Rock in Rio 1985: Dussek lembra festival e segue cantando, compondo, pintando e escrevendo 13 anos depois de diagnosticado com mal de Parkinson
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Rock in Rio 1985: Dussek lembra festival e segue cantando, compondo, pintando e escrevendo 13 anos depois de diagnosticado com mal de Parkinson

Eduardo Dussek foi um dos artistas escalados para o Rock in Rio 1985 que estiveram no inferno e no céu. Primeiro, o cantor e compositor viu-se diante de vaias e copos cheios de areia na apresentação do dia 15 de janeiro. Era noite de Scorpions e AC/DC, mas também havia sido o dia da eleição indireta de Tancredo Neves para Presidente da República, derrotando Paulo Maluf. A irreverência e anos de estrada de Dussek não o deixaram intimidar. Na entrevista após o show, ele falou, com bom humor: “Tinha toda uma energia de crescimento do Brasil, havia uma parte torcendo pelo país, toda uma coisa que o Tancredo prega. E havia um pequeno pedaço malufando na situação”. No segundo show, no dia 18, ele foi muito melhor recepcionado, numa noite com pegada mais leve, com Queen, B-52's e Go-Go's.

Dussek, que ainda assinava Dusek, já tinha muitos sucessos, vinha emplacando pelo menos um hit por ano naquela década. Em 1985, já tinha três discos lançados, mas nunca havia se apresentado para um público daquele tamanho. “Realmente eu já tava com a carreira consolidada, tinha feito Maracanãzinho com ‘Cantando no Banheiro’ (álbum de 1982) com os Miquinhos Amestrados e Leo Jaime, e festival de Barretos, que na época não era só de sertanejo”, cita Dussek. O cantor de 66 anos lembra que, até o Rock in Rio, a ideia que se tinha de festival no Brasil era a dos festivais internacionais da canção, shows-competição realizados entre 1968 e 1972. “Foi uma surpresa legal, mesmo a gente tendo uma expectativa grande, pois o (Roberto) Medina não estava para brincadeira”, brinca.

O artista conta que sentiu a responsabilidade de fazer um ótimo espetáculo. “Tinha que levar uma banda maior, caprichar no figurino e no repertório, claro. Só não podia ter cenário por causa das atrações internacionais — a gente era meio show de abertura mesmo”, ironiza.

Se não podia montar nada fixo, Dussek tratou de improvisar e decidiu abrir o show de forma triunfante no palco. "Eu entrava numa lambreta azul metálico, de 1961, que ganhei de uma fã. Durante a passagem de som, eu testei pra ver se dava certo e os gringos começaram a reclamar da fumaça. Eu falei: ‘Olha aqui, vocês vão ter ter que aguentar a fumaça porque estamos aguentando esses decibéis o dia inteiro no nosso ouvido! Então, façam o favor de se comportar e respeitar os brasileiros”, deu sermão.

Dussek reclamou dos decibéis, mas conta que também ficou impressionado com o material incrível de palco que os gringos trouxeram, principalmente as bandas de heavy metal. “A gente aqui não era exatamente primitivo, mas curioso. Não existia uma boa importação de equipamento de som, as equipes técnicas ainda estavam se aprimorando”, explica.

A impressão que Dussek teve foi de que a equipe técnica estrangeira era muito mais esnobe que os próprios artistas. “Da parte dos integrantes da banda não achei que fossem esnobes. Mas eles tinham muitos seguranças porque havia o medo que acontecesse alguma coisa, por isso chegar neles, era impossível. Assim, era só ‘hi’ daqui, ‘hi’ dali nos bastidores, não passou disso. Além disso, ficávamos numa ala da penitenciária separada”, brinca ele, lembrando que sim, havia também as grandes estrelas, como Freddie Mercury, do Queen. “Ele era a rainha, ninguém podia tocar, mas eu não estava nem aí”, desdenha.

Dos encontros agradáveis, Dussek lembra com carinho dos Paralamas do Sucesso. “Eles foram muito bem lançados no Rock in Rio, foi uma grata satisfação vê-los naquele palco. Lembro da vez em que o Herbert Viana bateu na minha casa na Gávea e, quando perguntei quem era, ele respondeu que era um compositor que queria me mostrar umas músicas. Daquela fita cassete acabei gravando duas no meu álbum ‘Brega Chique’: ‘Recebi Seu Bilhetinho’ e ‘O Crápula’. Isso foi um ano antes do festival”, conta.

Como praticamente todos os artistas que passaram pelo Rock in Rio 1985, Dussek diz que sua carreira tomou novos rumos após o festival. “Foi algo que me trouxe uma grande experiência, saí modificado. Mexeu bastante comigo porque fiquei pensando se era aquilo que eu queria e, ao mesmo tempo, estava maravilhado com o que tinha acontecido”, lembra.

Atribuindo frequentes mudanças de estilo da carreira à natureza inquieta — depois do festival acabou se dedicando mais a atuar e dirigir musicais —, Dussek lembra que começou cantando Noel Rosa e músicas ligadas à Tropicália. “No início era tudo muito underground, depois consegui uma carreira mais azeitada, fiz muita coisa para novela. Acho que tudo contribuiu pra lançar obras específicas”, e que eu poderia até ter lançado mais discos,

Dussek diz que sua carreira acabou ficando ligada às marchinhas de Carnaval, pelo gênero de composições que começou a criar ainda criança. “Fiz muitos bailes, mas encheu o saco, sabe? Agora estou ligado ao samba, tenho muitos inéditos. Meu próximo projeto é um disco de sambas, convidando amigos, como Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Alcione... Além disso, queria que fosse um projeto que ajudasse alguma causa social”, anuncia.

Enquanto a produção do novo disco não começa, Dussek se dedica à pintura — ele inclusive já realizou algumas exposições. “É algo de que gosto muito e que estou fazendo semiprofissionalmente. Quando era adolescente eu pintava, larguei porque não dava pra fazer tudo. Retomei agora, por problemas neurológicos — que não me impedem de fazer shows mas exigem que faça muitos exercícios. A pintura é altamente renovadora pra criatividade”, explica ele, que foi diagnosticado com mal de Parkinson há 13 anos.

"Regata em Festa", pintura de Edurdo Dussek. Foto: reprodução
"Regata em Festa", pintura de Edurdo Dussek. Foto: reprodução

Paralelamente à paixão pelas artes plásticas, o cantor se dedica também à literatura. “Voltei a escrever textos que vão virar um livro de contos. Quero escrever também uma autobiografia com histórias engraçadas. Então, ando me divertindo muito, mas sempre preocupado com milhões de coisas. Quanto mais eles tentam me derrubar, mais eu dou lenha para a fogueira”, gargalha.

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