Sonhos de rock inspiram ficção e um novo formato, o podbook; e segue a saga de 'LSD', livro de referência da psicodelia brasileira
Na BR-3

Sonhos de rock inspiram ficção e um novo formato, o podbook; e segue a saga de 'LSD', livro de referência da psicodelia brasileira

Uma discussão interessante (pelo menos para jornalistas da área cultural) é sobre o termo “jornalismo de rock”. O termo surgiu em 1966, na revista americana “Crawdaddy” para se referir a uma cobertura jornalística que se opusesse ao jornalismo de celebridades das revistas adolescentes e ao jornalismo de hit parade, mais alinhado aos interesses do mercado, de revistas como “Cash Box” e “Billboard”.

“Jornalismo de rock” tinha a pretensão de tratar de música como fenômeno cultural e estético, muitas vezes colocando o repórter/crítico no meio da narrativa, muitas vezes combinando análise com literatura com ficção com realidade.

Há quem não goste do termo porque acha imprópria a veiculação a um gênero musical que há muito tempo deixou de ser o ponto-de-encontro das transformações culturais do ocidente. Eu gosto de “jornalismo de rock” justamente por alargar o entendimento do que é rock. Nesta nova reunião de notas curtas da coluna “Na BR-3”, eu reuni algumas transmutações da ideia de jornalismo rock – que vai do infinito universo dos colecionadores de discos à invenção de um formato chamado “podbook”.

Capa do primeiro volume de 'Lindo Sonho Delirante', de Bento Araújo/ Reprodução
Capa do primeiro volume de 'Lindo Sonho Delirante', de Bento Araújo/ Reprodução

Lindo Sonho Delirante 3

Bento Araújo é um dos jornalistas brasileiros que melhor soube explorar o filão do colecionismo entre os fãs de música. Primeiro com seu fanzine “Poeira Zine”, depois com o podcast Poeira Cast e, finalmente, com sua pièce-de-résistence, a série de livros “Lindo Sonho Delirante”. O primeiro volume, de 2016, tinha o subtítulo de “100 Discos Psicodélicos do Brasil (1968-1975)”. O segundo, dois anos depois, reunia “100 Discos audaciosos do Brasil (1976-1985)”. Ambos são bilíngues e foram viabilizados graças ao financiamento coletivo. A campanha pelo Vol. 3, “100 Discos Corajosos do Brasil (1986-2000)” está no ar neste exato momento neste link, com diversas recompensas.

Os livros, bilíngues, coloridos e impressos em papel couché, são um tesouro não apenas para quem frequenta sebos e feiras de vinil, mas para todo mundo que gosta de mergulhos mais profundos na história da música feita no Brasil.

O Fio

Luis Henrique Pellanda e Rodrigo Stradiotto eram parte do grupo curitibano Woyzeck no início dos anos 1990. O Woyzeck foi uma das grandes “bandas perdidas” que não conseguiram dar o passo do underground em direção ao mercado. Stradiotto virou diretor de cena e motion designer, mas não abandonou a música. Já Pellanda enveredou para a literatura – virou cronista, escreveu em jornais e já tem uma considerável bibliografia (o mais recente é “Detetive à Deriva”, de 2016). Pois os dois amigos lançaram um novo projeto musical, O Fio, pelo qual acabam de soltar “Tudo está correto”, música que une tudo o que os dois fizeram descrito aí em cima. A música (e o clipe, e a letra) são impressionantes. Mais músicas estão prometidas pelos próximos meses. Confira:

Tchau

O primeiro romance do baiano Ricardo Cury também foi viabilizado por crowdfunding. Cury já tocou em bandas importantes do cenário soteropolitano como brincando de deus, Jupiterscope e ZecaCuryDamm e depois de uma experiência em um livro de crônicas (“Para colorir”, de 2008), decidiu embarcar na história de duas vidas unidas pela morte. Praticamente todo o livro se passa em ambiente hospitalar, mas Cury conduz a história com tamanha delicadeza e cuidado que até as cenas mais pesadas parecem flutuar. Este é o perfil oficial do livro no Instagram.

O Som do Tempo Passando

Também baiano, Victor Mascarenhas é escritor, roteirista e publicitário com alguns livros no currículo. Seu novo romance, “O Som do Tempo Passando”, é a história de quatro garotos que, na virada dos anos 1980 para os 90, como muitos de nós, montaram uma banda de rock para tentar ser os próximos Titãs ou Paralamas. “Uma banda de garagem que não deu em nada”, como define Mascarenhas. “E que acabou no início dos anos 90, não por acaso quando o rock começa a deixar o mainstream.” Esses garotos se reencontram no assustador final dos anos 2010, “todos quarentões, vendo a diferença entre o que eles sonhavam e o que se transformaram”. Para anunciar o livro, Mascarenhas produziu um trailer com direito a música inédita do grupo baiano Maria Bacana (abaixo). Dá pra comprar “O Som do Tempo Passando” neste link.

Como ser um Rockstar

Guga Mafra é um dos precursores e uma das maiores autoridades em podcast no Brasil, com Jovem Nerd, B9 e outros no currículo. Atualmente, apresenta o Gugacast, mas continua empreendendo: dessa vez ele vem com um formato chamado “podbook”, um desdobramento possível tanto para podcasts quanto para livros. No caso, “Como ser um Rockstar”, livro em que Guga usa seu sonho frustrado de montar uma banda de rock no início dos anos 1990 como desculpa para falar das descobertas da adolescência e a passagem para a vida adulta. O livro sai só em 2020, mas o podbook saiu agora. Nele, Guga conversa com seu filho, Eric, de 15 anos. O papo entre pai e filho e o “sonho de rock” (como dizia Renato Russo) são o pano de fundo para essa história sobre “como sobreviver à adolescência” de maneira deliciosa. O podbook está disponível exclusivamente na plataforma Storytel. Saiba como ouvir neste link.

Ouça agora: Na BR-3 (Playlist de dezembro)

Como todo mês, a nossa playlist oficial acaba de ser atualizada, com uma seleção bem calibrada entre os assuntos do mês que passou, algumas raridades, alguns clássicos e o que de melhor tem sido feito em nome do pop-rock brasileiro. Sinta-se à vontade para seguir e clicar abaixo para ouvir:

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