Na BR-3: ‘Ainda somos a nova geração, mas certamente não somos novatos’, diz Tomás Bertoni, do Scalene
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Na BR-3: ‘Ainda somos a nova geração, mas certamente não somos novatos’, diz Tomás Bertoni, do Scalene

Por Ricardo Alexandre

Das bandas brasileiras aparecidas nesta década que já está no fim, o Scalene sempre foi das maiores equilibristas: de um lado, a estética esquisitona de seus clipes e de sua programação visual; do outro, o finalista do “Superstar”, da TV Globo, com entrevista no “Encontro com Fátima Bernardes”. De um lado, o uso eficiente da internet e das redes sociais; do outro, uma preocupação de uma discografia e de um corpo autoral típico dos tempos em que os artistas gravavam LPs como se lançassem novas coleções para a nova estação.

O show que estreia no dia 3 de novembro na casa Natura Musical, por exemplo, tem o formato típico do que os Titãs faziam nos anos 1980: destaque para um novo repertório (no caso, do álbum “Respiro”, o quarto da banda, que chegou às plataformas no final de julho) e uma seleção de obras antigas afinadas esteticamente com o trabalho atual. Comemorando os dez anos de carreira, dá para dizer que o Scalene, surgido em Brasília, é banda com alma tradicional com som mais contemporâneo do pop-rock brasileiro de hoje.

Gustavo Bertoni, vocalista do Scalene, em show da banda no Palco Mundo, no Rock in Rio 2017 / Foto: Getty Images
Gustavo Bertoni, vocalista do Scalene, em show da banda no Palco Mundo, no Rock in Rio 2017 / Foto: Getty Images

Respiro”, o álbum, foi recebido como uma espécie de passo do grupo em direção à música brasileira. Um pouco pelas participações de Hamilton de Holanda em “Vai Ver” e Ney Matogrosso em “Esse Berro”, um pouco pela direção artística de Marcus Preto (Gal Costa, Paulo Miklos). Mas a verdade é que, com todos os violões de nylon, toda flautinha e toda harmonia presente e com praticamente todo lado “stoner” ausente, o Scalene olha para a música brasileira com a mesma desconfiança alienígena e a testa franzida com que olhava para qualquer coisa. As camadas eletrônicas e as mudanças bruscas de direção continuam sendo marca forte e o resultado é tão incômodo quanto o rock deve ser. Confira ao primeiro clipe do álbum:

O Scalene é formado pelos irmãos Gustavo (voz, guitarra) e Tomás Bertoni (guitarra, teclados), Lucas Furtado (baixo) e Philipe Makako (bateria). Tomás interrompeu os ensaios para o novo show para conversar com a coluna “Na BR-3”:

Vocês estão naquele ponto da trajetória de uma banda no qual o show depende menos de material novo – ou seja, aquele ponto em que os hits sustentam o roteiro. Eu arriscaria dizer que vocês entraram em estúdio sabendo disso, e saíram com um disco sem a preocupação de transportá-lo totalmente para o palco. Arrisquei certo?

Arriscou certo e errado ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista (risos). De fato, nós fizemos o “Respiro” tendo em mente essa exploração das possibilidades do estúdio, mas, ao mesmo tempo, a gente queria levar isso para o palco, e a gente vai fazer isso. A ideia para esse show é focar nas músicas do álbum novo, repaginar algumas da nossa discografia e aproveitar para tocar músicas que a gente tocou poucas vezes ao vivo, coisas superficialmente mais “calmas”, que combinam bem com o “Respiro”. Naturalmente, não vai deixar de ser intenso e impactante – só vamos canalizar nossa energia de outra forma. O que acontece é que o Scalene entra numa fase em que vai ter dois tipos de show. Quando a gente for tocar, digamos, num festival, a gente vai fazer o show cheio de guitarras, pesado, focado na discografia toda, e incluindo algumas coisas do “Respiro”. E temos um segundo tipo de show, que são os shows do “Respiro”, focados no repertório novo e repaginando as músicas dos outros álbuns. Vai ser um processo interessante. Estamos planejando tudo muito bem, mas vamos aprimorar e aprender com o processo.

