Rock in Rio 1985: quando o Brasil descobriu o heavy metal
Rock in Rio 35 anos

Rock in Rio 1985: quando o Brasil descobriu o heavy metal

“Lembrando que metaleiro é quem trabalha em siderúrgica.” O verdadeiro fã de heavy metal assina embaixo da máxima do jornalista Marcos Bragatto, editor do site “Rock em Geral. Figura onipresente nos shows de rock no Rio e em festivais importantes pelo país, ele é um dos que rechaçam o termo que teria sido criado pela Rede Globo durante a cobertura do Rock in Rio 1985. Na época, o cenário brasileiro tinha começado a se estruturar e a vinda em grande escala de bandas de rock deu, sem dúvida, o impulso que os amadores precisavam para ir em busca de seu espaço pelos palcos — do underground, a princípio, e até a conquista de grandes eventos no exterior. Mas, afinal, quando o Brasil descobriu o heavy metal?

“O termo ‘metaleiro’ foi criado pela repórter Glória Maria na cobertura do Rock In Rio na Globo e sempre foi defenestrado pelos fãs de metal, que achavam o nome pejorativo. Era preferido ‘headbanger’, ‘heavies’ — lembro muito bem do vocalista Roosevelt Bala, do Stress, usar esse termo na época — ou ‘metalheads’”, defende Bragatto. Em uma reportagem de Maria Cristina Poli disponível no YouTube, não faltam clichês e folclore divertido (assista).

Scorpions, uma das bandas pesadas que o Rock in Rio mostrou ao Brasil em 1985. Foto: Getty Images
Scorpions, uma das bandas pesadas que o Rock in Rio mostrou ao Brasil em 1985. Foto: Getty Images

Com o passar do tempo, porém, o termo metaleiro se popularizou e hoje muitos que veio depois dessa época acham normal. “Virou uma questão ‘metal raiz x metal nutella’, pra colocar tudo nos termos atuais. Mas se o sujeito fala ‘metaleiro’ é certo não ser do ramo”, afirma o jornalista.

Em uma entrevista para a TV Uol durante o Rock in Rio 2013, Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, falou sobre a diferença entre headbanger — termo considerado adequado pelos fãs — e metaleiro: “Headbanger é o cara que curte o metal, o true metal, que gosta de estar no meio do pit, fazendo mosh, agitando e cantando junto”. Kisser, que se considera um headbanger, lembra que “metaleiro” é um termo antigo, da época do primeiro Rock in Rio. “Pegou porque ninguém conhecia o heavy metal, era muito underground. Como todo mundo ficou meio assustado, tiveram que arranjar um nome", opinou.

Felipe Machado, guitarrista do Viper, gosta de falar que o Rock in Rio foi “didático”, porque mostrou o que era rock a um grande público. “Fomos expostos a um som que não se conhecia por aqui. Todas aquelas bandas ajudaram a construir uma identidade para o som que estava nascendo no Brasil”, opina ele, que identifica outra origem para o termo metaleiro. “Foi com o Língua de Trapo e ‘Os Metaleiros Também Amam’, que teve aquela performance superengraçada no Festival dos Festivais”, lembra. Difundida em cadeia nacional, em outubro de 1985, a música tinha versos como “Foi no começo de um show do AC/DC/ Lá no Rock in Rio/ Que eu a conheci e me encantei”. “A gente não gostava de ser chamado de metaleiro na época porque parecia uma imposição de pessoas que não sabiam do que estavam falando. Mas acho que essa discussão não tem mais importância hoje”, brinca.

A cena heavy metal brasileira demorou a acontecer, como tantos outros movimentos que começaram décadas antes na Europa e Estados Unidos e só chegaram por aqui com atraso. A esparsa vinda de alguns artistas estrangeiros, como Alice Cooper em 1974, Queen em 1981, Van Halen em janeiro de 1983 e Kiss, em junho do mesmo ano, ajudaram a formar um público e a incentivar músicos e criar suas próprias bandas. Muitos que hoje em dia são ligados ao heavy metal, conheceram o estilo só após os shows do Kiss. O movimento possibilitou também a abertura de espaços e o surgimento de festivais de rock em colégios e teatros.

Mas um ano antes da vinda do Kiss já se registravam shows e gravações pioneiros do heavy metal brasileiros — e, curiosamente, não eram do Rio nem São Paulo. O documentário “Aridez: Metal Muito Além do Fim do Mundo”, roteirizado, dirigido e produzido por Erick Miranda, mostra os primórdios do movimento em Teresina, Piauí, onde a banda Vênus, formada em 1982, foi uma das primeiras. O disco de estreia veio em 1986, que pode ter sido o primeiro álbum de heavy metal da Região Nordeste.

