'Saudade Do Meu Pai' é uma das joias do disco em que Marcelo Jeneci traça sua história afetiva e musical
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'Saudade Do Meu Pai' é uma das joias do disco em que Marcelo Jeneci traça sua história afetiva e musical

Por Kamille Viola

Foram seis anos desde o segundo álbum, “De Graça”, até que Marcelo Jeneci lançasse seu mais novo trabalho, “Guaia”. O nome faz referência a Guaianazes, bairro da periferia de São Paulo onde o artista cresceu, e traz um pouco de cada elemento de sua origem: o lugar de sua infância e o agreste de seu pai (Manoel Jeneci é do município pernambucano de Sairé), os dois universos onde transitou até a adolescência, e as características de grande metrópole de São Paulo, onde começou a viver depois que se tornou músico profissional e saiu da casa dos pais.

“Fiz um contato com minha própria história e percebi que, ao fazer o disco, eu teria que trazer a narrativa dessa história de alguma maneira, porque venho da periferia de São Paulo, estudei em escola pública, num bairro que não tem equipamento cultural nenhum. Tive a sorte de, através de meu pai, ter contato com o mundo imaterial da música, e isso se tornou um elo para que eu rompesse a dureza da vida profissional, do como faz para trabalhar e ao mesmo tempo se expressar e abrir caminho para viver do seu próprio alimento. Isso tudo aconteceu ali em Guaianazes, com muita gente ajudando”, explica Jeneci.

A capa de 'Guaia', novo álbum de Marcelo Jeneci / Foto: Reprodução
A capa de 'Guaia', novo álbum de Marcelo Jeneci / Foto: Reprodução

O universo pessoal do artista está presente de diversas formas: a produção é de Pedro Bernardes, cunhado do artista, ao lado de Lux Ferreira. A artista plástica Mana Bernardes, com quem Jeneci é casado, assina a direção de arte da capa. As canções (são dez músicas, no total) também falam sobre temas pessoais, como a saudade que o músico sente do pai, suas transformações e o amor. Até mesmo a instrumental “Ritos” traz uma carga íntima.

A alquimia, a bruxaria... Tudo na produção desse disco está lidando com essa questão, me permitindo ir mais fundo no que é gerar um fonograma

“Acho muito importante encerrar o disco com ela, que é uma música que lida com o sensorial, e não com a palavra. Creio que, por isso mesmo, ela destrava uma emoção muito pessoal em cada um que escuta. Em mim, ela toca num lugar profundo: na passagem da minha mãe, que foi em novembro do ano passado. No Pedro, desperta um outro sentimento, em relação ao que ele viveu com a mãe do Dom, filho dele. A música nem sempre precisa de letra. Acho muito importante afirmar isso enquanto compositor e letrista”, analisa.

A música mais pessoal, segundo ele, é “Saudade Do Meu Pai”, em que Marcelo lembra o pai em sua infância. “Ele está vivo, mas tenho saudade desse período todo em que ele fez de tudo para que eu tivesse ferramentas para lidar com a música”, diz Marcelo Jeneci sobre Manoel, que vive em Caruaru, em Pernambuco.

Manoel Jeneci desenvolveu um sistema inovador de microfonação de sanfonas. Por isso, o filho cresceu vendo grandes nomes do gênero em sua casa simples na Zona Leste. E dois deles foram importantes em sua carreira. Chiquinho Chaves foi um. Marcelo gostava de observá-lo tocar. Durante uma visita, o sanfoneiro sugeriu que a família riscasse as teclas de um piano na penteadeira da avó do garoto, para ele que treinasse enquanto não tinha o instrumento.

“Ela deixou, e eu sou ariano, né? Começo e logo largo. Fiz umas duas ou três semanas de treino sem som, achando interessante. Mas não durou muita coisa, eu logo me desinteressei”, recorda ele. Com o incentivo de Chiquinho, Marcelo começaria a tocar profissionalmente, aos 13 anos.

