Tipo Importação: Cena do rap é forte no Marrocos — e as mulheres têm tudo a ver com isso
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Tipo Importação: Cena do rap é forte no Marrocos — e as mulheres têm tudo a ver com isso

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O rap não é exatamente uma novidade no Marrocos: já nos anos 1980, a banda Darkheads levou o estilo para o país e fez o maior sucesso, mesmo tendo uma pegada americana bem forte. Hoje, os rappers marroquinos trabalham com muito mais liberdade para combinar as batidas da música com a língua árabe e com as influências culturais do país.

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A liberdade da amarra do idioma inglês veio no Festival Tremplin/L’Boulevard, que, apesar de ser dedicado ao rock pesado, abriu espaço para competições de rap no começo dos anos 2000. A única condição era que as letras fossem inéditas e em árabe. Estava feita a mudança no movimento, e H-Kayne, Si Simo e El Haqed despontaram como os principais nomes da cena. 

H-Kayne: fazer música com eles é o sonho de qualquer artista marroquino / Foto: Divulgação
H-Kayne: fazer música com eles é o sonho de qualquer artista marroquino / Foto: Divulgação

A H-Kayne é A banda de rap do Marrocos — ser “feat.” em suas músicas é o sonho de qualquer artista que queira ser pop por lá. Eles se dão o luxo de misturar francês e árabe nas letras das músicas, têm estrutura para realizar superproduções nos clipes e nos palcos dos shows, que atraem milhares de pessoas para estádios marroquinos. Sua temática é mais leve, mais dia a dia. Fique aqui com o hit mais recente deles:

Já Si Simo, que no RG se chama Mohammed Hoummas, aborda mais a questão social em suas letras. Em “Kilimini”, um de seus maiores sucessos, canta: “Eles comem croissant no café da manhã enquanto mergulhamos pão em óleo. Eles jantam churrasco enquanto lutamos por um punhado de carne como vermes”. À “CNN”, declarou que, enquanto olhasse ao redor e visse desigualdade, escreveria dessa forma. E que esperava que o mundo enxergasse a desigualdade que existe no Marrocos. 

Si Simo fala de questões sociais em suas letras / Foto: Reprodução
Si Simo fala de questões sociais em suas letras / Foto: Reprodução

El Haqed, por sua vez, é o rapper brabo do Marrocos — esse pseudônimo adotado por Mouad Belghouat significa “o raivoso”, em árabe. Ele grita contra tudo e contra todos, e por causa disso chegou a ser preso em 2012. É que sua música “Kilaab Addawla” chamava os agentes da segurança nacional marroquina de “cães do Estado”, entre outras ofensas, e isso não foi muito bem aceito pelo governo. 

Hoje, mesmo vivendo exilado na Bélgica e com o novo nome L7A9D, ainda é atuante no rap de seu país natal. Mas parece que não tem muita intenção de voltar a morar lá: no clipe de “Raka Taka”, lançado no ano passado, aparece ateando fogo a seu passaporte marroquino e dizendo: “Por que acusam um homem de conspiração e o jogam de uma prisão para outra?”. Dê uma olhada:

Mulheres dão um novo gás ao rap do Marrocos

Na edição de 2008 do Festival Tremplin/L’Boulevard, para espanto de todos, surgiu um grupo feminino de rap na competição. Tratava-se do trio Tigresse Flow, formado por Miss ND, Soultana e Miss Wiba. Cantando contra o patriarcado, as três competiram de igual para igual com os homens e chamaram tanto a atenção que acabaram levando o prêmio do ano. O grande hit delas foi “Maghribiya”, que significa “garota marroquina” em árabe.

Soultana fez parte do trio Tigresse Flow / Foto: Divulgação
Soultana fez parte do trio Tigresse Flow / Foto: Divulgação

O sucesso delas foi enorme e maravilhoso, pois abriu as portas para muitas outras mulheres entrarem na cena rapper do Marrocos, mas os egos cresceram e em 2011 o grupo se separou para cada uma seguir sua carreira solo.  

Quem se deu melhor foi Soultana, que conseguiu alavancar uma carreira internacional. E, como conquistou mais espaço que as ex-parceiras, é aclamada até hoje como “a primeira mulher a fazer rap no Marrocos”. “Sawt Nssa”, sua música de maior sucesso, é uma denúncia contra o assédio sexual no país. 

Entre as muitas novas vozes do rap feminino do Marrocos, a que mais se destaca atualmente é a de Tania Chanel, que artisticamente atende apenas por Chanel. A surpresa aqui é que ela é marroquina e também espanhola, e os dois países “disputam” a nacionalidade da rapper de 18 anos. Seu estilo é o trap e suas letras, em espanhol. “Te Invito a Soñar” é seu grande hit, por enquanto. 

Rapper Chanel tem dupla nacionalidade: ela é marroquina e espanhola / Foto: Reprodução
Rapper Chanel tem dupla nacionalidade: ela é marroquina e espanhola / Foto: Reprodução

É muito distante do rap focado na consciência social, mas Chanel está bem tranquila com a forma como se expressa: já declarou que sua resistência ao patriarcado se dá ao mostrar a independência financeira e ao exibir o corpo sem medo do que vão pensar. E é o que está fazendo a cabeça do público mais jovem por lá. Ao que tudo indica, abre-se um novo caminho para o rap no Marrocos. 

 *Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês apresentaremos ritmos e artistas do Marrocos. 

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