A vida dupla de Sapopemba, caminhoneiro que se apresentou na Ópera de Paris
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A vida dupla de Sapopemba, caminhoneiro que se apresentou na Ópera de Paris

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José Silva dos Santos sempre foi guiado pela própria curiosidade. No começo dos anos 1990, o alagoano, já morando em São Paulo, era motorista e foi incubido de transportar um grupo de dança para um espetáculo na cidade de Santo André. “No ônibus, esse pessoal cantarolando, eu ouvindo e pensando que isso tudo era muito familiar para mim. Perguntei: ‘Quem é o diretor disso aí?’”, conta Sapopemba, nome pelo qual ele ficou conhecido no universo musical. “Meti a cara, cantei com eles e fiquei por 15 anos como solista principal do (grupo de balé folclórico de São Paulo) Abaçaí”. Foi o começo da carreira musical do cantor e percussionista, que já trazia consigo o conhecimento adquirido desde a infância, quando conviveu com a música popular mais tradicional de Alagoas, às margens do rio São Francisco, em Penedo. 

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 “Eu era moleque solto”, recorda. “O pessoal lá de casa dizia que eu era metido, queria estar participando dessas coisas”. Sapopemba migrou para São Paulo com a família em 1960, trabalhou como pintor de parede, mecânico e motorista e, segundo ele, trazia “na pele a musicalidade do coco, reisado, chegança, aboio”, entre outros ritmos de sua terra. Com nenhum estudo formal de música, o artista acabou conquistando seu espaço ao carregar um tipo de sabedoria rara e não encontrada nos livros: as experiências de vida relacionadas à música. “Minha universidade é o mundo”, assume Sapopemba, que também aprendeu muito ao viajar o país como caminhoneiro. “Não podia ver uma manifestação nesse Brasil que eu chegava lá para assistir”. 

Esse gênero de música que eu faço, se eu fosse viver de música, eu estava com a ‘bunda na brasa’, morrendo de fome

Hoje, aos 71 anos de idade, ele conta que já foi à Europa nove vezes para se apresentar em festivais, passando por cidades como Berlim, Paris e Lisboa. Também cantou na cerimônia de encerramento dos Jogos Pan Americanos que aconteceram no Rio de Janeiro em 2007. Na maioria das ocasiões, entoando músicas de autores nordestinos tradicionais ou mostrando as cantigas de Orixás, do Candomblé, no qual Sapopemba tem a função de ogã. Ele também prepara um espetáculo pela primeira vez à frente de uma orquestra sinfônica e um disco a ser lançado nos próximos meses pelo Sesc. 

Mesmo tendo sido recentemente descoberto, reconhecido e valorizado, ele não passou um mês sequer se sustentando apenas através da arte. “Esse gênero de música que eu faço, se eu fosse viver de música, eu estava com a ‘bunda na brasa’, morrendo de fome. O pessoal está cagando e andando pra isso”. 

Sapopemba pode não ter a valorização que merece pela indústria musical e pelo segmentos mais comerciais da produção cultural brasileira, mas é um representante da história musical do país. “Estou no maior lucro. Jamais imaginei que, saindo de Penedo, eu teria uma trajetória desta, que iria para uma ilha na Coreia do Sul tocar em festival, conhecer múltiplas pessoas. Nem muito menos tocar no Palais Garnier, da Ópera Nacional de Paris”, admite. “Minha sede de ver e aprender foi o que me levou a esse nível. E, olha, confesso que não aprendi nem um terço das coisas”.

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