Tarantino e suas trilhas matematicamente pensadas: faltou 'aquela' canção em 'Era Uma Vez em Hollywood'
Na Trilha do LEÃO

Tarantino e suas trilhas matematicamente pensadas: faltou 'aquela' canção em 'Era Uma Vez em Hollywood'

Como numa série, cada nova coluna aqui vem sendo naturalmente influenciada/pautada pela anterior. Na passada, citamos Tarantino, cujas trilhas ficam na memória tanto quanto seus filmes. Nos acostumamos a associar certas cenas de seus trabalhos a uma determinada música. Foi assim, desde o primeiro, “Cães de Aluguel” (“Reservoir Dogs”, 1992), numa cena em que Mr. Blonde (Michael Madsen) tortura um policial ao som da bacana “Stuck In The Middle With You”, do grupo escocês Stealers Wheel. Marcou.

Não sei quanto a vocês. Mas, para mim, nunca mais ouço uma sem pensar na outra. E olha que, esta música, já estava em meu imaginário antes, porque era uma das favoritas de minha mãe da programação da extinta rádio Mundial, nos 70s. Aliás, um bocado de tracks que eram hits na citada rádio carioca, voltaram a minha memória através das trilhas do Taranta. Outra destas, ainda de “Cães…”, também entrou na bacana trilha do primeiro “Guardiões da Galáxia”, a contagiante “Hooked On A Feeling”, do Blue Swede, que abre como se fosse um cântico de alguma tribo afro. Ou intro para o haka.

Nenhum ruído ou som de fundo está à toa em filme do QT. Isso fica ainda mais patente em sua mais recente obra, “Era uma vez... em Hollywood” (“Once upon a time... in Hollywood”), que depois do sucesso nos cinemas — a maior bilheteria da carreira do diretor —, está chegando ao aluguel/streaming. Desde que os personagens de Brad Pitt (Cliff Booth) e Leonardo DiCaprio (Rick Dalton) entram num carro, na cena de abertura, e ligam o rádio, tudo o que é dito, anunciado ou tocado, foi meticulosamente selecionado por Quentin. Tem até uma chamada do Batman da TV!

Por isso, a faixa de abertura, “Treat Her Right”, de Roy Head & The Traits, chega junto com os anúncios da rádio, depois de alguma engenharia maluca do Jerome (o nome do meio de Quentin), para que, ao fim da jornada (que leva quase três horas!), algum tipo de mensagem ou padrão — quase tão importante quanto a trama e as citações do filme em si —, fique indelevelmente gravado na mente do espectador. E o faça querer comprar a trilha, recheada de músicas da época em que se passa a produção: meados dos anos 1960. A mesma do filme da coluna anterior, o imperdível “Ford vs Ferrari”.

Contudo, se “FVF” explorou (bem) mais os hits protopunks do período, Taranta não foi tão a fundo no som psicodélico que marcava mais fortemente o final daquela década. Sobretudo os que formataram aquele momento, o dos hippies e seitas de malucos afins. Como a comandada por Charles Manson, que é um dos panos de fundo do filme em questão. Temos lá algumas faixas da icônica Paul Revere & The Raiders (“Good Thing”, “Hungry”, “Mr. Sun, Mrs. Moon”), que, como mostrada na tela, era uma das favoritas de Sharon Tate (interpretada por Margot Robbie). Mas, dessa vez, nenhuma delas fica tão marcada e conectada a alguma cena, como ficaram outras, em filmes anteriores de QT. Além do Paul Revere, só o Vanilla Fudge é um representante do som psyche-hippie.

De resto, temos o mega hit “Mrs. Robinson” (de Simon & Garfunkel, de “A Primeira Noite de um Homem”) e “Hush”, da fase psicodélica do Deep Purple (que reaparecem na trilha com “Kentucky Woman”), antes destes mergulharem no hard rock. Mas, ficou faltando “aquela” música, sabe? QT não perdeu a mão na seleção. Mas desta vez não foi tão marcante. Aliás, o disco, saiu em vinil (laranja), como o selo original da Columbia Records. Só por isso já vale.

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