Sergio Dias encara o dilema dos Mutantes; Suricato encara o mercado em parceria com o Melim; Tom Bloch encara o passado de promessas não cumpridas
Na BR-3

Sergio Dias encara o dilema dos Mutantes; Suricato encara o mercado em parceria com o Melim; Tom Bloch encara o passado de promessas não cumpridas

Em 2007, Sergio Dias, um dos maiores nomes da história do pop brasileiro, meteu-se numa enrascada ao insistir em continuar com os Mutantes mesmo após o fim da consagradora turnê que o reuniu ao irmão Arnaldo Baptista e ao baterista Dinho Leme. Sergio acreditava, como acredita até hoje, que, como fiel depositário das idas e vindas da banda desde 1968, é o único capaz de traduzir o espírito original em músicas inéditas. Aí começa a enrascada, pois nem quando Arnaldo e Rita Lee lideravam o conceito do grupo, nem depois da separação do trio original em 1972, nada do que os três fizeram foi remotamente parecido com o som clássico da banda. Ou seja: se tentasse emular a fase tropicalista adorada em todo o mundo, Sergio estaria traindo o espírito irrequieto da banda. Se tentasse ser fiel ao que havia se tornado quatro décadas depois, não faria sentido usar o nome Mutantes.

Bem, Sergio lançou dois discos sem resolver o dilema e, agora, um terceiro que o agrava: “Zzyzx” reúne algumas das melhores coisas que o guitarrista compôs e gravou desde 1972 e, mais do que nos anteriores “Haih or Amortecedor” (2009) e “Fool Metal Jack” (2013), consegue se livrar dos truques e maneirismos do período tropicalista e pós-tropicalistas.

Mas é possível analisar um novo disco dos Mutantes de forma cartesiana? Não é, e Sergio vai pagar o preço de usar o nome do trio original em um projeto quase todo em inglês em que assina sozinho nove das 11 músicas. Se fosse um álbum solo, a qualidade de músicas como “Beyond”, “Window Mirrors”, “Void” e “Mutant’s Lonely Night” poderiam ser analisadas como os acertos que são, vindos de um dos poucos representantes brasileiros naquele lugar de autoridade em que apenas as grandes lendas do rock estão.

Suricato e Melim

Não tem nada de errado no fato de o artista aprender a dialogar com os canais que estão à sua disposição na época, ou usar as ferramentas de seu tempo. Sinatra só existiu por causa do microfone, "Sgt Pepper" só existiu por causa do long play haver dominado o mercado, Duran Duran por causa do videoclipe, Roberto Carlos por causa da televisão, Orlando Silva por causa do rádio, Strokes por causa do mp3. Normal.

Rodrigo Suricato é um artista de verdade, com talento de verdade e desde que apareceu em 2009 com uma banda que levava seu sobrenome vem se esgueirando nos espaços que lhe aparecem para mostrar sua música. No programa “Superstar”, como banda de apoio do "The Voice", como vocalista do Barão Vermelho, como banda-de-um-homem só e agora como parte do surto de “featurings”, uma tendência típica de uma sociedade tão ansiosa que é incapaz de curtir um artista por vez.

“Astronauta” é música sua lançada em seu (bom) álbum “Na Mão As Flores”, lançado em meados do ano passado. A nova versão foi gravada com o trio Melim, fenômeno da era da música nas redes sociais e em cinco dias já passou de meio milhão de views. A gravação original era um bluegrass espacial, mas a gravação nova leva a música para o território do Melim, reggaezinho acústico infanto-juvenil sem arestas nem espinhos. Vai tocar bastante. O quanto os descaminhos do mercado atual vão embotar a imagem pública de Rodrigo Suricato, e o quanto isso importa num mundo desideologizado como o da música em 2020, só o tempo dirá.

BaianaSystem e Antonio Carlos & Jocafi

Enquanto os indies dos anos 2010 estão descobrindo o axé, a maior banda brasileira atual, BaianaSystem, já deu a volta no assunto e chegou na reinvenção da dupla Antonio Carlos & Jocafi, dupla baiana que estourou no início dos anos 1970 com “Você Abusou” e atravessou a década com muitos hits nas rádios e novelas. O som de AC&J misturava soul music, funk, samba jóia e afro-latinidadaes diversas.

“Miçanga” é a primeira música a emergir do projeto que Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, arquiteta com a dupla de heróis. Produzida por Daniel Ganjaman, “Miçanga” consegue trafegar tanto pelo universo do grupo baiano quanto soar harmônica da dupla. O álbum deve ser lançado em 2020 e fica difícil não esperar com água na boca:

Tom Bloch

Na virada entre a década de 1990, o grupo gaúcho Tom Bloch apontava todos os caminhos que uma banda nova poderia apontar. Era “rock gaúcho” mas superava a fase da excentricidade retrô, antes olhava para o presente e o futuro, combinando guitarras turbinadas, dinâmica de e banda para ginásio e programações eletrônicas; falava de amor, mas não do jeito juvenil que tocava no rádio em “Anna Julia”, antes, era maduro o suficiente para superar, ao mesmo tempo, o iê-iê-iê do Los Hermanos da época e o rock-de-macho do Charlie Brown Jr; era irritantemente excelente (no sentido de excelência), mas pop o suficiente para tocar no rádio. E tinha um democlipe, “Nossa Senhora”, abraçado pela MTV. Como “O Amor” não tocou até enjoar, é algo que eu não entendo até hoje. E, claro, tinha Pedro Veríssimo, filho do Luiz Fernando e neto do Erico Veríssimo, articulado, inteligente e com toda a chapa para ser o relações-públicas que toda banda precisa ter.

Por alguma razão misteriosa, o Tom Bloch foi soterrado pelo cenário que podia muito bem ter renovado. Ficou como uma promessa nunca cumprida, embora seus dois álbuns sejam objeto de culto até hoje. Mas até na construção da sua biografia há a mancha da promessa não-cumprida: “Tom Bloch” , o álbum de estreia de 2003, existia apenas na internet num mundo pré-streaming, na extinta plataforma da Trama Virtual.

Nas celebrações dos vinte anos da banda (iniciadas ano passado com um show de reunião em novembro) o álbum chega às plataformas digitais. É um monumento à história não contada do rock brasileiro, talvez mais interessante do que a história oficial.

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