Tia Ciata foi a verdadeira heroína do nascimento do samba
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Tia Ciata foi a verdadeira heroína do nascimento do samba

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O rock está para os Estados Unidos como o samba está para o Brasil – dois estilos de origem negra, que trazem em seu DNA mais profundo a resistência e afirmação cultural contra um establishment branco e racista. Que migraram de gêneros renegados, perseguidos e até criminalizados para se tornarem símbolos não só da insurgência negra como dessas próprias duas nações. Da mesma forma, ambos foram apropriados e polidos por artistas brancos para se tornarem mais palatáveis às massas e virarem estilos musicais extremamente populares. 

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Há, no entanto, duas personagens ainda mais análogas nessa comparação, que ajudaram a criar, formatar e afirmar ambos os estilos com suas mãos negras. Elas, que muitas vezes permanecem um tanto esquecidas, soterradas pelo racismo, o machismo e as manutenções de poder que carregam e são carregadas pela história oficial: Sister Roseta Tharpe e Tia Ciata. A primeira, muito antes dos ditos fundadores do rock, já empunhava sua guitarra, solava e cantava com a visceralidade, o ritmo e a atitude que marcariam o gênero. A segunda ofereceu seu talento, sua capacidade aglutinadora e sua própria vida e histórias para que o samba nascesse e crescesse no quintal de sua casa. Tia Ciata é a Sister Roseta Tharpe do samba brasileiro. E, para contar a história desse ritmo, é preciso lembrar que ela também foi uma das criadores do estilo que é hoje visto como símbolo nacional do Brasil. 

Hilária Batista de Almeida é um dos pilares mais fundamentais da afirmação cultural brasileira mais importantes em todos os tempos 

Hilária Batista de Almeida nasceu em 1854 na Bahia – mais precisamente em Santo Amaro da Purificação, a mesma cidade onde, quase um século depois, nasceriam Caetano Veloso e Maria Bethânia. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 22, fugindo provavelmente da perseguição policial, em especial contra as mães de santo, no êxodo hoje reconhecido como Diáspora Baiana. No Rio, casou-se, teve 14 filhos, e foi morar na Praça Onze, ponto central da cultura africana na cidade. A região era então conhecida como “Pequena África”, e foi também lá que Hilária se tornou uma mãe de santo respeitada e famosa – foi através do candomblé que foi batizada como Ciata de Oxum. Assim nascia Tia Ciata, dona da casa onde o samba viria a nascer. 

Quando veio para o Rio, Ciata trouxe com ela a comida de sua terra natal – que lhe permitia se sustentar como quituteira, vendendo iguarias típicas – e também o samba de roda do recôncavo baiano. Se casou com João Batista da Silva, e era no seu quintal que aconteciam os melhores pagodes, na época apenas uma festa com música e comida boa. Cuidando para que os quitutes estivessem sempre fartos e saborosos, Tia Ciata entoava os refrães com o talento da grande partideira que era. Frequentavam os pagodes nomes do surgimento do samba, como Sinhô, Pixinguinha, João da Baiana, Hilário Jovino Ferreira e, é claro, Donga – autor de “Pelo Telefone”, oficialmente o primeiro samba registrado, que teria sido composto no quintal de Tia Ciata. 

A cultura negra, o candomblé e consequentemente o samba eram, no entanto, perseguidos pela polícia, mas os pagodes na casa de Ciata eram diferentes: seu status de curandeira a colocava protegida até mesmo entre os policiais – e não é exagero afirmar que, não fosse pelo respeito construído pelas “tias baianas”, especialmente por Tia Ciata, o samba poderia ter sido soterrado pelo perpétuo racismo da perseguição policial e da criminalização da cultura negra. 

Além da proteção santa para as próprias festas, não fosse pela “importação” do samba de roda baiano, o samba carioca – que se tornou o samba “oficial”, especialmente após sua legalização, já nos anos 1930 — possivelmente não existiria. Pesquisadores mais dedicados garantem que, apesar dos poucos registros, a participação de Ciata na concepção do gênero ia além dessa “influência” – ela teria efetivamente ajudado a compor e definir o estilo, até mesmo no caso de Donga e do primeiro samba. Seja como for, o fato é que Hilária Batista de Almeida é um dos pilares mais fundamentais da afirmação cultural brasileira mais importantes em todos os tempos – e contar a história do Brasil, sua cultura e sua população majoritariamente negra é também contar sua história. 

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