Rock in Rio 1985: Pepeu Gomes lembra como domou 'metaleiros' e 'truque' usado para evitar fim abrupto do segundo show
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Rock in Rio 1985: Pepeu Gomes lembra como domou 'metaleiros' e 'truque' usado para evitar fim abrupto do segundo show

Pepeu Gomes e Baby do Brasil (que na época assinava Consuelo) eram o casal de maior sucesso na música brasileira naqueles anos 1980. Depois do fim dos Novos Baianos — o último disco do grupo foi "Farol da Barra", de 1978 — eles partiram para carreiras solo e engrenaram um sucesso atrás do outro. Foi nesse auge que veio o convite para a participação no primeiro Rock In Rio. "Eu tinha lançado 'Masculino e Feminino' pela CBS e coincidiu de Baby também ter assinado com a mesma gravadora, por isso nos chamaram juntos. Nós tocamos nas mesmas noites, mas foram shows separados", esclarece Pepeu Gomes, sobre aqueles dias 11 e 19 de janeiro de 1985.

O cantor, compositor e guitarrista lembra que nunca havia participado de festivais. "Achei interessante tocar para tanta gente. Era uma época em que os festivais começavam a acontecer no Brasil e, para mim, aquele Rock in Rio teve a mesma magnitude que o Woodstock", compara. Só para se ter dimensão dos números, a primeira Cidade do Rock recebeu 1 milhão e 380 mil pessoas, divididas em 10 dias de shows. Em Woodstock, foram 400 mil pessoas em três dias de evento.

Na época, Pepeu e Baby já tinham seis discos solo — além dos oito com os Novos Baianos — e tocavam sem parar nas rádios. "Estávamos realmente muito na mídia, havíamos lançado bons LPs, elogiados por crítica e público. Mas acho que, no meu caso, pesou bastante o meu lado guitarrista na hora da escalação. Não existiam muitos músicos que representassem o instrumento com a nossa identidade. Dessa forma, eu senti a responsabilidade de apresentar, naqueles shows, o que era a guitarra brasileira", destaca ele, que foi indicado em 1988 pela revista "Guitar World" como um dos dez melhores guitarristas do mundo na categoria "world music".

Pepeu foi escalado em dois dias em que as principais atrações eram Whitesnake, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC. No primeiro dia, já de cara, Ney Matogrosso e Erasmo Carlos foram hostilizados pelo público formado majoritariamente por headbangers. Diante de um clima pesado daqueles, o que fazer? "Não nos amedrontamos e usamos de estratégia. Fomos inteligentes ao decidir mudar o repertório na coxia, ensaiamos no camarim mesmo. Quando vimos o pessoal do heavy metal chegando e o que tinha acontecido com o Erasmo, colocamos em destaque a parte rock'n roll do repertório para não deixar brecha para desconfortos. Então, nós nos adaptamos ao clima heavy metal, afinal, não queríamos levar vaias nem pedradas!", lembra, às gargalhadas. O resultado foi uma performance cheia de números instrumentais e solos incríveis do guitar hero brasileiro. E o público? Esse não teve nem tempo de respirar e entrou de cabeça na vibe elétrica do baiano.

Se o público não prejudicou Pepeu nem Baby, não se pode dizer o mesmo dos técnicos estrangeiros, que eram os que manuseavam a mesa de som e outros equipamentos do palco. "Tínhamos uma hora de show e, no primeiro dia, quando deu 45 minutos de apresentação, os americanos começaram a puxar o palco. Por isso paramos de tocar. Mas para o segundo dia fomos preparados. Quando ameaçaram fazer a mesma coisa, eles foram impedidos por uma equipe de seguranças que contratamos", conta o músico.

Mas se houve hostilidade de alguns, também circulou muita gente boa pelos palcos, bastidores e plateia. Pepeu fala sobre um desses momentos "fofos": "Quando eu estava passando o som, o fio da guitarra estava me atrapalhando, enrolando toda hora nas minhas pernas. George Benson estava por ali assistindo e, gentilmente, ofereceu emprestado seu equipamento sem fio. Foi a primeira vez que toquei guitarra sem fio! Dei meus discos para ele e agradeci demais".

