Rock in Rio 1985: Iron Maiden começa, com sangue, suor e gafes, um caso de amor com brasileiros
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Rock in Rio 1985: Iron Maiden começa, com sangue, suor e gafes, um caso de amor com brasileiros

Já são 40 shows no Brasil desde a primeira vez que o Iron Maiden pisou na cidade para ser uma das atrações do primeiro Rock In Rio. De lá para cá, formou-se uma verdadeira história de devoção e amor dos fãs brasileiros pela banda de heavy metal. Fundada pelo baixista Steve Harris, a Donzela de Ferro completa 45 anos de estrada em 2020.

O Iron Maiden foi a única banda a fazer apenas uma apresentação no festival de 1985, pois estava com a agenda superapertada de sua turnê "World Slavery", que promovia o álbum "Powerslave" (1984). Em menos de um ano, chegou a fazer 189 apresentações, que passaram também pela América do Norte, Europa, Austrália e Japão.

 Steve Harris e Adrian Smith em show da turnê "World Slavery" em 1984. Foto: Getty Images
Steve Harris e Adrian Smith em show da turnê "World Slavery" em 1984. Foto: Getty Images

O Maiden não era a atração principal da noite do dia 11 — o Queen foi o headliner —, mas fez uma apresentação histórica, deixando excelente impressão. Tanto nos headbangers já familiarizados com aquela energia sobrenatural de Bruce Dickinson e companhia, quanto para os milhares que não conheciam os britânicos e se tornaram fãs.

Em uma entrevista em 2018, após o anúncio oficial da participação da banda no último Rock in Rio, Dickinson lembrou da primeira experiência em solo brasileiro, falando que jamais havia visto tanta gente em um só lugar. "Era uma atmosfera de um pouquinho de caos, talvez não tão organizado quanto a maioria dos festivais, mas isso o tornou melhor. Porque todo mundo estava tão entusiasmado e tão maluco que as coisas estavam acontecendo. Foi um momento fantástico", contou.

Com o cabelão liso e louco batendo o tempo todo, correndo por todos os cantos do palco e sem o apoio de troca de figurinos, cenários elaboradíssimos ou Eddies gigantes como atualmente, Bruce arrebatou o público desde a primeira música, "Aces High".

Na época da clássica formação da banda, com dois guitarristas, Dickinson vocalista costumava tocar os acordes de base enquanto os outros faziam a introdução de "Revelations". A empolgação estava em um tal nível naquela noite de 11 de janeiro que, num movimento mais brusco, o vocalista acabou batendo o braço da guitarra contra o rosto, cortando o supercílio. Mesmo sangrando, nem pensou em parar. "Quero todo mundo louco essa noite", provocou. As 250 mil pessoas da Cidade do Rock só tinham que obedecer.

Bruce Dickinson bateu com o braço da guitarra no rosto mas, mesmo sangrando, não parou o show. Foto: reprodução Youtube
Bruce Dickinson bateu com o braço da guitarra no rosto mas, mesmo sangrando, não parou o show. Foto: reprodução Youtube

O impacto daquela apresentação foi tão grande na banda que Dickinson chegou a agradecer à direção do festival. “Vocês lançaram a minha banda na América Latina. Eu não era conhecido por ninguém”, disse. E com razão, porque muita gente deve ter acreditado quando um repórter da Rede Globo disse que eles eram o "satânico Iron Maiden". A repórter Sandra Passarinho chegou a mencionar o vocalista "Brian Dickinson" em gafe durante uma brevíssima entrevista veiculada no "Jornal Nacional" da TV Globo.

Realmente a passagem pelo Rock in Rio criou uma conexão inesgotável tanto no Brasil quanto nos países vizinhos. Uma pesquisa do YouTube em 2019 mostrou que o Brasil é a nação que mais escuta a banda inglesa no mundo — e na América do Sul não se repete em outros continentes. Na América do Norte, por exemplo, eles costumam tocar em espaços menores, em média para 15 mil pessoas. Por aqui nem precisa relatar: estádios cheios, ingressos esgotados e aquela catarse de sempre.

