Thom Yorke: a voz do Radiohead e o último herói do rock n' roll
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Thom Yorke: a voz do Radiohead e o último herói do rock n' roll

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Se nesse início de século 21º e 3º milênio o rock n’ roll e seu espírito respiram por aparelhos, minguando em seu desempenho comercial e crítico enquanto vemos a paixão pelos meios tecnológicos e plataformas tomar o espaço de interesse dos próprios conteúdos que disseminam – hoje em dia gostamos mais de apps e gadgets do que das músicas que ouvimos neles - há um nome que resiste como o último herói do gênero. Um verdadeiro gênio ainda em plena atividade que pertence ao seleto grupo de grandes compositores, cantores e até mesmo pensadores que formaram o rock no passado e que ao completar 50 anos esse mês permanece não só relevante como à frente da mais importante banda em atividade no mundo: Thomas Edward Yorke, vulgo Thom Yorke, vocalista da banda inglesa Radiohead.

Na segunda metade dos anos 1990, Thom Yorke e sua banda anunciaram o gélido apocalipse tecnológico que estava por vir com o celebrado Ok Computer (o último grande disco de verdade?), e no elevador virtual que nos levava para o inferno digital em que hoje vivemos, era a sua voz cantando que anunciava os andares cada vez mais profundos aos quais descíamos. Se o Nirvana gritou a desilusão desértica e cínica do fim das utopias do início dos anos 1990, o Radiohead encarou justamente a distopia computadorizada que se anunciava quando Kurt Cobain deu cabo à própria vida com um cano na cabeça. A revolução não será transmitida via streaming, e a redenção não será digital. É isso que você recebe quando mexe conosco.

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O fato de um dos últimos grandes nomes do rock (já que Michael Stipe aposentou o REM e pendurou o microfone, e de que nomes como Dylan e McCartney estão além desse tipo de dilema crítico) estar fazendo 50 anos quer dizer muita coisa e ao mesmo tempo não importa nada: sim, por um lado o rock ficou velho, ainda não soube se reencontrar e se redefinir nesse novo milênio. Por outro, desde seu surgimento que anunciamos feito mórbidos tarados a morte do rock, e Yorke segue cantando, se balançando e defendendo a pungência e a contundência de sua banda como um jovem lançando um disco de estreia. E não me venham com o papo de que o Radiohead se tornou uma banda eletrônica (o que é parcialmente verdade) nem de que sua estética tão cerebral o afasta da visceralidade que seria essencial ao rock enquanto gênero: quem já foi a uma apresentação da banda sabe que aquilo é um show de rock – um grande show de rock. 

Pois se de fato o Radiohead segue um tanto a tradição intelectualizada, racionalista e em parte fria de bandas como o Kraftwerk e o Talking Heads, é no palco que Thom Yorke se transforma no animal que de fato é. Sob os holofotes e o calor dos shows que a amorfa mistura entre música eletrônica e rock alternativo se afirma visceral através não só da qualidade conjunta de uma das melhores bandas ao vivo da história, como também da violência sônica das guitarras de Johnny Greenwood e Ed O’Brien - além, é claro, dos agudos perfurantes e da doçura mortal da voz e do bailar incorporado e diabólico de Yorke. Discos como In Rainbows, Kid A, Hail To The Thief, The Bends e Amnesiac garantem o espaço cativo do Radiohead entre as maiores bandas da história e nos lembram que sim, com coragem, inteligência, criatividade, vísceras e cabeça – com o corpo inteiro – é possível seguir criando música (arte) efetivamente interessante, nova, conectada a seu tempo, sem concessões.    

É verdade que os últimos dois discos – o estranho e interessante King of Limbs e o bonito e frágil A Moon Shaped Pool –  não estão à altura da discografia pregressa da banda, e nem acendem nossos corações como nos mal acostumamos desde Ok Computer até o In Rainbows (com leves cochiladas eventuais durante o Amnesiac, confessemos). E talvez esse apocalipse diluído em canções um tanto ambientais e climáticas, cheias de ar e respiração em melodias elásticas e derretidas seja mesmo a estética que vá marcar o Radiohead atual – e que, claro, só cito aqui como sendo pontos mais baixos por se tratar de uma discografia tão grandiosa, pois, nos anais de qualquer outra banda, os dois discos seriam luminosos auges. 

Mas não podemos jamais tentar domar a banda que tem Thom Yorke como principal compositor – que por três vezes transformou a realidade musical à sua volta: todo novo disco do Radiohead é também uma possibilidade e oportunidade de revolução dentro do rock, da música eletrônica, do pop. O Radiohead segue nos lembrando o motivo pelo qual, desde meados do século passado, amamos e nos entregamos a cultura pop e ao rock de corpo inteiro, como caminhos tanto viscerais quanto cerebrais para nos reconhecermos em nossas maravilhas e feiuras através da música de nossa banda preferida - e, ao mesmo tempo, para transformarmos a realidade em nossa volta pelo canto, o ritmo, o som. Enquanto tempos sombrios insistirem em se anunciar, a voz de Thom Yorke soará, brilhante e rascante, feito, ao mesmo tempo, o início e o fim. 

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