Riot Grrrl, o movimento punk feminista dos anos 1990, reverbera até hoje
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Riot Grrrl, o movimento punk feminista dos anos 1990, reverbera até hoje

Qualquer pessoa faria a fácil associação do rock dos anos 1990 com bandas grunge — que aliás detestavam esse rótulo criado pela imprensa — como Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, só para citar as mais populares. Esquecem-se, muitas vezes, de lembrar de outro movimento cultural tão importante quanto esse — porém, underground —, surgido não em Seattle, a meca da grungezada, mas em Olympia, cidade localizada no mesmo estado, Washington: o Riot Grrrl.

Impulsionadas pelo feminismo e o punk rock, meninas "rebeldes" formavam suas bandas e escreviam seus próprios zines, publicações independentes e de baixa tiragem. Elas estavam cansadas do sexismo — e quem não está? —, queriam celebrar a sexualidade feminina e expurgar a raiva que sentiam de viver numa sociedade extremamente machista e opressora. Dessa cena efervescente de mulheres, nasceram bandas como Bratmobile, Bikini Kill, Babes in Toyland, 7 Year Bitch, Calamity Jane, Excuse 17 e Heavens to Betsy.

O primeiro manifesto Riot Grrrl foi publicado em 1991 no segundo zine do Bikini Kill, produzido por Kathleen Hanna, vocalista do grupo, hoje com 50 anos. Na época, ela era uma jovem que estudava na faculdade Evergreen State College, em Olympia. Apesar da reconhecida importância do manifesto, ele não foi a única virada de chave que consolidou o movimento.

"Nós, mulheres, fazemos discos, livros e zines. Nós falamos para nos sentirmos incluídas e compreendidas a nossa maneira. Estamos de saco cheio da sociedade que acredita que as mulheres = burras, mulheres = ruins, mulheres = fracas", diz o texto original do manifesto.

Convenção do movimento Riot Grrrl em Los Angeles, no verão de julho de 1995/Getty Images
Convenção do movimento Riot Grrrl em Los Angeles, no verão de julho de 1995/Getty Images

No mesmo ano da publicação do manifesto Riot Grrrl , a gravadora independente K Records, que tinha entre seus maiores fãs Kurt Cobain, organizou um festival de punk em Olympia. O evento ficou conhecido como Pop Underground Convention e durou seis dias. Quem estava lá na estreia se surpreendeu muito, pois o line-up da data inicial era formado apenas por mulheres — coisa que, até hoje, é rara. Aliás, foi nessa ocasião que Kathleen Hanna gritou no microfone: "Girls, to the front!".

O título do maior sucesso do Nirvana, aliás, surgiu a partir de uma brincadeira de Kathleen, amiga de Kurt Cobain, que na época namorava a baterista do Bikini Kill, Tobi Vail. As duas descobriram que havia uma marca de desodorante chamada Teen Spirit e ficaram rindo disso. Naquela mesma noite, encontraram com Kurt e o baterista Dave Grohl (que namorava Kathleen), encheram a cara e, no meio da farra, Kathleen escreveu na parede do quarto do vocalista do Nirvana a frase: "Kurt smells like teen spirit". Sem saber que era o nome de uma marca de desodorante, ele depois usou aquilo para batizar o que viria ser seu maior hit.

Em meados da década de 1990, o zine do Bikini Kill, intitulado "Girl Power", se tornou um slogan popularizado, de uma forma totalmente distorcida do intuito original, no mainstream. Muitas mulheres que não tinham nem remota ligação com o Riot Grrrl, como as Spice Girls, usaram conceito semelhante para obterem atenção. As garotas do movimento ficaram especialmente irritadas quando a Spice Geri Halliwell citou a ex-primeira ministra britânica, a liberal Margaret Thatcher, como musa inspiradora.

Carrie Brownstein, guitarrista da banda Sleater Kinney, na convenção do Riot Grrrl em Los Angeles, no dia 28 de julho de 1995. O evento aconteceu na casa de show Macondo, em East Hollywood/Getty Images
Carrie Brownstein, guitarrista da banda Sleater Kinney, na convenção do Riot Grrrl em Los Angeles, no dia 28 de julho de 1995. O evento aconteceu na casa de show Macondo, em East Hollywood/Getty Images

Nessa época, as bandas do Riot Grrrl estavam recebendo mais cobertura da mídia local, é bem verdade. Mas as artistas se sentiam frustradas por ser mal representadas pelos grandes veículos de massa. Consequentemente, enquanto os anos avançavam, muitos grupos surgidos durante o movimento foram se separando — muitas vezes, para formar coletivos com outras abordagens musicais — ou simplesmente sumiram do mapa. Carrie Brownstein, ex-Excuse 17, e Corin Tucker, ex-Heavens to Betsy, seguiram a direção contrária e formaram, em 1994, a Sleater-Kinney, que segue uma sólida carreira até hoje.

Kathleen Hanna, do Bikini Kill, juntou-se ao Le Tigre, em 1998. A banda de eletro-rock lutava a favor das causas feministas e pelo fim da homofobia. Mais tarde, em 2010, a cantora ainda viria a integrar a Julie Ruin.

Ao fim da década de 1990, o ethos do Riot Grrrl já havia mudado e se atualizado, e foi justamente isso que possibilitou a formação de novas bandas de garotas, com destaque especial para o Gossip, da vocalista gorda e lésbica Beth Ditto, em 1999.

Em 2011, o movimento Riot Grrrl completou 20 anos e, apesar de não ser o mesmo, ele jamais desapareceu por completo. Até porque ainda há muita luta para mulheres e outras "minorias", afinal, equidade de gênero, homofobia, racismo, transfobia, gordofobia e mais um bando de preconceitos continuam a afetar a sociedade.

Por isso, antigas bandas como o Bikini Kill e Babes in Toyland ainda fazem reuniões especiais aqui e ali, juntando suas vozes experientes aos brados de grupos da nova geração, como Dream Wife, Petrol Girls Big Joanie, Deap Vally, Skinny Girl e Dream Nails.

Dream Wife, baseada em Londres, beeeem longe da costa oeste dos Estados Unidos, mantém viva a chama Riot Grrrl a partir de atividades como o Girls Rock Camp Alliance, com turnês e coletâneas em vinil reunindo bandas com o mesmo posicionamento. A mensagem segue reverberando.

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