Sinéad O’Connor, a coragem e a força de uma das maiores vozes de sua geração
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Sinéad O’Connor, a coragem e a força de uma das maiores vozes de sua geração

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Quando David Bowie morreu, em 10 de janeiro de 2016, naturalmente diversos tributos começaram a acontecer. Não é simples, porém, homenagear com justiça e beleza o legado de um dos maiores artistas de todos os tempos. A maioria de tais tributos — por mais bem intencionados e mesmo comoventes que fossem — soava ora excessivamente didática sobre a importância de Bowie, ora excessivamente ensaiada e artificial (como a apresentação de Lady Gaga no Grammy daquele ano). Uma homenagem pouco vista e menos celebrada foi, no entanto, a mais comovente e funcional para mim: no dia 4 de março, de calça jeans e camiseta, em um vídeo mal filmado por um celular e simplesmente postado no YouTube, Sinéad O’Connor cantou “Life On Mars?” como ninguém. Como talvez nem o próprio Bowie poderia cantar. 

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Não havia parafernalhas nem coreografias. Não havia texto de apresentação, celebridades em desfile nem telão em alta definição. Havia somente uma grande cantora, defendendo uma grande canção, e nenhum tributo foi mais emocionante do que aquele da artista irlandesa. Sinead O’Connor subiu no palco, abriu a boca ao máximo e entoou com coragem e imprecisa perfeição a homenagem a Bowie refletindo o que ele tinha de melhor. E essa parece ter sido desde sempre a principal virtude de Sinéad: o direto ao ponto, sem excessos, mas com coragem e talento que poucos tiveram — e que também a levaram à ruína de sua própria promissora, premiada e reconhecida carreira. 

A irlandesa Sinéad O’Connor se tornou imortal com o hit "Nothing Compares 2 U", composto por Prince / Foto: Getty Images
A irlandesa Sinéad O’Connor se tornou imortal com o hit "Nothing Compares 2 U", composto por Prince / Foto: Getty Images
“Lute contra o verdadeiro inimigo”

Quando, em 1990, Sinéad O’Connor tomou o mundo de assalto com o disco “I Do Not Want What I Haven’t Got— especialmente com a música “Nothing Compares 2 U" — não era difícil perceber, diante do onipresente videoclipe desse hit, que ali havia uma artista especial. A canção composta por Prince ficou fadada à imortalidade no instante em que uma lágrima rolou no rosto da cantora que reproduzia, no vídeo, os versos que até hoje seguem fortes com emoção singular. Sinéad, porém, não era somente a alma doce, amargurada e bela que o vídeo sugeria. 

Em 1992, em uma apresentação ao vivo no programa “Saturday Night Live!” (uma das maiores audiências da TV americana, em uma época que a televisão era o principal meio de comunicação do planeta), após uma tocante rendição à capela do clássico “War”, de Bob Marley — na qual ela alterou a letra para não falar somente de racismo, mas também de abuso sexual infantil — Sinéad rasgou uma foto do então Papa João Paulo II diante do atônito público norte-americano. “Lute contra o verdadeiro inimigo”, disse, ao encerrar a performance e, de certa forma, a sua carreira como era até ali.

A reação contra ela foi tão violenta que Sinéad seria taxada a partir de então como uma mulher “louca”, que merecia punição. Católica de criação e lutando até hoje contra transtornos bipolares, depressão e instabilidade emocional, a verdade é que o ato transgressor da cantora na TV americana foi um gesto visionário, corajoso e importante — uma denúncia fundamental, ainda que efetivamente kamikaze

Naquela época, pouco se falava sobre o que hoje é reconhecido como uma prática endêmica e monstruosa dentro da instituição da Igreja Católica: não só o abuso sistemático de crianças, como o acobertamento dos abusadores por parte das lideranças da igreja. Somente nove anos após o gesto de Sinéad que o mesmo Papa de quem ela rasgou a foto admitiria os episódios abusivos, ainda assim combatendo de forma tímida a terrível prática que até hoje acontece nos porões da instituição religiosa. 

Sinéad nunca se desculpou por ter se voltado contra a igreja católica e lançou discos importantes após o ocorrido / Foto: Getty Images
Sinéad nunca se desculpou por ter se voltado contra a igreja católica e lançou discos importantes após o ocorrido / Foto: Getty Images

Sinéad jamais seria “perdoada” por seu ato, mas ela também jamais pediu perdão — e segue até hoje criticando a igreja católica por suas posições preconceituosas e pela maneira lenta e prejudicial com que realiza suas tímidas reformas. O fato de ter lançado diversos discos após o ocorrido, com algumas gravações brilhantes — como uma versão de “All Apologies”, do Nirvana —  tornou-se irrelevante. Para além de sua sexualidade, da exploração inclemente que até hoje se faz pela imprensa e pela internet de sua instabilidade emocional, o fato é que Sinéad sempre foi uma inconformista, lutando com coragem e pioneirismo contra a cultura machista e a exploração sexual. O gesto que lhe condenaria ao ostracismo e à fúria da opinião pública foi, em verdade, uma corajosa e fundamental denúncia. 

Hoje convertida ao islamismo e voltando eventualmente às manchetes por conta de eventuais colapsos nervosos públicos, Sinéad ainda sofre com a caricatura que lhe foi imposta. Trata-se, no entanto, de uma das maiores cantoras de sua geração, que segue capaz de interpretações raras (como prova sua homenagem a Bowie) e que terminou condenada pela braveza de apontar o dedo para uma das maiores feridas de nossa história. Se coragem tem de ser um elemento essencial para alguém ser reconhecido como um grande artista, isso jamais faltou à Sinéad — que ainda nos presenteou e, tomara, seguirá nos presenteando, com a força, a dor e a beleza de sua voz. 

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