‘Stand Up’: por que Cynthia Erivo merecia ter levado o Oscar de melhor canção original
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‘Stand Up’: por que Cynthia Erivo merecia ter levado o Oscar de melhor canção original

Elton John que me desculpe, mas Cynthia Erivo é quem merecia levar o Oscar de melhor canção original este ano. Todo mundo sabe que os prêmios da Academia não são lá muito justos na escolha dos seus laureados, é verdade, mas entregar o prêmio para “(I'm Gonna) Love Me Again”, da trilha de “Rocketman”, em detrimento de “Stand Up”, de “Harriet”, protagonizado por Cynthia, talvez tenha sido a maior injustiça da noite.

Nada contra o artista britânico e seu parceiro de composições, Bernie Taupin. A carreira — e a amizade — de década da dupla produziu sucessos gigantes para a música pop. Verdadeiros clássicos que nunca serão esquecidos. O problema é que “(I'm Gonna) Love Me Again” representa para o filme ou para a carreira de seus autores muito menos que "Stand Up" nos mesmos contextos.

'Harriet': Cynthia Erivo em atuação no filme sobre a vida de Harriet Tubman / Foto: Divu
'Harriet': Cynthia Erivo em atuação no filme sobre a vida de Harriet Tubman / Foto: Divu

“Harriet” narra a história de Harriet Tubman, escrava que, durante a Guerra Civil nos Estados Unidos, liderou a fuga de centenas de escravos no sul do país. No filme de Kasi Lemmons é Cynthia quem interpreta a abolicionista. A princípio, sua participação no longa seria esta: atuar. Com uma carreira premiada na Broadway — reconhecida com Emmy, Tony e Grammy por “A Cor Púrpura” —, ela não havia sido considerada de primeira para gravar a música do longa. Quando os produtores do filme foram até ela para mostrar a música que Joshuah Brian Campbell, compositor, havia escrito, ela sentiu que faltava algo ali.

"Eu perguntei se poderia ir no estúdio e reescrever junto com ele. Eu escrevi algo sozinha que não parecia ideal, ele também tinha escrito algo. A combinação do que nós dois escrevemos — mais o meu conhecimento do que foi feito no filme — era tudo que nós precisávamos", contou a atriz e cantora em uma entrevista recente. "Eu provavelmente fui uma chata para a maior parte das pessoas porque eu sabia exatamente como eu queria que a música soasse e o que eu queria fazer. Eu sabia o quanto isso significava para mim e para todas as pessoas", completou.

Cynthia Erivo, no estúdio, gravando 'Stand Up' / Foto: Divulgação
Cynthia Erivo, no estúdio, gravando 'Stand Up' / Foto: Divulgação

Cynthia só escreveu a letra da música depois que as gravações da base já haviam sido finalizadas. Foi só aí que ela se sentiu pronta para tentar transformar em palavras o que, talvez, Harriet Tubman quisesse cantar. Os versos finais foram uma mistura do que ela e Joshuah haviam criado. O resultado, todos viram na noite do último domingo, deixou o Dolby Theatre de pé.

“(I'm Gonna) Love Me Again” pode ser uma empolgante e virtuosa obra de Elton e Bernie, que merecem todos os elogios pela carreira que nutrem há tantos anos. Mas, honestamente, se assemelha a outras várias produções da dupla. Não há nada nela que seja relevante o suficiente para receber a honraria. O que “Stand Up” faz por sua história — a história de Harriet Tubman — vai muito, mas muito além.

A música fala da libertação do povo negro, cativo e oprimido por um modelo social e econômico exploratório e discriminatório. “Stand Up" levanta a bandeira do protagonismo feminino e do protagonismo negro. Dois pontos quase que ignorados pela Academia neste ano. Nunca é demais lembrar que o plantel de indicações a melhor direção em 2020, como em 2019, foi formado apenas por homens. Zero mulheres e apenas um negro: Spike Lee, em 2019, que concorreu por “Infiltrado na Klan”.

Entre as quatro categorias de atuação, apenas uma pessoa negra foi lembrada: a própria Cynthia, que concorreu como melhor atriz. "Estar em um lugar e não conseguir enxergar outros atores negros indicados, não poder compartilhar esse momento com outra atriz negra, é triste. Eu adoraria compartilhar deste momento com outra pessoa", disse Cynthia ao “Hollywood Reporter”.

A atriz subiu ao palco para apresentar “Stand Up” sozinha. No decorrer da música, foi ladeada por dançarinos e backing vocals em sua maioria negros, em uma grande evocação de luta, resistência e reconhecimento de ancestralidade. “É por isso que eu vou me levante e levar o meu povo comigo. Juntos, nós vamos para um novo lar, atravessando o rio. Você consegue ouvir a liberdade chamando? Me pedindo uma resposta. Eu vou continuar resistindo. Posso sentir isso nos meus ossos”, diz o refrão.

Me desculpa, Sir Elton, mas é impossível não fazer o Kanye com você.

Performance de 'Stand Up' recebeu aplausos de pé do público estrelado do Dolby Theatre / Foto: Getty Images
Performance de 'Stand Up' recebeu aplausos de pé do público estrelado do Dolby Theatre / Foto: Getty Images

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