O outro sanfoneiro que marcou sua trajetória foi ninguém menos que Dominguinhos. Aos 17 anos, Jeneci teve a chance de entrar para a banda de Chico César. Pediu um acordeão emprestado ao ídolo (“Uma sanfona boa é o preço de um carro popular zero”, frisa) e partiu em turnê pela Europa, Estados Unidos e Canadá. Sessenta shows depois, voltou para casa e foi pagar pelo instrumento. Dominguinhos não quis receber, e Marcelo pôde comprar o piano que tanto sonhava em sua infância. “Foi a sanfona que me trouxe o piano, é curioso isso. Ela atravessa a história da minha família, por meio do meu pai. E mal sabe ele que deu uma nova dimensão a esse instrumento no Brasil, pelo que ele faz. Ele não se liga muito nisso, mas a gente, sim”, derrete-se o artista, que tem o mesmo piano até hoje.

Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação
Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação

Entre as diversas histórias emocionantes de sua trajetória musical, está uma que aconteceu quando Jeneci tinha apenas sete anos, enquanto voltava de uma excursão ao Paraguai com os pais. “A galera (do bairro) fretava um ônibus para comprar muamba e revender”, diz. Sua mãe comprava roupas de frio para a família e seu pai, peças de computadores, videogames e material para amplificação. Todo mundo adquiria mais do que a cota permitida por pessoa. Daquela vez, ele trazia um teclado, que estava em seu colo. Na volta, o veículo foi parado por um policial brasileiro na Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao país vizinho.

“Ele entrou com aquela banca agressiva, foi até o fundo do ônibus, olhando tudo. Até que disse: ‘Esse teclado já é acima do valor da cota, que eu sei. Ele sabe tocar?’. Respondi: ‘Eu sei.’ Liguei, estava com pilha. Na época, eu tinha acabado de interiorizar um jeito bonito de tocar ‘Detalhes’, do Roberto Carlos, com uma mão só. Quando terminei, ele passou mão na minha cabeça e falou: ‘Esse aqui vai ser músico! Vamos embora, vamos embora!’. E liberou o ônibus. Pela força da música, ele desceu dali. E aí depois foi uma explosão de comemoração. Em todas as paradas na sequência, todo mundo saía, e eu ia com o meu teclado e meu pedestal, e ficava tocando na frente do ônibus”, recorda.

Também da origem paterna vem o fascínio pelas bandas de Pífanos de Caruaru, presentes no disco. A faixa “Vai Vai”, que conta com a participação da cantora niteroiense Maya, traz os músicos João do Piff, Marcos do Piff e Zé Gago — Jeneci foi até lá gravar o som deles. “Acho a Banda de Pífanos a coisa mais futurista que eu já vi na minha vida. E só poderia acontecer no Brasil, é um negócio inacreditável”, elogia.

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A brasilidade também está explícita em “Emergencial”, que traz a participação da cantora Ikashawhu, da tribo Yawanawa. “Num determinado dia, eu percebi que tinha que convidar uma cantora indígena para ser a voz dos guardiões do mundo. Essa música, especificamente, é gravada em 432 hertz, uma frequência que dialoga melhor com a vibração ressonante do próprio planeta, é uma frequência mística. A alquimia, a bruxaria, tudo na produção desse disco está lidando com essa questão, me permitindo ir mais fundo no que é gerar um fonograma”, filosofa.

Ele conta saber que, se tivesse seguido a linha bem-sucedida iniciada em “Feito Para Acabar” (2010), seu trabalho provavelmente teria continuado a ser bem recebido. “Só que eu não sou um designer de produto, eu sou um artista, inteiro. O que me move é outra falange”, manda. E jura não ter tido frio na barriga em relação à recepção do trabalho. “Tive do primeiro para o segundo, eu não tinha essa maturidade. Agora, no terceiro, não tenho nem um pouquinho de medo. Eu tenho muita clareza do artista que eu sou”, garante.

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