Suicídios no k-pop: psicólogos veem artistas 'vulneráveis a enfermidades mentais' e pregam mudanças na indústria
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Suicídios no k-pop: psicólogos veem artistas 'vulneráveis a enfermidades mentais' e pregam mudanças na indústria

Estrelas do k-pop vivem uma vida cheia de brilho e de glamour. São frequentemente adorados pelos fãs, vestem as tendências de moda do momento e acumulam uma fortuna desde cedo. Isso tudo, a princípio, é ótimo, mas existem consequências. O que está oculto ao público são episódios de depressão, baixa autoestima e autodepreciação. E isto está cada vez mais claro após notícias de suicídio de jovens cantoras, de até 25 anos, como Sulli e Goo Hara, e de muitos artistas do gênero revelando suas lutas por saúde mental.

O que pode estar por trás de tantas mortes, como a de 2017, do cantor Jonghyun, da banda SHINee? Psicólogos e especialistas, ouvidos pelo site "Korea Times" avaliam que o cyberbullying é um forte indício para tantas mortes. Já para o psicólogo Kwon Young-chan, fundador de um centro de prevenção de suicídio para celebridades, a forma como as gravadoras tratam seus artistas é outro gatilho para tais doenças da mente.

"Comentários negativos são apenas a ponta do iceberg", apontou ele". "Algumas pessoas são mais resistentes a eles, enquanto outras, não. Ao meu ver, o que deveria mudar, de fato, é a maneira como as gravadoras e agências tratam seus artistas. O sistema precisa mudar."

Para Kwon, o problema mora na iniciação dos astros de k-pop, que são recrutados quando muito jovens. "Essas pessoas aprimoram sua arte desde muito cedo, e assim são privadas de refletir sobre suas vidas. Elas perdem o poder de escolha e deixam de socializar como um jovem normal. São 'criados' para se tornarem artistas de 'elite' que devem suprimir a vida pessoal em busca do sucesso", argumentou o psicólogo.

Na Coreia do Sul, existem milhares de gravadoras ávidas por treinarem jovens talentos desde muito cedo, como a SM, responsável pelas carreiras das Girls' Generation, EXO, TVXQ, a YG, que cuida dos grupos BIGBANG e Blackpink, e a Big Hit, agência do BTS. Antes desses artistas explodirem no mainstream, eles passam anos se aprimorando.

Depois que estão "prontos" para a grande estreia na cena musical, esses artistas passam a ser constantemente assediados e tem seus horários limitados por uma equipe que, praticamente, toma conta de suas vidas. A busca pelo lucro é o que suprime a vida pessoal dessas pessoas, obrigadas a assinarem contratos abusivos com cláusulas absurdas, como a proibição de relacionamentos públicos — já contamos aqui o que aconteceu com o casal HyunA e DAWN.

Jovens superprotegidos, quando crescem, se tornam adultos perdidos pois não conseguem se virar por conta própria. No palco, são gênios, mas na vida pessoal, são imaturas, não sabem gerenciar emoções, lidar com conflitos e superar dificuldades.

DAWN e HyunA, o casal que brigou com gravadoras para poder ficar junto/Getty Images
DAWN e HyunA, o casal que brigou com gravadoras para poder ficar junto/Getty Images

Ainda segundo Kwon, artistas de k-pop tendem a ser mais estáveis quando fazem parte de um grupo, pois assim se sentem menos solitários. Mas não podem fugir dos momentos em que estão sozinhos. E é aí que a confusão começa.

Muitos cantores do gênero iniciam suas carreiras solo quando o grupo está no auge. Mas como a cena de k-pop é extremamente competitiva, com cerca de 50 grupos novos a cada ano, a "idade de ouro" para esses artistas dura apenas alguns anos. Para outros, ela nem chega a ser viável.

"Os cantores se perdem facilmente quando não estão mais no topo. Eles se sentem muito sós", falou o psicólogo. "Não sabem o que fazer no tempo livre. Ficam sem noção de seus próprios objetivos de vida. E, durante esse período, ficam vulneráveis a todo tipo de doença mental, como depressão. Já outros não conseguem suportar a pressão e tiram suas próprias vidas."

Kwon sugere que as gravadoras tomem medidas o quanto antes para evitarem novos suicídios no futuro. Ele considera que tratamento profissional e personalidade para celebridades é algo de suma importância. "Superar transtornos mentais sozinho é algo muito desafiador", declarou. "As agências precisam ajudar os cantores em vez de tentar ocultar o sofrimento." O especialista ainda enfatizou a necessidade das autoridades sul-coreanos tomarem medidas contra o cyberbulling.

Sulli, a cantora encontrada morta em seu apartamento em Seul, na Coreia do Sul, em 14 de outubro/Getty Images
Sulli, a cantora encontrada morta em seu apartamento em Seul, na Coreia do Sul, em 14 de outubro/Getty Images

Além de Kwon, o "Korea Times" também conversou com o psiquiatra Park Jong-suk a respeito do assunto. Ele considera que comentários de ódio e agressões podem piorar os sintomas de transtornos mentais em estrelas de k-pop. "A Coreia do Sul precisa criar leis para eliminar os comentários negativos e punir esses agressores, mesmo que sejam menores de idade. Uma alternativa é criar um sistema de nomes reais online", avaliou.

Enquanto a legislação sul-coreana não desenvolve estratégias contra o cyberbullying, o médico sugere que as celebridades evitem ler comentários na internet ou, ao menos, dediquem algum tempo para relaxar e curar as feridas em tratamentos psicológicos e terapêuticos. "Mas nem todas as celebridades têm tempo para seguirem meu conselho. Por isso sugiro uma mudança na política pública. Haverá mais suicídios se nada for feito", afirmou Park.

O doutor revelou um dado impressionante sobre o tratamento de doenças mentais. De acordo com ele, a procura por tais cuidados é três vezes maior se comparada com a de uma década atrás. "Se um paciente com doença mental mostra sinais de impulsos suicidas, a hospitalização é a única solução", explicou. "Muitos países obrigam que esses pacientes permaneçam no hospital por alguns dias, mas na Coreia do Sul isso não acontece."

Por conta disso, o país tem a maior taxa de suicídio entre os países da OCDE desde 2003. "Os sul-coreanos relutam em ir ao hospital, acreditam que a psiquiatria só funciona para 'casos mais sérios'. Muitos pensam que podem superar a doença sozinhos, e acreditam que a construção de centros psiquiátricos é algo 'indesejável' para suas regiões", disse Park, que vê a onda de suicídio entre as celebridades como um gatilho para outros jovens.

"Para cada celebridade morta, cerca de 600 pessoas a imitam. Todos precisamos tomar medidas. Esse assunto é muito sério", finalizou.

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