Rock in Rio 1985: apesar de odiar o Rio, Ozzy Osbourne faz show incrível em sua primeira performance sóbrio
Rock in Rio 35 anos

Rock in Rio 1985: apesar de odiar o Rio, Ozzy Osbourne faz show incrível em sua primeira performance sóbrio

Velas e isqueiros para cima receberam Ozzy Osbourne ao palco do Rock in Rio 1985. Enquanto os acordes sombrios de “O Fortuna”, o movimento de abertura da “Carmina Burana”, de Carl Orff, ressoavam na quase total escuridão, Jake E. Lee lançava os primeiros acordes de sua guitarra. Ele substituía o cultuado Randy Rhoads desde 1983, quando um trágico acidente interrompeu a trajetória do escudeiro de Ozzy naquela fase. Logo após as primeiras notas do instrumento, a voz de Ozzy se faz ouvir nos alto falantes: “Me deixem ouvir vocês, vamos!”, gritou ao entrar no palco. “Vamos ficar malucos!", disse, sóbrio, antes de apresentar a primeira música escolhida para o set da noite, “I Don't Know” para delírio da plateia.

Tido como demoníaco e precedido pela história do morcego mordido no palco, ocorrida três anos antes — fato que fez até Roberto Medina acrescentar uma cláusula curiosa no contrato do cantor: “proibido comer morcegos, pintinhos e derivados" —, Ozzy surpreendeu alguns ao se mostrar bastante comum e bem-humorado em sua passagem pelo Rio. Na coletiva de imprensa, chegou com chapéu de palha e camisa branca e contou que adorava brincar com seus então dois filhos. Os jornalistas brasileiros pareciam muito interessados em questionar Ozzy sobre o "hábito" de morder animais. "O tradutor conta ao Ozzy que os jornalistas querem saber se ele vai morder a cabela de alguma galinha enquanto você está no Rio". "Diga a eles que não estou comendo galinha. Mas posso provar uns gatos ou cachorros...", respondeu, irônico. A resposta causou horror na manhã seguinte.

Ozzy e Sharon Osbourne durante a viagem ao Rio de Janeiro, em 1985 / Foto: Getty Images
Ozzy e Sharon Osbourne durante a viagem ao Rio de Janeiro, em 1985 / Foto: Getty Images

A fase não era das melhores para Ozzy. Em outubro de 1984, um jovem de 19 anos havia usado a arma do pai para tirar a própria vida. De acordo com relatos dos pais, ele estava bebendo e ouvindo o álbum “Speak of the Devil” quando se matou. Na época, bizarramente, Ozzy enfrentou processos que o responsabilizavam pela morte. “Eu estava passando pela imigração no aeroporto de Los Angeles quando uns dez mil flashes estouraram na minha cara. Achei que pudesse ser alguma visita da família real, mas, de repente, um repórter me diz: 'o que você acha, Ozzy?’”, ele conta, em sua biografia. "Eu não sei do que você está falando", ele respondeu. Ao entrar no carro que o aguardava, soube da história por meio de seu advogado.

Isso tudo ainda estava na cabeça do príncipe das trevas quando o avião em que estava pousou no Rio de Janeiro. A impressão da cidade não foi das melhores. “Eu achei que veria a garota de Ipanema em todos os lugares, mas nunca vi sequer uma. Só havia crianças pobres andando por todos os lados como ratos. As pessoas ou eram muito ricas ou viviam nas ruas — não parecia haver nada entre os dois”, escreveu no livro.

Se no palco Ozzy era ovacionado, nos bastidores, uma confusão com sua equipe causou certo constrangimento. O gerente da turnê de Ozzy discutiu com a então mulher do tremendão Erasmo Carlos, Sandra Sayonara, a Narinha. O jornal “O Globo” da época noticiou que ela, no meio da confusão, chegou a jogar “um copo de cerveja no rosto do rapaz.”

Enquanto estava por aqui, Ozzy encontrou com Ronnie Biggs, foragido britânico do assalto ao trem pagador, em 1963. Exilado no Rio, o assaltante foi visitar Ozzy no Copacabana Palace com uma camisa em que se lia “Rio — um lugar maravilhoso para fugir”. A opinião, no entanto, não era compartilhada por Ozzy.

No Rio para cobrir o festival, o jornalista britânico Mick Wall, da revista “Classic Rock”, relatou um desabafo que ouviu de Ozzy sobre a cidade. No bar do Copacabana Palace, Mick cumprimentou Ozzy e perguntou o que ele estava achando da cidade até ali. "O Rio é uma casa de merda, eu acho”, fuzilou. “Quero dizer, é um maldito banheiro, não é? Comida horrível, você não pode beber a água, e eu não posso sair do hotel, porque eu vou ser assediado. Vou ficar feliz quando for embora. Vou te dizer, sinto muito por Ronnie Biggs, preso aqui! Eu sei que as pessoas dizem que ele fez coisas ruins pelas quais nunca foi punido, mas, porra, ter que passar o resto da vida neste lugar deve ser fodidamente pior! Eu preferiria ter ficado na cadeia um tempo no lugar de vir para este lugar, honestamente”, relatou o jornalista.

Nos papos entre as comitivas de Ozzy e Rod Stewart, que tocariam juntos em 16 de janeiro, havia uma certa diversão em pensar que Rod seria a atração final daquele dia no festival. Na época, os dois artistas eram igualmente famosos e bem sucedidos nos mercados internacionais, mas Ozzy tinha uma ligeira vantagem comercial. “Eu que deveria estar nervoso, é a primeira vez que eu vou estar sóbrio num palco em 16 anos”. Ozzy havia deixado a Betty Ford Clinic, uma casa de reabilitação na Califórnia, há pouquíssimo tempo.

Apesar de ter odiado a cidade, Ozzy entregou um show histórico, em sua melhor forma. Naquela turnê, a banda de Ozzy tinha, além de Jake, Tommy Aldridgeque voltou ao Rock in Rio com o Whitesnake no ano passado — na bateria e Bob Daisley no baixo. "Sua voz nunca pareceu tão limpa", escreveu Mick sobre aquele dia. A sintonia com Jake E. Lee era de arrepiar. "Esqueça Donington no ano passado. Comparado ao Rio, aquilo nunca aconteceu. E Ozzy foi a melhor atração de Donington", disse o jornalista, comparando a apresentação no Rock in Rio ao show apresentado por Ozzy no festival Monsters of Rock, em Donington, na Inglaterra, no ano anterior.

Logo após deixar o palco, uma chuva, típica de janeiro no Rio, cai sobre a Cidade do Rock. O príncipe das trevas se impressiona com o fato de ninguém ir embora. “Essa trama foi armada pelo Queen!”, diz nos bastidores.

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