Rock in Rio 2019: conheça o carimbó, ritmo que é a alma do encontro Pará Pop, atração do palco Sunset
Inspiração

Rock in Rio 2019: conheça o carimbó, ritmo que é a alma do encontro Pará Pop, atração do palco Sunset

Publicidade

O segundo maior estado do país ganhou uma noite para chamar de sua no Rock in Rio 2019: Pará Pop. No Palco Sunset, dia 3 de outubro, a música paraense vai estar mais do que bem representada com a presença de Fafá de Belém, Gaby Amarantos, Jaloo e Lucas Estrela, numa programação comandada por ninguém menos que Dona Onete, 79 anos, considerada a ‘Diva do Carimbó Chamegado’. Revelada em 2012, depois de já aposentada como professora de história, Dona Onete busca nas tradições regionais inspiração para seu trabalho, que já a levou para apresentações por todo o Brasil, além de Inglaterra, Dinamarca, Hungria, Portugal e Malásia.

MÚSICA REGIONAL: Tambor de Crioula, expressão maranhense, reúne música, dança e religiosidade

LEIA TAMBÉM: Gonzagão e Beyoncé, Zé Ramalho e Rihanna... E se cantores nordestinos fossem divas pop?

O Pará é um estado de cultura musical riquíssima. São mais de 140 ritmos catalogados, vai muito além dos conhecidos brega, lambada e guitarrada. Mas a manifestação que serve de base para Dona Onete tem uma identificação muito forte com o estado. O carimbó se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, em 2014, e exerce grande influência em diferentes áreas, enquanto manifestação cultural. 

Em entrevista ao Reverb, o geógrafo e antropólogo Edgar Chagas conta que o gênero envolve não só música, dança e canto, mas também é base de festas religiosas, festas seculares, artesanato, confecção de instrumentos, culinária - há comidas tradicionais associadas a ele -, e ainda experiências de convivência familiar e de grupos comunitários do interior. Portanto, carimbó também é sociabilidade. “Ele tem aspectos de ritual, de sagrado, de simbólico. Ele envolve muitas situações que fazem ele ser o que ele é”, explica. 

Dona Onete é conhecida como ‘Diva do Carimbó Chamegado’ / Foto: Reprodução YouTube
Dona Onete é conhecida como ‘Diva do Carimbó Chamegado’ / Foto: Reprodução YouTube

Edgar foi coordenador da equipe de pesquisadores que estudou o carimbó para o IPHAN, Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional, que mais tarde deu origem ao título recebido pela manifestação cultural. A origem do carimbó, apesar de muita investigação, ainda é considerada difusa, já que não é possível localizar tempo e espaço específicos.  “O que nós temos são alguns indicativos. A partir de pesquisadores mais antigos, existe uma bibliografia vasta sobre o assunto e também da pesquisa de história oral que fizemos em quase 40 municípios do estado.” 

O que é consenso é que o carimbó possui influências afro, audíveis nos batuques; tem também elementos das culturas indígenas, por conta do material utilizado na parte instrumental; e também portuguesas, com o acréscimo de viola e banjo, além da flauta e outros instrumentos de sopro, somados posteriormente. 

 O termo carimbó vem do instrumento que o caracteriza, o curimbó, que, na denominação indígena, significa 'som de pau oco'

Como bem destaca Edgar, essa justaposição de elementos não foi feita harmoniosamente. "Como sabemos, não há harmonia na relação dos portugueses com os índios e os escravos. Houve, sim, uma tomada, uma constituição de elementos que fizeram com que o carimbó pudesse existir”, detalha. 

Alguns escritos mostram uma nomenclatura anterior relacionada ao carimbó. “Ele passa a ser considerado carimbó mais especificamente no século 20, por conta do nome associativo ao instrumento que o caracteriza, o curimbó, que na denominação indígena significa ‘som de pau oco’. Mas logo em seguida os habitantes, principalmente no interior do estado, passam a chamar o tambor de carimbó. Então, carimbó inicialmente é o instrumento. Nas décadas de 1950 e 1960 esse nome passa a ser associado ao grupo, à manifestação que envolve ritmo, dança e canto”, completa Edgar. 

Como outros elementos da cultura popular, o carimbó não escapou de ser alvo de preconceito. Chegou a ser reprimido pela Igreja Católica na metade do século 20 e até por algumas prefeituras. Na capital Belém, teve proibida sua execução em espaços públicos, conforme publicado no código de posturas do município, na época. “No entanto, hoje em dia ele é ressignificado, e também reutilizado como uma forma de expressão cultural identitária do lugar. Virou um recurso que a cultura usa e transforma em produto”, explica o pesquisador. 

É uma manifestação que merece um cuidado maior por parte dos poderes constituídos, porque também é a história de toda uma população que habita essa região

O carimbó é hoje a grande referência musical do estado do Pará. No entanto, essa não é a primeira vez que ele ganha notoriedade nacional. Na década de 1970, por exemplo, ele ganhou projeção a partir do trabalho de artistas como Pinduca. Pouco depois, Nazaré Pereira o levou a ser conhecido na França. Mas nas camadas populares, no interior do Pará, essa oscilação de popularidade praticamente não existe. O ritmo segue sempre como uma grande referência, sendo “mobilizador de uma cultura tradicional longínqua, quase que ancestral”. 

Isso porque existem diferenças, como ressalta o geógrafo e antropólogo: “A perspectiva da cidade hoje é o carimbó como uma condição identitária, e alguns chamam isso de resistência. Mas para as populações que já praticam o carimbó há muitos anos ele é uma experiência de vida. Ele tem a ver com a prática cotidiana do trabalho dessas pessoas, da pesca e da agricultura”. 

Apesar de toda a visibilidade atual, o carimbó é mais uma manifestação cultural brasileira carente de incentivo. Planos estatais de salvaguarda não tiveram continuidade: foram afetados pela falta de repasses do governo federal na área da cultura e mudanças no ministério responsável. “É uma manifestação que merece um cuidado maior por parte dos poderes constituídos, porque também é a história de toda uma população que habita essa região”, defende Edgar. 

Publicidade

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest