Rock in Rio 35 anos: Ney Matogrosso lembra como, seminu e saradíssimo, superou rejeição de metaleiros e chuva de ovos cozidos
Rock in Rio 35 anos

Rock in Rio 35 anos: Ney Matogrosso lembra como, seminu e saradíssimo, superou rejeição de metaleiros e chuva de ovos cozidos

O dia ainda estava claro quando Ney Matogrosso subiu ao palco da Cidade do Rock em 11 de janeiro de 1985 e abriu a primeira edição do Rock in Rio, cantando “América do Sul”. “Eram seis horas da tarde. Foi no verão, o dia escurecia mais tarde. Quando eu entrei, não tinha iluminação artificial nenhuma, porque não fazia efeito. Só lá na metade do show é que a luz começou a aparecer”, lembra ele.

A responsabilidade era grande. Na época, não havia eventos de música no Brasil do porte do Rock in Rio, ainda hoje um dos maiores festivais do mundo, o maior em termos de público. Só no dia de abertura foram 300 mil pessoas na plateia. Era a chamada “noite do metal”, que teria shows de Iron Maiden e Whitesnake, de fatos bandas do estilo, além da atração principal, Queen, e mais Baby Consuelo e Pepeu Gomes, e Erasmo Carlos. A despeito do reconhecimento que já tinha à época, Ney foi recebido com uma chuva de ovos cozidos. “Na hora que eles jogaram em cima de mim, chutei de volta neles”, recorda o cantor. “Mas não era o público todo. Era ali, bem na frente mesmo, tinha uma pequena turma... É que, claro, eles foram lá para ver show de metal e me estranharam”, explica.

Ney Matogrosso no Rock in Rio de 1985, aos 44 anosReprodução
Ney Matogrosso no Rock in Rio de 1985, aos 44 anosReprodução

Ele acredita que a atitude agressiva tenha sido uma rejeição dos fãs de metal ao seu figurino. Era o mesmo que ele usava no show que estava em cartaz na cidade e que era sucesso de público. Em suas apresentações, no entanto, não era vítima de homofobia, que na época era ainda mais evidente no país. Ele abria cantando “O Rei das Selvas”, por isso usava tanga. O corpo vinha coberto de purpurina. Com a mudança para “América do Sul” (segundo disse, sugestão de seu produtor, Marco Mazzola), improvisou uma pena de gavião-real na cabeça, mas manteve a parte de baixo (assista à ótima entrevista a Leda Nagle, no pós show).

“Era uma roupa de Tarzan, na verdade. Era uma pele de onça, com uma parte na frente assim — claro, eu estava com tapa-sexo por baixo — e uma parte atrás. Eu estava muito nu, acho”, descreve. “Mas eu começava a apresentação assim. Fui fazer lá exatamente o mesmo show que eu fazia no Circo Tihany, que tinha cinco mil lugares, onde fiquei seis meses em cartaz no Rio de Janeiro, lotando todos os dias. Achei que as pessoas já estariam sabendo que era assim mesmo e que não ia ter problema. Mas não contei com essa questão de metaleiros. O errado foi eu cantar no dia do metal. Mas isso foi só o começo, até a terceira música. Depois a coisa rolou e eu fiz o show inteiro”, recorda.

Ele conta que só viveu algo parecido uma única outra vez em sua carreira, anos antes, quando se apresentou no curso pré-vestibular Objetivo, em São Paulo. Chegou mais cedo e viu que pessoas da plateia não deixavam ninguém cantar: faziam bolas de jornal e jogavam. Quando ele subiu no palco, não deu outra: fizeram o mesmo. “Aí eu virei de costas e fiquei me requebrando na cara deles sem cantar, sem fazer nada, só requebrando”, lembra. “Eles deram uma diminuída, comecei a fazer o show. Aí veio um camarada, me xingou, me cuspiu, eu cuspi nele (risos), ele ameaçou subir no palco. Eu tinha uma queixada de burro, que eu fazia o show “Bandido” (1976) com ela na minha mão. Aí disse assim: ‘Sobe aqui, seu filho da puta, que eu arrebento a sua cabeça!’. Cantei cinco músicas, virei as costas e fui-me embora. E disse: ‘Otários, me pagaram e não viram.’ Foi a única situação na minha vida toda. Depois eu soube que ninguém gostava de fazer esse festival por causa disso”, revela.

Algumas críticas disseram que ele não funcionou tão bem num palco tão grande como o da primeira edição do Rock in Rio. O tamanho, de fato, impressionava: eram nada menos que oitenta metros de boca de cena. Segundo a produção do evento, era o maior do mundo. Para Ney, que sempre dançou em suas apresentações, foi um desafio. “Eu caí na asneira de tentar ocupar o palco todo dançando, mas vi que, se eu continuasse, não ia chegar no fim. Porque era muito enorme”, admite ele. “Aí eu me concentrei mais no centro do palco mesmo, porque correr de uma ponta a outra o show inteiro era muito cansativo”, explica.

No ano anterior ao festival, ele tinha lançado o disco “Destino de aventureiro”, produzido por Mazzola. O Brasil ainda estava sob a ditadura militar. O movimento Diretas Já, no qual o cantor tinha sido atuante, tinha morrido na praia: as eleições diretas tinha sido rejeitadas no congresso no ano anterior. Tendo como banda de apoio o grupo Placa Luminosa, ele cantou músicas emblemáticas, como a própria “América do Sul” e “Rosa de Hiroshima” (nesse momento, soltou duas pombas brancas, simbolizando a paz que o Brasil tanto buscava).

No encerramento, com “Pro Dia Nascer Feliz”, depois de cerca de uma hora de show, já tinha conquistado o público e saiu de lá sob pedidos de bis. Apesar da estrutura grandiosa e inédita, na primeira edição os artistas brasileiros reclamaram por ter se apresentado em condições piores do que os estrangeiros. “O equipamento de som devia ser um terço do que era o dos gringos. Todo mundo reclamou. Assim que acabei, fui lá e falei com o Medina: ‘Tem algum problema com o som.’ Eu não sabia exatamente o que era. Mas todos reclamaram, e agora o som é igual para todo mundo e pronto”, observa Ney, que viria a se apresentar em duas outras edições do festival.

Em 2013, ele participou do tributo “Cazuza — O Poeta está vivo”, só com repertório de seu ex-namorado. No Palco Mundo, o artista emocionou ao cantar “O Tempo Não Para”, “Codinome Beija-Flor” e “Brasil”. Em 2017, ele voltou ao festival, dessa vez no Palco Sunset, ao lado da Nação Zumbi, em um show com músicas do Secos & Molhados. A escolha das canções do ex-grupo do artista foi um pedido da banda pernambucana. “Eu nunca tinha feito nada em cima desse repertório. Sempre canto alguma coisa, no meu show atual estou cantando duas, mas nunca só com as músicas do grupo. E aceitei porque era Nação Zumbi, não era uma réplica dos Secos & Molhados, não era uma reedição”, frisa.

Mesmo com a recepção agressiva que teve nos primeiros momentos de festival, Ney acredita que o mundo encaretou. E compara com os dias de hoje. “Eu fazia show no circo (Tihany) com cinco mil lugares, e ninguém achava nada. Quando ia abrir o circo para o público, eu subia no trapézio, que me levantava lá na altura, e eu ficava lá. O show começava, aquele trapézio descia e eu aparecia só de tanga — mas quando eu falo tanga é um pedaço de pele pendurado na frente e outro atrás, não é um fio-dental. E ninguém achava nada, era normal. Tudo era normal. Eu tive figurinos que eram muito pouca roupa e nunca tive problemas com plateia por causa disso”, diz.

Há pouco tempo, no entanto, ao postar uma foto do show “Mato Grosso” (do álbum de 1982), em que aparece com um traje que remete ao de um indígena, a imagem foi denunciada e ele teve que apagá-la. “Eu disse: ‘Meu Deus, eu não podia imaginar que chegássemos a isso.’ Um show que foi visto pelo mundo, fiz seis países com ele, dois anos no Brasil. Nunca ninguém reclamou daquilo, nunca, nada. Toda a divulgação do show era com aquilo. Nesse eu tinha só um tapa-sexo pintado de urucum. Mas nunca tive problema nenhum (antes). Aí tive esse. Escrevi lá: ‘Acho muito engraçado agora, um show mostrado no mundo inteiro, que no Brasil fiquei dois anos, virem reclamar agora, de uma coisa que é... não estava com genital à mostra’”, reclama.

Apesar disso, ele garante não sentir falta de tempos idos. “Eu não sou uma pessoa saudosa. Não tenho isso. As pessoas ficam chocadas quando eu digo, mas é a verdade. Eu não tenho saudade. Eu tenho lembranças, mas não vivo apegado ao passado. Nem ao futuro, não sabemos o que será, nem se chegaremos. Eu vou vivendo a minha vida hoje”, manda ele. “Não renego o passado. Tenho boas memórias, mas não sou saudoso”, resume.

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