Tambor de Crioula, expressão maranhense, reúne música, dança e religiosidade
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Tambor de Crioula, expressão maranhense, reúne música, dança e religiosidade

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Famoso por seus lençóis de areia que já foram cenário de novela, e até de filmes hollywoodianos, o Maranhão é um estado nordestino com uma cultura popular muito particular. Ela é dotada de várias influências, principalmente dos quatro povos que ajudaram a formar o estado: portugueses, franceses, holandeses e africanos — estes arrancados de seus locais de origem para serem escravos, como bem se sabe. É de lá que vem o Tambor de Crioula, uma entre as várias expressões artísticas praticadas por negros escravizados, na tentativa de preservação de sua história ou até mesmo por questão de sobrevivência. Ainda hoje, o tambor carrega significado similar para quem o pratica, mesmo em tempos tão distintos: o de preservação do lugar de origem. 

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Pensando nisso — e também com saudades de casa — os gêmeos Rômullo e Rammon Costa criaram, há mais de dez anos, no Rio de Janeiro, a Companhia Mariocas. A ideia era trazer um pouquinho do Maranhão para terras cariocas e resgatar a própria história.  “O Mariocas surgiu da vontade de brincar com a nossa cultura popular. Meu irmão e eu viemos para o Rio de Janeiro em 1995 para fazer alguns programas de televisão justamente por conta da relação com outras manifestações culturais. E quando chegava a época de São João a gente sentia falta de casa. Sempre tivemos uma relação com a dança afro”, conta Rammon em entrevista ao Reverb.

Hoje, a companhia trabalha com diferentes tradições do Maranhão, mas tem o Tambor de Crioula como carro-chefe. Rammon explica que o Tambor de Crioula é brincado, principalmente, como forma de louvor a São Benedito, um dos santos mais populares do estado maranhense. Mas também tem sua versão profana, não ligada à religião, que seu projeto apresenta. 

A roda começa com alguém puxando o canto, geralmente acompanhado de um apito para ajudar a dar o ritmo, assim como acontece numa bateria de escola de samba. Um dos brincantes responde a esse canto, numa toada, e aí começa a brincadeira. Essa toada pode ser uma já existente ou até mesmo uma improvisada ali na hora. A inspiração vem do próprio cotidiano e o objetivo é fazer com que todos acompanhem mesmo sem conhecer a canção que vai sendo composta na hora.  

Em seguida, o coro, formado pelos instrumentistas, chamados de coreiros, e pelas mulheres, as coreiras, acompanha a toada e a partir daí está iniciada a roda. Os temas são os mais variados, desde a auto-apresentação, passando por homenagem às mulheres presentes, sátiras, até despedidas. Vale observar que as mulheres ficam responsáveis por cantar e dançar e os homens cantam e tocam. As mulheres não tocam instrumentos por uma questão religiosa, uma herança mesmo na roda profana. 

Um conjunto de tambores chamado parelha é quem dita o ritmo da dança. A parelha é formada basicamente por três tambores: um pequeno, um médio e um grande, todos bem rústicos.  Além disso, também podem ser acrescentados pandeiro e matracas, o que varia conforme regionalismo.

Com relação à coreografia, basta seguir o som dos tambores e interagir com as coreiras, acompanhando seus rodopios em saias floridas. Há, porém, uma particularidade chamada punga, praticada pelas mais experientes. Uma espécie de convite dado através de um sutil (ou nem tão sutil assim) toque de barriga com barriga que indica quando uma brincante quer dar lugar a outra.

E assim, brincando, cantando e dançando é que se mantém essa tradição, atualmente Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, levando alegria e descontração para quem não conhece, mas principalmente para quem a conhece bem. Assim como faz questão de lembrar Rammon:  “Quando a gente fica muito tempo morando em outro lugar acaba perdendo um pouco a nossa própria história. Não podemos e nem queremos perdê-la”.

Para participar de uma das rodas não é preciso muito, basta chegar com respeito e pronto, você já é bem-vindo. Oficialmente, o tambor não tem local fixo ou época definida para acontecer, mas as apresentações costumam acontecer mais próximas do carnaval ou no período de festas juninas

Tradição cultural tem o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro / Foto: Paula Eliane / Divulgação
Tradição cultural tem o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro / Foto: Paula Eliane / Divulgação

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