Tipo Importação: Fado Bicha tira do armário o tradicional gênero português
Especial

Tipo Importação: Fado Bicha tira do armário o tradicional gênero português

Nome: Fado Bicha

Integrantes: Lila Fadista e João Caçador

Gênero: Fado/Pop

Desde quando: 2017

Tamanho nas redes sociais: 2.875 mil fãs no Facebook / 31.815 plays no YouTube

A mais portuguesa das músicas nasceu transgressora, mas parece ter se esquecido disso com o passar do tempo. A mitologia que envolve a fundação do fado diz que, nos fins do século XIX, uma prostituta do bairro operário da Mouraria foi a primeira grande estrela do estilo. Descendente de ciganos e de pescadores, Maria Severa derrubou preconceitos de classe e de gênero com uma voz que seduziu os lisboetas. Mais de 170 anos após a morte da pioneira diva lusa, uma dupla de fadistas também se viu obrigada a lutar contra a discriminação, o silenciamento e a invisibilidade para ser ouvida.

O Fado Bicha surgiu para dar “existência poética” à comunidade Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo (LGBTI) através da performance de Lila Fadista e da guitarra elétrica João Caçador. Como toda novidade, a banda causou arrepios nos tradicionalistas:

“O que começa por irritar e causar repulsa é logo o nome: Fado Bicha”, diz Lila, em entrevista ao Reverb. “Eu adoro a palavra 'bicha'! Em Portugal, assim como no Brasil, é originalmente um insulto homofóbico dirigido particularmente aos homens homossexuais femininos e aos travestis. É uma palavra com a qual eu me identifico pelo caráter de subversão que tem. Põe a nu a misoginia que subjaz a grande parte da homofobia: a ideia de que um homem rebaixar-se à condição feminina é uma ofensa à masculinidade como valor normativo da sociedade e, logo, a maior das vergonhas”.

Adoro a palavra 'bicha'! Eu me identifico pelo caráter de subversão que ela tem. Põe a nu a misoginia que subjaz a grande parte da homofobia: a ideia de que um homem rebaixar-se à condição feminina é uma ofensa à masculinidade e, logo, a maior das vergonhas

A dupla tirou o fado do armário. Primeiro, com adaptações das letras de sucessos antigos. O clássico “Namorico da Rita”, imortalizado na voz de Amália Rodrigues, virou “Namorico do André” , por exemplo. “Nem às Paredes Confesso” foi transmutada em “Crônica de um macho discreto”. E assim por diante. Depois, a dupla foi buscar composições assinadas por homossexuais, naquilo que chamam de “arqueologia LGBTI” do fado. Eles explicam que a comunidade contribuiu com o estilo musical desde seu início. No entanto, essa identidades foram sendo apagadas e camufladas ao longo do tempo.

“Nós pegamos em dois fados, cujas letras foram escritas por dois poetas portugueses do século XX, dois homens homossexuais, Pedro Homem de Mello e Ary dos Santos”, explica Lila. “Estes fados (“Rapaz da Camisola Verde” e “Meu Limão de Amargura”) têm uma leitura gay muito clara que, por terem tido, desde o início, uma reprodução normativa, foi escamoteada, de certa forma branqueada. Nós queremos resgatar essas histórias subterrâneas e até musicar outros poetas queer da nossa literatura, como Judite Teixeira e António Botto”.

Como bons fadistas, Lila e João se conheceram em uma tasca encarapitada numa ladeira de Alfama. Historicamente, a vizinhança abrigou centenas de músicos que contribuíram para a construção do fado como música nacional portuguesa. Em março de 2017, Tiago Lila soube que o bar Favela LX tinha reservado espaço em sua programação para apresentações de drags e decidiu que ia cantar fado. Nascia Lila Fadista. João foi assistir a uma de suas apresentações e foi convencido a embarcar no projeto.

Embora já tenha causado cizânia entre os fadistas, a dupla parece estar ainda no início de uma frutífera caminhada. Sem ter sequer um EP ou um clipe lançados, já participaram de programas de TV e receberam uma calorosa acolhida da comunidade LGBTI de Portugal. Até para o primeiro-ministro António Costa já cantaram. Para João, a receptividade por ser um sinal de que, lentamente, as coisas estão começando a se transformar na sociedade portuguesa.

“Aquilo que nós sentimos é que existia uma grande vontade de muitas pessoas sentirem-se representadas. Existem muitos assuntos que em Portugal ainda são pouco abordados na arte em geral, como as questões LGBTI, o racismo, as questões de gênero, etc… E as pessoas estão fartas que se fale sempre do mesmo”.

* Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês de estreia do Reverb, apresentaremos ritmos e grupos de Portugal.

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