano Carla Cottini leva inspiração de Bethânia à ópera que levanta questões atuais sobre machismo e abuso de poder
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‘Rigoletto’: em São Paulo, soprano Carla Cottini leva inspiração de Bethânia à ópera que levanta questões atuais sobre machismo e abuso de poder

Carla Cottini decidiu se tornar cantora de ópera quando conheceu "Rigoletto". A obra de Giuseppe Verdi (1913-1901) lhe foi apresentada por intermédio de um amigo. Naquela época, a soprano paulistana havia sido recusada nas audições finais para participar do musical "Evita", dirigido por Jorge Takla. A negativa serviu como um incentivo para tentar novos caminhos e o teatro musical, onde Carla traçava sua carreira, foi deixado de lado. Hoje, oito anos depois, ela protagoniza a superprodução de "Rigoletto" comandada pelo mesmo Takla que a recusou anos atrás. "Como é a vida, não é?", escreveu ao Reverb, em entrevista por e-mail.

Nesta quarta-feira, 31, Carla, que vive em Berlim, na Alemanha, faz mais uma de uma série de apresentações da obra no Theatro Municipal de São Paulo. Ela interpreta Gilda, a filha de Rigoletto, um bobo da corte, que só tem autorização para sair de casa para ir à missa. “‘Rigoletto’ fala sobre machismo, sobre o abuso do masculino sobre o feminino, do abuso de poder, da diferença de classes sociais, da castração. O texto é muito atual, a música também. Neste momento em que o feminismo está se popularizando tanto, o ‘Rigoletto’ é uma imensa crítica. A ópera fala também sobre a paixão, a idealização e as consequências que pode trazer a fantasia da paixão e a falta de contato com a realidade”, observa Carla.

Fã de Maria Bethânia, ela diz que foi com a intérprete baiana que aprendeu a "recitar o texto", inspiração que leva até ao cantar em italiano, como na obra de Verdi adaptada da peça do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que chegou a ser censurada.

Carla Cottini interpreta Gilda na ópera 'Rigoletto", de Giuseppe Verdi / Foto: Fabiana Stig / Divulgação
Carla Cottini interpreta Gilda na ópera 'Rigoletto", de Giuseppe Verdi / Foto: Fabiana Stig / Divulgação

Leia a entrevista completa com a soprano:

Qual foi o seu primeiro contato com ópera na vida? Qual é a primeira memória que você tem disso?

Meu primeiro contato com ópera foi escutando “Carmen” no carro dos meus pais. E “Pescadores de Pérolas” também. Eles tinham um CD com highlights da ópera que tinha Mozart, Puccini, Verdi, e eu ficava atrás no carro, cantando o tempo inteiro.

Seu pai a levou para ver "Elisir D'Amore" aos 13 anos?

Foi. No Teatro Municipal de São Paulo. A Rosana Lamosa cantava Adina. Eu fiquei doida. Hoje divido a produção de “Rigoletto” com Fernando Portari, que cantava Nemorino nessa produção de Elisir que marcou minha adolescência. Parece um sonho!

Antes disso você estudou balé. Você levou em paralelo o balé com o canto lírico, até a Royal School of Ballet?

Sim. Eu estudei balé desde os 6 anos de idade. Levava em paralelo à escola. O canto lírico veio depois, bem depois.

Antes de estudar canto lírico, gostava de cantar música popular? Sua voz era elogiada?

Eu cantava de tudo… Todo mundo falava da minha voz na escola, nos acampamentos, na praia. Eu ficava com meu violão para cima e para baixo. Incansável.

“Rigoletto” fala sobre o machismo, sobre o abuso do masculino sobre o feminino, do abuso de poder, da diferença de classes sociais, da castração. O texto é muito atual, a música também.

Você diz que foi por causa de "Rigoletto" que decidiu cantar ópera. Como foi isso? Na época, como a decisão foi vista por amigos e família?

Sim. Na época eu estava em cartaz com o musical “Cats” no Teatro Renault. Meu amigo Rafael Andrade me mostrou a partitura do “Rigoletto”. Sentamos no piano e ele foi me explicando como funcionavam as passagens musicais, a relação melódica-harmônica-textual. Eu fiquei encantada, mas sabia que se optasse por cantar ópera, teria que deixar o resto das atividades e me focar 100%. Foi uma decisão quase impulsiva. Fui recusada nas audições finais para “Evita” pelo diretor Jorge Takla naquela época. Então senti que a vida queria me levar para outro lado. Decidi abandonar o teatro musical. Hoje, oito anos depois, protagonizo a superprodução do mesmo Jorge Takla no Teatro Municipal de São Paulo... Como é a vida, não é?

