Tipo Importação: na Coreia do Sul, o hip-hop é a resistência de raiz ao k-pop
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Tipo Importação: na Coreia do Sul, o hip-hop é a resistência de raiz ao k-pop

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O hip-hop já tinha mais de uma década nos EUA e era conhecido na maior parte do mundo ocidental quando encontrou uma brecha para entrar na Coreia do Sul. Depois de 16 anos da ditadura militar de Park Chung-hee, que entre 1963 e 1979 censurou toda expressão artística e cultural que viesse de outros países, foi só a partir dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, que os sul-coreanos conseguiram saber o que era hip-hop e rap. E foi amor à primeira vista.

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Quem tinha voltado a fazer rock depois da ditadura deu o pontapé inicial: o registro dos primeiros elementos de hip-hop em uma música de sucesso na Coreia do Sul foi com “Kim Sat-gat”, de Hong Seo-beom, em 1989. Dá o play:

Mas Hong nunca deixou de ser um roqueiro. Em 1990 surgiu o primeiro artista declaradamente de hip-hop do país: Hyun Jin-young. Seu álbum de estreia, “New Dance”, é considerado o marco zero do estilo musical por lá. Todo galã, ele conquistou um público fiel e barulhento imediatamente.

Enquanto outros artistas se arriscavam no gênero pelo país, ninguém imaginava que uma banda de hip-hop chegaria para mudar os rumos da música pop sul-coreana como um todo. A Seo Taiji and Boys estourou nas paradas locais com “Nan Arayo” e influenciou tanto novos artistas de rua quanto quem estava fazendo pop. O trio esteve na ativa entre 1992 e 1996 e é considerado uma espécie de padrinho involuntário do K-Pop.

Ao ver o K-Pop nascendo com algumas características do hip-hop, os artistas de raiz decidiram fortalecer suas marcas e consolidar um hip-hop sul-coreano “verdadeiro”. Aí já estamos na virada do milênio, e se prontificaram como representantes do hip-hop puro a banda Drunken Tiger e o duo Jinusean.

Método para rimar em sul-coreano

Um problema que dava dor de cabeça aos artistas, embora não afetasse seu sucesso, era a dificuldade para fazer rimas. A estrutura gramatical do idioma coreano impedia que as letras tivessem formas perfeitas como as norte-americanas, então a maioria dos versos não rimava e tudo bem.

Eis que em 2001, do underground do rap local, surgiu Verbal Jint, um artista até então de bastidores. Desde que conheceu o hip-hop, lá no fim dos anos 1980, ele dedicou horas e horas de sua vida ao desenvolvimento de um método de rimas especial para os letristas sul-coreanos. Além de ir direto para as paradas com seu álbum de estreia, “Modern Rhymes”, conquistou a admiração dos colegas, que adotaram o método e elevaram o nível das letras.

Hoje, o hip-hop é comum na Coreia do Sul. Toca nas rádios com naturalidade, sem grandes revoluções, e se tornou foco de reality shows de revelação de talentos como “Show Me the Money” (para bandas) e “Unpretty Rapstar” (exclusivo para mulheres). 

Os nomes mais relevantes são Epik High (que em 2014 chegou ao topo da parada de World Albums da "Billboard" com “Shoebox” e em 2016 se tornou a primeira banda sul-coreana a se apresentar no Coachella), Tymee (considerada “a rapper mais rápida da Coreia”), Keith Ape (que hoje faz mais sucesso internacional do que na Coreia, mas não deixa suas raízes para trás e continua compondo em seu idioma natal) e Jay Park (parte do time do selo Roc Nation, de Jay-Z).

Distância do k-pop, mas não muita

Lá no começo, os artistas de hip-hop de raiz quiseram se distanciar do k-pop, mas hoje em dia eles não são tão rígidos no “combate” ao gênero de maior sucesso da Coreia do Sul. Muitos rappers fazem letras para grupos populares, como Lil Boy para Sistar e San E para Raina. O caso mais emblemático dessa aproximação é a música “I”, de 2015, em que Verbal Jint topou ser o “feat.” de Taeyeon.

Tem espaço para todo mundo e, de quebra, o hip-hop de raiz consegue uma entrada nas playlists dos kpoppers. Todos ganham!     

  * Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês apresentaremos ritmos e artistas da Coreia do Sul

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