A apresentação no Rock in Rio deixou também um rastro de lucro e sucesso de vendas de discos. O álbum "Somewhere In Time", de 1986, foi o primeiro a conseguir disco de ouro no Brasil. Mais tarde, em 2003, o álbum "Dance Of Death" voltaria a quebrar o recorde e, daí por diante, todos os trabalhos lançados receberam seus respectivos. "The Final Frontier", de 2010, foi além e ganhou o de platina.

O amor entre o Maiden e os brasileiros é, além de tudo, recíproco. O ex-vocalista Paul Di’Anno morou aqui por algum tempo e montou até uma banda com colegas brasileiros, o Rockfellas. Outro ex-vocalista, Blaze Bayley, vive fazendo visitas e shows - como o desta quinta-feira (16 de janeiro) no Espaço Kubrick, na Lapa carioca, e mais cinco cidades.

Dave Murray e Blaze Bayley em show do Iron Maiden em 1995. Foto: Getty Images
Dave Murray e Blaze Bayley em show do Iron Maiden em 1995. Foto: Getty Images

Eterno retorno

Depois do Rock in Rio de 1985, o Maiden levou sete anos para voltar ao Brasil. Foi com a “Fear of the Dark Tour”, em 1992, ano da saída de Dickinson para se dedicar à carreira solo.

Em 1996, eles trouxeram a "The X Factour" numa formação já com o vocalista Blaze Bayley, que ainda estava na banda dois anos depois nos shows da "Virtual XI Tour", que aconteceram no Rio, São Paulo e Curitiba.

Finalmente chegou a vez do grande retorno ao Rock in Rio, que aconteceu na edição de 2001, quando tiveram a ideia de gravar um disco ao vivo da "Brave New World Tour", com direção de Steve Harris. A apresentação acabou se transformando também no primeiro DVD ao vivo da banda que teve um gosto ainda mais especial pois marcava a volta de Dickinson à banda.

"Dance of The Death Tour" passou por aqui em 2004. Muitos fãs dizem que o ponto alto dos shows quando tocaram uma de suas únicas baladas, "Journeyman” - afinal, não é sempre que se pode vê-los tocando num formato acústico.

Um apanhado dos anos 1980, com músicas pinçadas principalmente de "Somewhere in Time" e "Seventh Son of a Seventh Son", foi a base da turnê "Somewhere Back in Time", que passou pelo Brasil em 2008 e 2009.

As apresentações seguintes foram em 2011 com a "The Final Frontier Tour", que rodou 36 países e teve sete apresentações só no Brasil; no Rock in Rio 2013 com a "Maiden England Tour", com repertório baseado em músicas do final dos anos 1980; em 2016 com "The Book Of Souls Tour", em cinco cidades brasileiras; e, finalmente, em mais um Rock in Rio, no ano passado, com a "Legacy Of The Beast Tour".

Em entrevista na época desta última passagem por aqui, o guitarrista Adrian Smith respondeu sobre a longevidade da banda: "É difícil imaginar o grupo daqui a 10 anos, mas é como um bom carro, enquanto rodar bem, vamos em frente!". Já Dickinson não tem dúvida nenhuma. "Enquanto vocês estiverem aqui, nós voltaremos a tocar até cairmos mortos em cima do palco", disse ele durante a apresentação que fizeram em São Paulo logo depois do Rock in Rio 2019.

Aliás, parece faltar pouco para o vocalista ser um super-homem: se recuperou de um câncer na língua em 2015 sem perder a potência da voz; é piloto e acaba de ser nomeado capitão honorário da Força Aérea inglesa; empresário da aviação; cervejeiro; roteirista de cinema; escritor; apresentador de rádio, ator de TV; esgrimista e palestrante motivacional. É dentro dessa última atividade que ele vem em agosto ao Brasil, numa única "apresentação" no Tom Brasil, em São Paulo. Em "What Does This Button Do?", título de sua autobiografia, ele fala com público durante duas horas. Na primeira parte da palestra, conta histórias sobre sua vida, algumas inclusive que foram cortadas da edição final do livro. Já a segunda metade é dedicada a uma sessão de perguntas e respostas. Os ingressos estão à venda e custam de R$ 180 a R$ 300 — alguns setores já estão esgotados.

Bruce Dickinson durante palestra no festival literário Lit.Cologne na Alemanha, em 2018. Foto: Getty Images
Bruce Dickinson durante palestra no festival literário Lit.Cologne na Alemanha, em 2018. Foto: Getty Images

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