'The Wall', do Pink Floyd, é a base do pensamento político de Roger Waters
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'The Wall', do Pink Floyd, é a base do pensamento político de Roger Waters

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Roger Waters, lendário baixista do Pink Floyd, está em turnê pelo Brasil, lotando estádios com sua "Us x Them" por onde passa, espalhando mensagens pacifistas. O que muito de seus fãs não sabem é que “The Wall”, aclamado álbum que encerra a fase clássica de sua ex-banda em 1979, surgiu de um infeliz incidente. Quando encerrava a turnê “In the Flesh”, que divulgava o disco “Animals”, em 1977, Waters envolveu-se em uma briga com um fã. Ao apresentar-se no Estádio Olimpico de Montreal, no Canadá, no dia 6 de julho daquele ano, a banda foi alvo de fogos de artifício que vinham do público e se indispôs com uma parte pequena e barulhenta que pedia músicas e exigia que a banda não saísse do palco. Além de ironizar os fãs e tocar a contragosto, Waters ainda cuspiu num fã que tentou invadir o palco. Refletindo sobre o que havia acontecido, ele percebeu que havia se tornado exatamente o que não queria se tornar — um tirano em frente a uma multidão.

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A reflexão sobre o incidente o levou a fazer uma série de conexões entre um rockstar e um líder populista, que faz exatamente o que o povo quer que faça — não importa se é certo ou errado, agindo basicamente pela paixão e irracionalidade. Para Waters, seus gestos como astro popular eram semelhantes ao de políticos de veia fascista, que destilavam ódio como combustível desta relação. Ali, ele entendeu que o Pink Floyd tinha fanáticos enlouquecidos, que não se importavam com a humanidade da banda ou dos outros fãs. 

Assim ele criava o conceito de 'The Wall', uma ópera rock sobre a construção deste muro ao redor de si mesmo

Pensou também em como aquele gesto era reflexo de sua dura infância e adolescência — seja do ponto de vista familiar (Waters perdeu o pai que foi lutar na Segunda Guerra Mundial contra Adolf Hitler) e social (ao enxergar nos professores da escola pública britânica, que nos anos 1950 ainda podiam castigar fisicamente os alunos, versões menores de déspotas desta natureza). Assim ele criava o conceito do disco “The Wall”, uma ópera rock sobre a construção de um muro ao redor de si mesmo, chegando num ponto em que a falta de pensamento crítico isola completamente o indivíduo e o transforma, simultaneamente, em um valentão e em um solitário. Ali, o Pink Floyd não era mais uma banda, e sim um indivíduo chamado Pink, que concentrava as dúvidas e anseios de Waters em relação a ele mesmo.

O disco abre com uma faixa chamada “In the Flesh?” fazendo justamente referência àquele gesto ignorante de 1977 e depois passeia por diferentes mudanças de humores e reações, ao falar de traumas familiares (“Mother”, “Don’t Leave Me Now”), da opressão do sistema educacional (“The Happiest Days of Our Lives” e “Another Brick in the Wall, part. 2”) , de depressão (“Hey You”), da apatia em relação à vida (“Comfortably Numb”) e da sensação de solidão (“Nobody Home”). Nas poucas apresentações ao vivo, a banda lidava com um elemento cênico inédito, construindo uma parede — o muro do título do disco — entre os músicos e a plateia, fazendo parte do show sem que ninguém conseguisse vê-los tocar. No final, o muro era derrubado.

“The Wall” foi o último disco do Pink Floyd com a formação clássica, causando tensões entre os integrantes que culminaram no fim da banda. Um derradeiro trabalho - “The Final Cut”, de 1983 - ainda foi lançado antes do fim oficial, com todas as músicas compostas por Waters e sem a participação do tecladista Rick Wright. Waters saiu da banda e o guitarrista David Gilmour continuou usando o nome do grupo ao lado de Wright e do baterista Nick Mason, depois de várias disputas jurídicas.

Isso não impediu de Waters seguir tocando músicas do Pink Floyd em sua carreira solo — e levando sua abordagem política usando “The Wall” como sua principal bandeira e causa. Foi com o show deste disco que Waters comemorou a queda do Muro de Berlim na própria Alemanha e com isso também vem fazendo campanha para que músicos não se apresentem em Israel, ao dizer que o governo daquele país promove um apartheid contra os palestinos. 

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