Robert Cray se diz 'louco da vida' com o presidente Trump e receita novas canções para 'continuarmos vivos'
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Robert Cray se diz 'louco da vida' com o presidente Trump e receita novas canções para 'continuarmos vivos'

Aos 65 anos, Robert Cray é um músico que já conquistou quase tudo que há para ser conquistado na carreira. Quando surgiu para o grande público, em meados dos anos 1980, foi saudado como maior revelação daquela década dentro do gênero que abraçou, motivando uma frase famosa do guitarrista inglês Eric Clapton: "Como fã de blues, estamos salvos". O primeiro fã famoso a tirar o chapéu, aliás, foi ninguém menos que John Lee Hooker (1917-2001), que fez questão de tocar com Robert quando ele ainda era apenas um jovenzinho que circulava pelos bares do noroeste dos EUA. Desde então, foram cinco prêmios Grammy, 22 álbuns lançados, grandes sucessos populares cruzando barreiras entre o blues e a soul music como "Right Next Door", "Smoking Gun" e "Nothin' But A Woman", e o prazer de dividir palcos e estúdios com quase todos os seus heróis. Albert Collins (com quem gravou, em 1985, junto com Johnny Copeland, o histórico álbum "Showdown!"), B.B. King e Buddy Guy fazem parte da lista.

"Eu infelizmente não cheguei a tocar com Freddie King, não toquei com Otis Rush — apenas pude assisti-lo... Mas tem um cara que não é guitarrista e que realmente lamento não ter podido ver e encontrar, Howlin' Wolf. Tocar com ele realmente teria sido fantástico, um sonho", conta Robert Cray, em entrevista ao "Reverb" pelo telefone. A conversa faz parte da promoção de sua nova turnê pelo Brasil, que começa no sábado (27) em São Paulo, no Parque Villa-Lobos, segue por Belo Horizonte (Palácio das Artes, 31/7) e Rio de Janeiro (Vivo Rio, sexta-feira 2/8) e se encerra em Belo Horizonte, no Palácio das Artes. Foram dez anos sem se apresentar no país, saudade que ele pretende matar com gosto. "Pelas minhas visitas anteriores, posso dizer que o melhor do Brasil são as pessoas", lembra. "E tem também a comida", emenda, rindo. Desta vez, Robert Cray será acompanhado pelo baixista Richard Cousins, o baterista Terrence Clark e o tecladista Dover Weinberg, com que gravou no mês passado um novo álbum, ainda sem previsão de lançamento.

Cray em 2017, no disco que gravou em Memphis com músicos da banda de apoio de Al Green/ Divulgação
Cray em 2017, no disco que gravou em Memphis com músicos da banda de apoio de Al Green/ Divulgação

Não é só pelas credenciais blueseiras de Howlin' Wolf que Robert Cray menciona um cantor, ídolo também de astros de rock como Robert Plant, do Led Zeppelin, como grande lacuna em seu portfólio de colaborações com mestres. Além de excelente guitarrista, ele, seguindo a linha de nomes como Buddy Guy e B. B. King, também é um tremendo vocalista. Até hoje demonstra isso nos shows, ao desfiar uma parte do repertório com muita soul music na mistura. "Eu parei de fumar há 30 anos. E me cuido bem, tento descansar a voz em dia de show, dormir bem, tirar dias de folga", conta.

Seu último álbum, "Robert Cray & Hi Rhythm", bastante elogiado pela crítica, foi gravado há dois anos com a Hi Rhythm Section, banda de apoio de Al Green e Otis Clay em clássicas regravações do soul de Memphis. "Tive músicos incríveis, como Charles Hodges, e a produção de Steve Jordan", cita Robert. Entre os destaques do repertório está a participação de Tony Joe White, cantor morto recentemente, interpretando uma de suas composições, "Aspen Colorado". "Era um grande cara, muito tranquilo e simples. Estávamos gravando em Memphis e resolvemos gravar a música dele. E nada melhor do que tê-lo tocando com a gente nessa hora, né?"

A música de maior repercussão do trabalho, porém, acabou sendo um desabafo, “Just How Low”, em que Cray fala sobre "o quão baixo" os políticos atuais estão indo — em especial, Donald Trump. O trecho “se quer construir um muro, construa em volta de si mesmo”, tem endereço certo. "É sobre o que está acontecendo no nosso país. Eu fico louco da vida. Eu e muitos amigos meus. Como ele consegue fazer o que está fazendo? Tudo isso que ele faz e diz, como pode fazer e dizer todo esse lixo e sair numa boa? Todo esse racismo horrível..."

