Tame Impala, em alta, mira o topo do pop; Kevin Parker anuncia: 'Quero ser Max Martin'
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Tame Impala, em alta, mira o topo do pop; Kevin Parker anuncia: 'Quero ser Max Martin'

Faz meses desde que Kevin Parker, cantor e compositor do Tame Impala, comprou uma casa colonial com um estúdio caseiro em Hollywood Hills. Mas ele sequer teve tempo de mobiliá-la. Ser a atração principal do Coachella, trabalhar arduamente num tão esperado novo álbum e lotar arenas ao redor do mundo — incluindo duas noites no Madison Square Garden de Nova York em agosto — vem "atrapalhando" suas atividades domésticas.

"Desculpe a bagunça", pede desculpas à repórter Tatina Cirisano, da "Billboard", quando a recebe para uma entrevista no novo lar. Ele se casou com Sophie Lawrence, publicitária e diretora de uma empresa de sorvetes no ano passado.

Capa do novo disco do Tame Impala, que sai em fevereiro. Foto: Divulgação
Capa do novo disco do Tame Impala, que sai em fevereiro. Foto: Divulgação

Uma janela aberta na sala de estar se parece com a que estampa a capa de "The Slow Rush", o quarto álbum de estúdio do Tame Impala, que será lançado dia 14 fevereiro pela Interscope. É o primeiro disco de Parker em cinco anos e o ponto culminante de sua lenta progressão ao reconhecimento no mainstream. Primeiro veio o rock pesado de sua estreia em 2010, "Innerspeaker", depois "Lonerism" de 2012, com o hit "Elephant". Em 2015, Parker lançou sua obra-prima: "Currents", um disco pop de textura rica que alcançou o número 4 na Billboard 200 e ganhou uma indicação ao Grammy de melhor álbum de música alternativa. Dele saiu o hit “The Less I Know the Better”, uma de suas músicas mais populares no Spotify.

Nos anos seguintes, o Tame Impala se tornou uma anomalia na indústria da música: uma banda de rock que pode lotar arenas e gerar 1,6 bilhão de streamings, de acordo com a Nielsen Music/MRC Data - tudo sem lançar um novo projeto em meia década.

Se Parker parece viver como uma estrela do rock, ele nunca se considerou uma. Tímido, introspectivo e propenso ao perfeccionismo, ele escreve, grava, executa, produz e mixa todo o material do Tame Impala por conta própria, geralmente escondido em outro estúdio doméstico nos arredores de Perth, uma remota cidade na Austrália. Sua música alimenta e reflete o isolamento - o verso “There’s a party in my head and no one is invited”, da música "Solitude Is Bliss" é um claro exemplo. Muitas vezes suas letras sintetizam as ansiedades universais da vida e do amor na era digital melhor do que a maioria das estrelas pop confessionais.

No entanto, no momento em que Parker parecia alcançar seu auge com "Currents", ele decidiu que precisava de uma pausa de si mesmo. Ao contrário da crença de muitos fãs, Tame Impala é apenas Parker, não uma banda, embora ele se apresente ao vivo com um grupo de amigos de infância. “Sou eu o tempo todo”, confirma. Nos cinco anos seguintes, Parker tratou de expandir seu círculo criativo. Graças ao álbum, ele foi de herói indie chapado a um reverenciado compositor e produtor. De repente, seu empresário e sua gravadora começaram a receber ligações de artistas que queriam fazer parcerias.

Travis Scott, um fã do Tame Impala e outro entusiasta de guitarras distorcidas, convocou Parker para co-escrever e produzir "Skeletons" em seu álbum de 2018, "Astroworld". No mesmo ano, Parker saiu do estúdio com Kanye West com uma parceria em "Violent Crimes", faixa de "Ye".