Todos somos produtos, mas alguns são produtos artísticos e outros produtos na prateleira. Acho que no mundo inteiro o mais vendido é o produto de prateleira, porque ele é feito para isso e pensado para isso

Há algumas semanas, conversando com o Gabriel, dos Selvagens à Procura de Lei, falávamos dessas bandas brasileiras que estão comemorando dez anos. Tanto eles quanto vocês ainda são “a nova geração”, mas dez anos é tempo para caramba – basta a gente lembrar que os Mutantes originais ficaram cinco anos juntos, Moraes saiu dos Novos Baianos depois de seis anos e os Beatles gravaram tudo o que gravaram em oito anos. Vocês se sentem ainda “o futuro do rock brasileiro” ou já se sentem veteranos? Há algum tipo de ressentimento de ter nascido num período com tão poucos espaços para o rock brasileiro como nos anos 2010?

Ressentimento acho uma palavra muito forte. Diria que rola uma pequena... Frustração. Um “putz!”, quando a gente imagina como estaria nossa carreira se a banda tivesse surgido, digamos, ainda nos anos 2000, quando havia mais espaço para bandas de rock. Acho a minha geração tão boa quanto qualquer outra – talvez eu não seja imparcial o suficiente para falar isso (risos) e certamente ainda temos muita coisa a construir –, mas realmente não tem muito espaço para ela. Tem todo um papo sobre se esse espaço vai voltar ou não, ou como vai voltar. Mas estamos vivendo de música, realizando sonhos, sendo reconhecidos, tocando para caramba, tudo certo, não dá para reclamar. No caso do Scalene e de bandas até mais antigas como o Supercombo, existe uma característica geracional interessante que é o fato de termos começado MUITO independentes. Nossos dois primeiros anos de banda foram gastos aprendendo o que era input e output (risos), depois trocamos de formação quando finalmente engatamos. Não dá para desconsiderar esse início, mas é mesmo maluco pensar em todas as grandes bandas que não chegaram a ter o tempo de carreira que nós temos. Acho que nós estamos deixando de ser “o futuro” para entrar num processo de consolidação. Mas aí também depende de aparecer uma outra geração para que a gente deixe de ser “a nova geração” (risos). Quem será que vai vir depois da gente, do Far From Alaska, do Supercombo, d’O Terno, Francisco El Hombre? Vai vir. Às vezes dá uma agoniazinha, mas a gente sabe que vai surgir. E quando ela chegar, nossa geração vai virar veterana. Até lá ainda seremos a “nova geração”, mas certamente não somos mais novatos.

Tomás Bertoni (no meio) em foto de 2017, antes do show no Rock in Rio / Foto: I Hate Flash
Tomás Bertoni (no meio) em foto de 2017, antes do show no Rock in Rio / Foto: I Hate Flash

O movimento em direção à “MPB” é um truque meio manjado entre as bandas de rock, especialmente porque a MPB empresta certa maturidade e um certo status “adulto” às bandas mais jovens. O quanto disso interessa ao Scalene? Que cuidados vocês tomaram para que esse movimento não descaracterizasse o som ou a imagem do grupo?

As motivações do “Respiro” foram diversas, essa aproximação com a música brasileira foi gradual – embora tenha surgido mais drástica do “+gnetite (2018)” para o “Respiro”, mas ela vinha acontecendo. Simplesmente quisemos explorar esse lado que a gente sempre curtiu e nunca nos ocorreu “provar” alguma coisa para alguém, ou para o mercado, sobre como ficamos maduros ou adultos. Até porque nosso som já era maduro e adulto – embora possa existir gente que não reconheça isso porque, digamos, a gente participou de um programa da Globo. Mas não acho que a gente fizesse todo um projeto que gerasse um novo álbum e um novo formato de show só para convencer gente preconceituosa de que somos adultos (risos). Já tocamos em dois Lollapalooza, tocamos no Rock in Rio em 2017, ganhamos Grammy, todos nossos discos tiveram boa aceitação de público e crítica, não acho que a gente estivesse querendo provar algo para alguém. Não chegamos ter essa conversa sobre descaracterização porque ao longo do processo foi ficando claro como não deixar isso acontecer. O Diego Marx é o produtor de todos os nossos discos, é nosso técnico de PA nos shows. A mixagem foi feita pelo Ricardo Ponte que mixou todos os nossos discos anteriores. A única coisa diferente de verdade foi a masterização – esta é a nossa melhor masterização, do holandês Erwin Maas. Nossa dinâmica, nossos timbres, nossas harmonias são muito características, a forma como o Gustavo canta, tudo isso está dentro do campo semântico do Scalene – especialmente a sequencia “Esse berro”, “Percevejo” e “Ciclo Senil”. É total Scalene.