Nos anos 1980, tocando em grandes arenas e com exposição imensa no rádio, Robert Cray era saudado como o primeiro grande astro do rock afro-americano a surgir depois de Jimi Hendrix. Entre parcerias com Eric Clapton e outros afagos de famosos, recebeu um convite de Keith Richards para participar de "Hail! Hail! Rock'n'roll", filme que o stone e o produtor e baterista Steve Jordan estavam fazendo sobre outro herói negro da guitarra, Chuck Berry. A participação de Robert em “Brown Eyed Handsome Man” está à altura de todos os envolvidos.

Entre lendas, mandendo muito bem em "Hail!Hail! Rock'n'roll" /Getty/ Paul Natkin
Entre lendas, mandendo muito bem em "Hail!Hail! Rock'n'roll" /Getty/ Paul Natkin

Mas aquela não foi a primeira presença de Robert Cray em um filme. Antes, em 1978, quando ainda era um músico semi-anônimo, ele aparece como baixista da banda Otis Day & The Knights no clássico "Clube dos Cafajestes", comédia dirigida por John Landis e estrelada por John Belushi. "Eu estava tocando longe de casa, em outra cidade, e uma mulher se aproximou depois do show e perguntou se eu estaria interessado em participar de um filme. Ela pegou músicos diferentes de outros grupos e gêneros, eu conhecia alguns dos caras ali. Mas na hora da cena a gente só dançou e fez de conta que estava tocando. O cara que fazia Otis Day (DeWayne Jessie) era o único ator de verdade ali. Na hora de filmar me deram o baixo, tudo bem. A gente não tocou mesmo, apenas ficou ali fingindo que tocava ao som de música pré gravada. Um ano depois, eu topei com o Otis Day num aeroporto. Ele tinha se tornado cantor e formado uma banda, a vida dele virou isso", conta Robert Cray. "Nunca toquei “Shama Lama Ding Dong' ao vivo", confessa, rindo, ao mencionar a engraçada canção apresentada no filme.

Robert Cray fez imenso sucesso com seu quarto álbum “Strong Persuader”, aclamado também pelas misturas com soul music. Os hits se sucediam: "Smoking Gun,”, “I Guess I Showed Her” e “Right Next Door (Because of Me)”, e ele era aclamado até pelo lado sexy de sua música. "Toda gravadora que me contrata quer repetir aquele desempenho de vendas. Sempre pensam nisso", comenta Robert, rindo. "Acho que hoje as coisas são muito diferentes hoje, e todos sabem disso. Aquele sucesso só era possível porque havia uma apoio enorme da gravadora. E uma tendência geral no mercado do meu país, de valorizar nomes novos da música americana de raiz, não só no blues, com Stevie Ray Vaughan, mas também Los Lobos e outros."

Para ele, não fica saudade nem frustração. "Eu fico feliz de poder seguir tocando com prazer, estar no palco com alegria para me expressar e me comunicar com uma plateia. Se tem uma coisa que aprendi nesses anos todos, dividindo palcos com tantas pessoas incríveis, é que não existe ninguém melhor do que ninguém", ensina.

Robert Cray escolhe o repertório dos shows em cima de uma longa lista já ensaiada, de acordo com o feeling, o ânimo do dia. O grande hit "Nothing But A Woman", com o groove irresistível impulsionado pelos legendários Memphis Horns na gravação original, andou fora de muitos setlists recentes. Não foi por causa de reclamações ou revisões à luz do feminismo, ele garante. "Nunca houve objeção desse tipo, não que eu saiba. Outro dia um cara gritou na plateia, pedindo a música, e a gente tocou. Mas é assim que funciona mesmo, o repertório é grande", minimiza o guitarrista, antes de ser alertado de que, aqui no Brasil, ele preciiiisa tocar essa de qualquer jeito.

Apontado como "reinventor do blues", pelo papel que teve como difusor do gênero para jovens dos anos 1980 e 1990, Robert Cray tem uma visão humilde e particular sobre aquela história de "todo dia eu escrevo o blues". "O desafio não é reinventar o blues, nem reinventar nada. As histórias podem nem mudar tanto assim: existem canções de amor, de blues mesmo (tristes), de inconformismo...O importante é criar canções. Precisamos de novas canções", receita. "Novas canções para o blues e todo mundo continuar vivo."

Na última passagem por São Paulo, em 2009/ Getty/ Alexandre Schneider
Na última passagem por São Paulo, em 2009/ Getty/ Alexandre Schneider

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