“Kevin pode fazer qualquer coisa”, diz o produtor Mark Ronson, que convidou Parker em 2015 para participar de seu quarto álbum, "Uptown Special" e, no ano passado, o colocou como parceiro em “Find U Again”, faixa com participação de Camila Cabello no álbum "Late Night Feelings". “Ele tem instintos melódicos incríveis e uma estética incrivelmente legal quando se trata de timbres. Pode ser intimidador colaborar com alguém assim, mas também a opinião dele sobre as coisas é tão única que eu nunca quero perder uma oportunidade”, elogia Ronson. Ele é um dos super fãs de Parker, um grupo que inclui desde o cantor ZHU e o rapper Theophilus London até Lady Gaga e Rihanna, que fez uma cover de “New Person, Same Old Mistakes” no álbum "ANTI", de 2016.

Mark Ronson com Kevin: 'ele tem instintos melódicos incríveis'. Foto: Getty Images
Mark Ronson com Kevin: 'ele tem instintos melódicos incríveis'. Foto: Getty Images

"Espero um dia poder fazer o que faço sozinho em uma sala cheia de pessoas. Esse é meu objetivo final", diz Parker. Trabalhando com Cabello e Gaga, ele finalmente conseguiu escrever músicas pop para estrelas pop. "É o yin e o yang do rock psicodélico — escrever uma música pop cativante e açucarada que dura três minutos. "Eu quero ser um Max Martin", diz, referindo-se ao megaprodutor sueco, autor de hits de Katy Perry ("I Kissed a Girl"), Maroon 5 ("One More Night") e The Weeknd ("Can't Feel My Face") e Britney Spears ("Baby, One More Time" — leia a história aqui) entre muitos outros.

A jornada de Parker ao topo da música pop começou nos limites da Terra. Localizada na costa oeste da Austrália, Perth tem uma população de 2 milhões de habitantes, distribuídos por cerca de 6,5 milhões de metros quadrados. Parker descreve o lugar com Los Angeles, mas com mentalidade de uma pequena cidade rural: “Se você não está no caminho de criar uma família e começar e pensar na casa própria aos 20 anos, o que você está fazendo com sua vida? Tem um pouco dessa vibração lá".

Ele encontrou sua tribo na cena musical pequena, mas próspera, de Fremantle, uma cidade mais liberal a uma curta distância. Ele tocava em várias bandas locais, incluindo Pond, Mink Mussel Creek e seu projeto pessoal, The Dee-Dee Dums — que mais tarde se tornou o Tame Impala. Foi em 2006, quando conheceu Jodie Regan, que dirigia uma casa de shows. "Eu sempre pensei que ele parecia um cientista, mais adulto do que os outros caras", diz Regan, 48 anos, que na época tinha pouca experiência como empresária de música. "Mas em Perth não havia chance de alguém da indústria da música estar em um show, para que todos pudessem ver o que funcionava e o que não funcionava", lembra.

Isso mudou um ano depois, quando Glen Goetze, então executivo de A&R da Modular, subsidiária da Universal Music Australia, tropeçou na página do Myspace do Tame Impala. “Era psicodélico, algo que eu realmente gostava - mas a maioria das coisas que eu ouvia tinha 30 anos. Ele era alguém fazendo isso nos dias atuais, o que soava novo e contemporâneo”, lembra Goetze. Ele levou Parker para Sydney para assinar um contrato e, ainda hoje, trabalha como agente do músico.

Mesmo com um contrato com uma grande gravadora, o individualismo de Parker prevaleceu. Ele se recusou a gravar novamente as demos caseiras do EP de estreia auto-intitulado Tame Impala, então a Modular as lançou como estavam, apenas três meses após o contrato, em 2008. Quando Tame Impala abriu para o MGMT em Sydney naquele ano, Parker se recusou a tocar “Desire Be Desire Go”, single do EP, optando por uma “música de 12 minutos”, lembra Regan, e também insistiu em ficar na lateral do palco todo o tempo. "Nós brigávamos com a gravadora e eles acabavam dizendo: 'OK, tudo bem!' Não queríamos ser óbvios. Kevin queria mostrar mais profundidade e criatividade", diz Regan.