Eu percebo o público do Scalene misturando os que curtem a dinâmica mais contemporânea do som de vocês – como as texturas eletrônicas e a plástica mais moderna e tecnológica da banda – com aqueles que gostam dos climas mais sombrios e o lado mais pesado e enigmático da banda. Você concorda com isso? Como esse público recebeu o “Respiro”?

Adorei a definição dessas facetas. Só acho que elas não são lados opostos, mas complementares. Tem muita gente que gosta dessas duas coisas ao mesmo tempo – a gente, por exemplo, gosta bastante (risos). E quem acompanha o Scalene a fundo, ouve o que a gente ouve, segue nossas playlists nas redes sociais, tem gostado desse processo de construção da nossa discografia, porque ele faz muito sentido. A recepção desse disco certamente foi diferente, mas a gente já tinha na nossa discografia músicas como “Anoiteceu”, “Amanheceu”, “Tiro Cego”, “Entrelaços”, “Milhares como eu”, coisas super a ver com “Respiro” e que já estavam entre as músicas mais ouvidas e pedidas da banda. Tem, sim, essa galera que curte um som mais pesado e com guitarras distorcidas que estranhou – mas que vem sendo conquistada pouco a pouco. Isso é uma das coisas mais emocionantes e divertidas, notar as pessoas que não haviam curtido o álbum inicialmente, mas que continuaram acompanhando os faixa-a-faixa que estamos divulgando nos nossos canais, daí o cara o cara vai lá ouvir de novo. É incrível porque isso já aconteceu tantas vezes comigo – e hoje eu percebo que muitos discos que eu demorei para gostar acabaram sendo, a longo prazo, algumas das minhas maiores referências. Puxa, isso tem um valor enorme para gente.

Uma coisa interessante com o Scalene é que vocês começaram a banda ainda na adolescência e hoje estão todos abaixo dos 30 anos. Você consegue descrever o público jovem brasileiro em relação a seu gosto por cultura e entretenimento?

Bem, com certeza existe uma bolha formada por aqueles que valorizam a parte artística, a mensagem, que vão atrás da informação, que não dependem do rádio ou do “Só Toca Top”. É uma galera que não existia há cinco anos, para quem os festivais independentes têm um papel importante – CoMa, Bananada, Do Sol, enfim, festivais que dão vitrine e sustentabilidade para esse mercado. E graças a essa bolha tem muita banda, de diversos estilos, da MPB ao rock e ao hip-hop, rodando o Brasil, consolidando seu público, vivendo de música. Mas realmente é algo nichado. E tem o público Brasil-Continental-200-milhões-de-pessoas (risos), que ouve arrocha e sertanejo e consome o que está na rádio. Gente que ouve música como entretenimento. Isso nem é uma crítica – são apenas realidades diferentes que coexistem. Por isso é difícil dizer quem é o público jovem brasileiro – até porque as gerações são cada vez mais curtas e o adolescente de hoje é muito diferente do adolescente que fui. Existe o público com o qual eu mais me conecto, que é o público do qual eu faço parte, que é essa galera desse midstream, que se liga no que o artista está propondo, no que o artista está se arriscando ou desafiando o ouvinte, que busca um sentido no que faz, que acredita que não é só um produto o mais. Quer dizer, todos somos produtos, mas alguns são produtos artístico e outros produtos na prateleira. Acho que no mundo inteiro o mais vendido é o produto de prateleira, porque ele é feito para isso e pensado para isso. Não adianta nem querer competir no mesmo patamar.

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