Tipo Importação: A fortíssima cena hip-hop de Portugal
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Tipo Importação: A fortíssima cena hip-hop de Portugal

Já faz algum tempo que o hip-hop foi abraçado pelo mainstream e que os toca-discos também giram de acordo com as vontades do mercado da música. Em Portugal, o cenário não é diferente: o gênero se afirmou como o som das massas e novos rappers locais, como Slow J, Wet Bed Gang e Holly Hood, atingiram milhões de visualizações — popularidade inimaginável há três décadas, quando o movimento começou em algum lugar entre Chelas e Miratejo. Naquelas comunidades suburbanas situadas nas franjas de Lisboa, o rap era apenas uma forma de contestação política contra a desigualdade e o racismo.

“Essencialmente o papel do hip-hop como movimento é o de manter o seu registo contra-cultural”, afirma o veterano rapper Valete, um dos maiores críticos à apropriação do gênero pelo mercado, em entrevista ao Reverb. “Como movimento artístico, o hip-hop propõe o novo, o diferente, o arriscado. Como movimento social o hip-hop propõe a transformação do modelo liberal vigente para um modelo mais humanista”.

O hip-hop tuga (ou “ip-op”, como se pronuncia por lá) conquistou popularidade graças ao trabalho de pioneiros, como General D, Mind Da Gap, LNM e Boss Ac, que também viam o movimento como uma causa a ser defendida. E assim como no Brasil e nos Estados Unidos, a herança luso-africana foi fundamental para que o movimento tomasse forma e se definisse esteticamente. A influência dos filhos e netos de imigrantes de Cabo-Verde e outras ex-colônias portuguesas impactou muito no estilo. “Rabola Bô Corpo”, sucesso composto por MCs cabo-verdianos, foi o primeiro rap da história gravado no idioma crioulo.

O disco “Rapública”, que contém “Rabola Bô Corpo”, foi lançado às pressas pela Sony em 1994. O álbum é visto como o “nascimento fonográfico” do gênero em Portugal. A coletânea continha também aquele que é visto como o primeiro hit de grandes proporções do hip-hop tuga: “Nadar”, do Black Company. Os versos do grupo lisboeta converteram-se no hino daquele verão e transformaram a expressão “não sabe nadar” em gíria entre a juventude. A partir daquele momento, muita gente percebeu que fazer rap na língua (e sotaque) de Camões não só era possível, como também era necessário.

Valete faz parte da geração que levou adiante a bandeira dos pioneiros. Seu primeiro trabalho, “Educação Visual” saiu de forma independente em 2002. O álbum seguinte, “Serviço Público”, foi lançado quatro anos depois. Desde então, seu retorno aos estúdios vinha sendo aguardado de forma entusiasmada pelos fãs (em uma comparação brasileira, o retorno de Valete gera tanta expectativa quanto o primeiro disco de estúdio de Marechal). Em 2017, após 11 anos de hiato, ele finalmente lançou os singles "Poder" e "Rap Consciente". Os vídeos saciaram parte da saudade dos fãs e geraram milhões de visualizações.

“Nesta altura, estou a fazer dois álbuns”, explica o artista. “O meu terceiro álbum, que as pessoas já esperam há muito tempo, e um projeto que eu chamo de álbum em movimento. É um projeto que reúne os quatro temas que lancei nestes últimos tempos: ‘Poder’, ‘Rap Consciente’, ‘Samuel Mira’ e ‘1º MC Português’. Ele não terá cópias físicas e vai reunir as músicas que têm um caráter mais urgente. Ainda não sei quando sairá o álbum oficial, mas o álbum em movimento vai me manter sempre presente.


Também no ano passado, Valete participou de um projeto que uniu diferentes matrizes do hip-hop de Portugal e do Brasil em torno da língua portuguesa. Ao lado da rapper Capicua, que representa a escola do Porto, ele gravou o disco “Língua Franca” com Emicida e Rael.

“Foi muito bom. No fundo eles têm a mesma escola que eu. Foram também educados com um rap mais progressista”, avalia.

Outra dedicada porta-bandeira do hip-hop de Portugal, Capicua também foi convidada para participar de uma apresentação em homenagem às três décadas do movimento. Realizado em 2017, o show “A história do hip-hop tuga” reuniu dezenas de pesos-pesados do gênero, como Sam the Kid, Dealema e Mind da Gap, além de novatos promissores, Bispo e Dengaz.

A própria Capicua escreveu uma crítica do espetáculo, e mostrou-se confiante quanto ao futuro do hip-hop em terras portuguesas: “E já no final, quando entraram os rappers mais novos, foi claro que tudo tinha valido a pena, e que a vitalidade do hip-hop nacional não está só na história de que tanto nos orgulhamos, mas sobretudo na faísca nos olhos dos putos, na sua fome de microfone, e no espírito de auto superação que (n)os move a todos, individual e coletivamente”.

* Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês de estreia do Reverb, apresentaremos ritmos e grupos de Portugal.

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