Parker saiu da Modular após uma série de ações judiciais. O BMG Rights Management, sua editora, processou a Universal Music Australia em 2015 por supostamente não fazer pagamentos trimestrais de royalties. A Universal também processou o fundador da Modular, Stephen Pavlovic, que depois renunciou e a gravadora acabou se dissolvendo. Regan diz que Parker recuperou seus royalties, embora tenha demorado três anos e às custas de "muitas taxas".

Ele agora está com a Universal e a Interscope nos Estados Unidos e a Universal Music Austrália em outros territórios. Parker sugere que a liberdade que tem na Interscope pode ter algo a ver com o fato de que o orçamento de seu álbum é praticamente "zero". "Honestamente, não consigo pensar no que gastaria. Não gosto de gravar em nenhum lugar que não seja um estúdio doméstico", diz. "Mas e a contratação de pessoal de estúdio?", questiona a repórter. "Eu apenas esperaria até que eles saíssem", responde, brincando.

Kevin diz que o orçamento de seu novo disco é praticamente zero. Foto: Getty Images
Kevin diz que o orçamento de seu novo disco é praticamente zero. Foto: Getty Images

Ainda no primeiro semestre, o Tame Impala começa excursão pela América do Norte. Em abril, faz sua maior turnê em casa, por Austrália e Nova Zelândia, antes de retornar aos Estados Unidos para participar do Bonnaroo Music & Arts Festival, no Tennessee, e o The Governors Ball Music Festival, em Nova York. De acordo com dados da Billboard Boxscore, o Tame Impala faturou US $ 6,5 milhões e vendeu 132.786 ingressos em 18 shows em 2019.

O grupo também atrai fãs em todo o mundo, especialmente na América Latina. O principal mercado de streaming do Tame Impala, logo atrás de Los Angeles, é a Cidade do México — para onde a banda retornará em março para se apresentar no Foro Sol Stadium. Sobre Brasil, país regularmente incluído nas turnês desde 2012: as datas ainda não foram anunciadas, mas os fãs já foram tranquilizados em postagem de outubro passado.

Atualmente, o show ao vivo de Tame Impala é um espetáculo psicodélico completo com lasers, visuais caleidoscópicos e um enorme aparelho de luz giratório. Em seu primeiro concerto no Madison Square Garden, em agosto de 2019, Parker subiu ao palco com uma jaqueta brilhante, um copo vermelho na mão e cumprimentou a multidão com um grito: "Heyyy, o que está acontecendo?!" Então ele começou a tocar "Let It Happen", dessa vez parado no centro do palco.

"The Slow Rush" era para ter sido lançado pouco antes de tocar no Coachella em abril passado, mas três semanas antes, Parker mudou de ideia. "Tudo que eu queria era lançar um álbum e não me importava se não era tão bom. Mas, no fundo do coração, sabia que não estava pronto”, diz ele, que acabou adiando o lançamento. Como uma brincadeira com os fãs, cantou o single “Patience”, que começa com o verso "Has it really been that long?”

Apropriadamente, o tema principal de "The Slow Rush" é o tempo. Há músicas sobre obsessões no passado - Parker se autodenomina "um viciado em nostalgia crônica" — e outras sobre ansiedade no futuro. Em "Posthumous Forgiveness", inclinado ao rock clássico, ele fala do relacionamento complicado com o pai, que morreu em 2009 de câncer de pele.

Pode ser o álbum mais introspectivo até agora, mas também parece ser o mais sonoramente aventureiro. Depois de trabalhar com uma gama tão diversa de artistas, Parker diz que se sentiu encorajado a correr maiores riscos com seu som. "Cheguei a uma bifurcação na estrada onde é tipo: 'Eu volto ou acelero?'", diz ele. Dessa vez, ele acelerou: no lugar dos sintetizadores envolventes de "Currents", o novo álbum está cheio de instrumentação orgânica — piano, flautas e a própria voz de Parker mais proeminente. "Em todos os álbuns que eu fiz me arrependi de ter mixado os vocais tão baixo. Então, eu fiquei tipo, 'Kevin, apenas deixe as pessoas ouvirem sua voz!'", conta.

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