O Stress, de Belém, Pará, que tinha influências de Iron Maiden, Motörhead e Judas Priest, gravou em agosto de 1982 “Stress”, considerado o primeiro LP de heavy metal no Brasil. “Já existiam muitas bandas do metal nacional gravando demos e discos por conta própria. Não que o Stress não tivesse méritos — ‘Flor Atômica’ é um discaço —, mas havia muitas outras que também poderiam ter sido contratadas por gravadoras grandes. Sempre foi assim, o metal nunca foi bem visto por esses 'guardiões da música brasileira’”, critica Bragatto.

Paralelamente ao surgimento das bandas, uma identificação crescente de um público específico e um mercado à sua volta foram se formando. Em São Paulo, alguns festivais se tornaram famosos por unir e revelar vários nomes para a cena. A revista “Rock Brigade”, que se tornou referência na área, era apenas um informativo de um fã-clube de heavy metal até lançar o primeiro número em fevereiro de 1982. As Grandes Galerias, depois conhecidas como Galeria do Rock, no centro de São Paulo, ainda abrigava poucas lojas especializadas em rock e heavy metal, como a Baratos Afins. A Woodstock Discos, loja também no centro da capital paulista, tornou-se um ponto de encontro, onde se trocava informações e material importado nas famosas “pastas” dos fãs e onde eram exibidos vídeos que não se assistia em nenhum outro lugar. “Era a rede social da época”, brinca Felipe.

No Rio, o pontapé importante foi o lançamento do cultuado Split-LP “Ultimatum”, com a Dorsal Atlântica e a Metalmorphose. Bragatto dá um panorama do que acontecia naquela época: “Para nós, em uma época em que a informação não circulava como hoje, o início dos anos 80 prevalecia muito mais o chamado rock pauleira de Led Zeppelin, Deep Purple e Van Halen — tudo misturado mesmo — do que o metal. Mas já tínhamos nossas bandas de metal tocando na Fluminense FM, em especial no programa ‘Guitarras’, e nas noitadas do Circo Voador. Dorsal Atlântica, Azul Limão, Robertinho de Recife, Água Brava e até o Herva Doce, mesmo sem ser tão pesado, que o Kiss escolheu pra fazer abertura no show de 1982, no Maracanã, estavam nesse rol”.

Minas Gerais também teve seu boom de metal a partir do lançamento do split-LP que trazia o Sepultura e o Overdose. “Imagine que o Sepultura — o artista brasileiro de maior sucesso no exterior desde a bossa-nova e antes de a música deixar de ser importante nesses tempos tão estranhos — e o Viper jamais lançaram discos por gravadora grande aqui no Brasil, no máximo conseguiram contratos de distribuição. Quase 40 anos depois, o Sepultura segue lançando discos e fazendo turnês por todo o mundo. E Max Cavalera, fundador do Sepultura e que deixou a banda em 1996, com suas bandas atuais Soulfly e Cavalera Conspiracy, também se mantém relevante não só no gênero, mas como referência brasileira da música pesada contemporânea”, reforça.

O jornalista cita ainda André Matos, maestro, compositor e vocalista do Viper, Angra e Shaman: “Ele comoveu o mundo da música após a notícia da morte, em junho de 2019. Do Angra também saiu o guitarrista Kiko Loureiro, que hoje brilha no Megadeth, um dos quatro gigantes do thrash metal global”.

Voltando a São Paulo, em 1985, mesmo ano do Rock in Rio, surge o Viper, com Felipe, André Matos, Cassio Audi, Pit e Yves Passarell. Os integrantes eram praticamente crianças - tinham entre 13 e 15 anos - mas já estavam ligados na cena rock. “Éramos amigos de infância. Já como Viper fizemos dois shows no final de 1984 com Pit nos vocais mas, durante no dia 3 de janeiro de 1985, numa festa de aniversário de um amigo em comum, convidamos o André para ser o vocalista”, conta Felipe.

Poucos dias depois, André foi alvo da inveja dos companheiros, já que foi o único a ir ao Rock in Rio para ver o show do Iron Maiden. “Ele voltou totalmente alucinado, ainda mais headbanger. Nós, que assistimos pela TV, ficamos loucos com aqueles nomes importantes, não só o Maiden, mas Ozzy, Whitesnake... sonhando que um dia poderíamos tocar naquele palco. Foi uma inspiração”, afirma ele, lembrando que quatro meses depois já faziam o primeiro show.

Em 1987 lançaram o disco de estreia, “Soldiers of Sunrise”, mas foi com “Theatre of Fate” que a banda deu um salto. "O primeiro foi independente e bem recebido. Para o segundo contratamos um produtor estrangeiro (Roy Rowland) e, como foi lançado no exterior, começamos a fazer turnês lá fora", conta. Sobre aquele sonho de moleque, demorou um pouco, mas aconteceu: o Viper tocou na quinta edição do Rock in Rio, em 2013.

Seja chamado de metaleiro ou headbanger, usando roupas pretas ou vestido florido, é como falou James Hetfield, do Metallica: “O heavy metal é um estilo que nunca está plenamente na moda, mas também nunca está fora de moda”.

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