Outra aproximação que aconteceu durante o festival foi com a alemã Nina Hagen. "Com ela surgiu uma identificação por conta dos nossos cabelos coloridos. Aí era aquilo: 'que cor bonita', 'onde você pintou'...", diverte-se Pepeu. A amizade surgiu, segundo o músico, de forma "interessante, natural e leve" e foi além dos bastidores. "Oferecemos um jantar na nossa casa e ela foi com toda a equipe. Eles não conheciam moqueca e comeram até de manhã! Nos encontramos depois em uma edição do festival de Montreux, mas depois perdemos o contato", conta.

Baby, Nina Hagen e Pepeu: moqueca  até de manhã. Foto: Reprodução do site Baby do Brasil
Baby, Nina Hagen e Pepeu: moqueca até de manhã. Foto: Reprodução do site Baby do Brasil

Pepeu afirma que a participação no primeiro Rock In Rio foi muito importante em sua carreira, pois abriu oportunidades no mercado internacional. "Eu até já havia participado de três Montreux, mas depois do festival, surgiram turnês nos Estados Unidos e na América do Sul. Todos queriam ter um representante da guitarra brasileira nos eventos", diz, sem poupar elogios ao RiR. "De todos os festivais que já toquei, sem dúvida, o Rock in Rio de 1985 foi o mais importante", afirma.

Se foi marcante para o artista, também trouxe um saldo positivo para o festival, pois Pepeu voltou a tocar nas quatro edições seguintes e no de Las Vegas em 2015. Em 1991 com Moraes Moreira - os baianos lançaram os álbuns "Moraes e Pepeu" e "Moraes e Pepeu — Ao Vivo no Japão" -; em 2001 com Armandinho; em 2011 com Monobloco; e em 2013 com Roberta Sá e Moraes.

Mas se a estreia foi um marco na carreira profissional, a última apresentação, em 2015, foi um teste de emoção para Pepeu. E para o público que presenciou a reunião dele com Baby no palco, 33 anos depois, e, de quebra, acompanhados por Pedro Baby, o quarto dos seis filhos do casal.

Pedro foi o diretor musical do show que marcou o retorno de Baby aos palcos, que ficou na estrada por dois anos e resultou no lançamento do CD e DVD "Baby Sucessos – A Menina Ainda Dança" em 2015. "O show tinha uma parte em que eu era homenageado e em todas as apresentações, Baby falava: 'Pepeu, se você estiver aí, sobe para dar uma canja'. Só que eu nunca estava, e as pessoas começaram a me encontrar e comentar: 'olha, Baby está chamando você para o show!'", conta.

O guitarrista diz que o convite para a edição de 2015 era inicialmente para cada um fazer seu show, e que foi Pedro quem fez a ponte para o reencontro. "Foi uma recuperação de uma memória musical e de um encontro familiar, daquela vibe que tínhamos em família. Foi muito mais emotivo que musical. Queremos repetir, no próximo Rock in Rio e também fora dele!", promete.

Pepeu atualmente está dando os últimos ajustes na turnê de "Eterno retorno", seu 44º álbum lançado em 2019 e que tem seu filho Filipe Pascual como um dos produtores. "É meu trabalho em evidência agora. Tem parcerias inéditas com Nando Reis ('Aos Poucos'), Zelia Duncan ('Não Move Nada'), Arnaldo Antunes ('Tempestades')... Depois dos shows de Carnaval, vou para a estrada com ele", diz o músico.

Pepeu está preparando uma nova turnê, que começa depois do Carnaval, de seu álbum 'Eterno Retorno'. Foto: Daryan Dornelles
Pepeu está preparando uma nova turnê, que começa depois do Carnaval, de seu álbum 'Eterno Retorno'. Foto: Daryan Dornelles

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