Tabatha Aquino, a menina da ‘voz exagerada do metrô' é um exagero de talento
Música negra

Tabatha Aquino, a menina da ‘voz exagerada do metrô' é um exagero de talento

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Quando Tabatha Aquino era criança, gostava de cantar nas festinhas e nas brincadeiras com os amigos de escola. Com alguma frequência, ouvia dos coleguinhas de classe que ela "cantava exagerado". As palavras vinham em forma de crítica à entonação firme e cheia da voz da menina negra. "As crianças estranhavam meu jeitinho de cantar porque era um pouco diferente", relembra a cantora, em entrevista ao Reverb. Mas nenhuma palavra impediu que a pequena Tabatha colocasse como meta de vida a vontade de seguir aquilo que sempre tocou seu coração de forma não menos exagerada: a música. Presença constante nas composições do Metrô Rio, ela acaba de assinar um contrato de distribuição digital com a Sony Music. 

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Tabatha tem 22 anos e é filha de uma catadora de recicláveis e de um cantor e compositor. Nasceu nas ruas e viveu nelas por muito tempo. Seus pais a abandonaram, junto com sua irmã mais velha, em uma loja no Centro do Rio de Janeiro. Sem ninguém, as duas foram levadas a um orfanato. Quando soube do ocorrido, a avó de Tabatha veio do Recife, mas só buscou sua irmã: a senhora havia vendido a menina para um casal que cuidaria dela no Nordeste.

 Graças à música, comecei a pontuar tudo que eu gostava em mim. Eu me libertei. Foi um momento de verdade comigo. Até doeu um pouquinho mas, depois, a sensação foi como se eu tivesse nascido de novo 

No ano seguinte, Tabatha foi adotada por uma tia paterna. "Ela achou uma foto minha no jornal faltando pouco tempo para eu ir para outro país. Eu já estava em fase de adaptação para ir morar com uma família estrangeira", conta a cantora. Com a chegada da tia, Tabatha foi viver junto com ela e a prima. A música gospel tocava sem parar na casa. "Foi um momento de eu me aproximar da música, mas não de me encontrar. Nós ouvíamos muita Cassiane (cantora evangélica) e muita música gospel", diz. 

O apego à música só veio mais tarde. Durante a adolescência, Tabatha assistia a muitos musicais, mas não se reconhecia em nenhum deles. "Eu assistia a filmes como 'High School Musical' e às vezes eu até me esquecia que era negra. Uma vez, eu passei o dia inteiro assistindo filmes e, à noite, quando me vi no espelho, eu tomei um susto", conta. "Eu entrava tanto na vida dos personagens e não me via representada ali. Os negros sempre eram coadjuvantes e aquilo era muito puxado".

O jogo virou quando ela conheceu Deise Cipriano, a principal voz do grupo Fat Family. A cantora, que faleceu em fevereiro deste ano, deu a Tabatha um novo olhar sobre si. "Alguma coisa nela me pareceu familiar. Os cabelos, a segurança, a voz. Eu assisti aquilo e pensei: 'ué, todo mundo fala que cantar assim é exagerado, mas está na televisão'. Eu não sabia que aquilo era normal", relembra ao falar da vez em que assistiu a "Xuxa Requebra".

"Eu treinava para cantar mal, para desafinar, para cantar fraquinho e tentar me enquadrar nos corais, nas brincadeiras. Pela minha voz 'exagerada', as crianças não me deixavam brincar com elas", relembra. O "encontro" com arte de Deise Cipriano fez Tabatha resgatar o amor pelo dom que tinha. Do jeito que ele era, sem tirar nem pôr. Ela voltou a cantarolar pela casa e se pegava surpresa com o próprio potencial. "Graças à música, comecei a pontuar tudo que eu gostava em mim. Eu me libertei. Foi um momento de verdade comigo. Até doeu um pouquinho mas, depois, a sensação foi como se eu tivesse nascido de novo".

O renascimento a fez procurar estímulos para a sua voz. Ela se inscreveu em corais e começou a buscar referências na música. Jennifer Hudson, Whitney Houston, Nina Simone ("Ela cortou os galhos para facilitar o caminho de pessoas como eu") e, até mesmo, Nirvana

A música me deu a voz e uma opção. Eu tenho uma obrigação através dela. 

"Eu escutava muito o Nirvana porque eu tinha um sentimento de raiva dentro de mim e não sabia dizer o porquê. Quando eu cantava, não conseguia segurar isso. Era quando eu me esvaziava", explica.

Tabatha nunca contou com o apoio da tia, a quem chama de mãe. Quando dançava hip-hop, ela teve suas roupas jogadas fora e quase sempre era proibida de cantar. "Até umas três ou quatro semanas antes de o vídeo viralizar, ela tinha me dito que era para eu decidir o que fazer da miha vida. Eu falei: 'eu já decidi e na hora certa eu vou colher".

O vídeo a que ela se refere é de uma gravação feita no metrô do Rio de Janeiro. Nas imagens, ela aparece sentada no trem, cantando "Apaga a Luz", de Gloria Groove, com a filha Nicoly, de cinco anos, ao seu lado. O registro, é óbvio, correu a internet. 

Com o contrato assinado com a Sony, Tabatha já começa a provar da própria convicção, mas não pretende abandonar as raízes. Diz que mesmo quando o sucesso vier, não vai abandonar os vagões do metrô. Inclusive, a entrevista ao Reverb foi dada da escadaria da estação São Conrado. Apoiar e fortalecer a arte de rua são fundamentais para ela. 

"A música é o que me deu a voz e uma opção. Eu tenho uma obrigação através dela. Assim com Etta James teve, como Nina, assim como todos os seres humanos têm de tentar sempre passar coisas boas por onde estiverem e tentar consertar o que há de ruim. A gente tem essa mania de achar que uma andorinha só não faz verão, mas a unidade faz muita diferença".

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