A soprano é fã de Maria Bethânia: 'Se quero me animar, coloco ela cantando samba, se quero me emocionar, coloco ela recitando um poema.' / Foto: Divulgação
A soprano é fã de Maria Bethânia: 'Se quero me animar, coloco ela cantando samba, se quero me emocionar, coloco ela recitando um poema.' / Foto: Divulgação

Alguma ária em especial te deixa muito emocionada? Pode citar a que emociona mais como ouvinte e a que emociona mais ao cantar?

Tantas! Amo cantar "Deh, Vieni Non Tardar”, de “As Bodas de Fígaro” (composta por Mozart) e “Ah, Non Credea Mirarti” de “La Sonnambula” (de Vincenzo Bellini). Nesse momento, estou apaixonada pelo “Caro Nome”, do “Rigoletto”, porque estou cantando o papel. Para escutar, adoro a ária do “Pagliacci” (“Vesti La Giubba”), a ária do Conde das “Bodas...” (“Vedro Mentr’Io Sospiro”) também. Sou louca pelo dueto final (“Te Souvient-Il Du Lumineux Voyage”) da ópera “Thaïs”, de Jules Massenet. Ah! Sou “Boheme lover” (a ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini) também. Conheço a ópera de cor e não me canso de ouvir.

Na música popular, o que você costuma ouvir? O que lhe emociona mais em música popular, morando em Berlim?

Sou muito fã da Maria Bethânia. Ela me faz sentir de tudo. Se quero me animar, coloco ela cantando samba, se quero me emocionar, coloco ela recitando um poema. Quando quero olhar para a vida com sabedoria, alguma das centenas de músicas com textos maravilhosos que ela interpreta tão bem. Sobre Berlim, confesso que escuto muito mais música erudita alemã do que popular. Schumann, Schubert e Strauss estão presentes no meu dia a dia.

Como "Rigoletto" dialoga com os movimentos sociais contemporâneos? Principalmente no que diz respeito ao empoderamento, quebra de preconceitos…

“Rigoletto” fala sobre o machismo, sobre o abuso do masculino sobre o feminino, do abuso de poder, da diferença de classes sociais, da castração. O texto é muito atual, a música também. Quem vai assistir a essa produção, principalmente, pode se identificar com muitas cenas e palavras. Nesse momento em que o feminismo está se popularizando tanto, o “Rigoletto” é uma imensa crítica. A ópera fala também sobre a paixão, a idealização e as consequências que pode trazer a fantasia da paixão e a falta de contato com a realidade.

Como você acha que a ópera deveria ser apresentada para as novas gerações?

Com competência. Acho que não existe uma receita que não seja respeitar a obra e defendê-la com toda a alma. “Tornate all’antico e sarà un progresso” (“Volte para o antigo e será moderno”, em tradução livre), já dizia Verdi. Acho que o segredo da arte é focar no que é essencial. No que dá substância à obra. Acho que quando alguém vai à ópera e acha chata, a responsabilidade é nossa. Do diretor de cena, do diretor artístico e dos artistas que estão em cima do palco. Cabe a nós fazer reviver a música tão maravilhosa escrita por compositores imortais como Mozart, Verdi, Puccini, Monteverdi, Handel, Bellini, Donizetti, Strauss etc.

O canto lírico exige estudo permanente? O que as aulas ainda podem lhe trazer, nesta altura da carreira?

Sim. Permanente e eterno. Somos como atletas, como bailarinos. O maratonista treina todo dia, a bailarina faz sua barra, seu centro, sua diagonal. Nós fazemos exercícios vocais, escalas, arpejos, exercícios de ar, exercícios físicos, exercícios de escuta. Sou fã de aula. Tenho professores e pianistas por onde passo. Confio muito na opinião de certas pessoas e sempre procuro escutar o que têm a me dizer. Só assim é que sinto que se pode realmente crescer. O grande desafio do cantor é que ele não escuta o som que emite. Temos que, através do ouvido externo (de outras pessoas e de gravações), aprender a confiar nas nossas sensações internas. Não é muito simples. (Risos)

Você se dedica também bastante à música de câmara, em duo com o pianista Ricardo Ballestero. Como tenta equilibrar a dedicação a essa área com a carreira na ópera?

Meu duo com o Ricardo é muito complementar a minha carreira operística. Os dois modelos artísticos se comunicam bem entre si. A ópera me traz um trabalho de corpo, expressão corporal e projeção de voz. A música de câmara ensina a frasear, a ter detalhe, a cantar com os olhos. Cottini-Ballestero é uma das maiores joias da minha vida. Somos um, Ricardo e eu, quando fazemos música juntos. É surpreendente até para nós.

Carla Cottini em cena durante a ópera 'Rigoletto' / Foto: Fabiana Stig / Divulgação
Carla Cottini em cena durante a ópera 'Rigoletto' / Foto: Fabiana Stig / Divulgação

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