Tipo Importação: Nova música colombiana junta ancestralidade e modernidade
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Tipo Importação: Nova música colombiana junta ancestralidade e modernidade

Brasil e Colômbia, os dois países mais populosos da América do Sul, guardam importantes semelhanças em áreas diversas e biodiversas, com natural identificação entre os povos quando em contato com os costumes e a cultura do outro. Ancestralidade na veia. Mas quando relacionamos Colômbia e cultura pop, é provável que nossa memória recente ainda ative apenas a lembrança da vasta cabeleira de Valderrama desfilando nos gramados, dos quadris que não mentem de Shakira requebrando nos palcos e do sotaque paisa-teropolitano de Wagner Moura atuando (e causando) em “Narcos”, da Netflix. Mas é claro que há muito mais para se ver, ouvir e sentir na terra de Gabriel García Márquez — e com selo de qualidade apenas comparável ao seu prestigiado café.

Estamos falando do país da salsa (de origem cubana, mas com forte identidade em Cali), onde Joe Arroyo se mostrava grande expoente nacional do estilo. E estamos falando, sobretudo, do país da cumbia, onde artistas como Alfredo Gutiérrez, o "rei do acordeão" e o grupo La Sonora Dinamita, contribuíram para difundir, a partir dos anos 1960, o estilo e o folclore colombiano em todo o continente. Assim como a diva Totó la Momposina, ao combinar elementos da música e dança negra e indígena ao seu poderoso canto. Não demorou muito para que brotassem subgêneros em outros países, como a cumbia psicodélica — ou "chicha" — peruana, a "cumbia norteña" mexicana, a "cumbia villera" argentina e, claro, a nossa guitarrada de Mestre Vieira, que bebeu de fontes semelhantes aos demais. E falando em fontes, a pioneira e lendária gravadora Discos Fuentes também teve papel fundamental nessa história. Fundada em 1934, e alcunhada por muitos posteriormente como a Motown colombiana, a Discos Fuentes recebeu em seus estúdios grandes nomes de diversos países da América Latina, sejam eles da cumbia, salsa, merengue e outros gêneros; álbuns lançados entre os anos 1960 e 1970.

Em paralelo à explosão da salsa e cumbia no país, o rock colombiano se fez presente com duas bandas pioneiras do estilo no país: Los Speakers, formado em 1963, e Los Flippers, surgido no ano seguinte. Ambos de Bogotá e diretamente influenciados pelo iê-iê-iê dos Beatles. E logo após o lançamento do álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967), também embriagados pela psicodelia presente na obra dos Fab Four. Um fenômeno, aliás, que se alastrou por toda a América Latina, inclusive Brasil, claro, vide Os Mutantes e a Tropicália em geral.

E quase quatro décadas mais tarde, a música folclórica colombiana passa a ser revisitada e atualizada por novas gerações de músicos, DJs e produtores. No início dos anos 1990, a hoje consagrada banda Aterciopelados florescia para a Colômbia e o mundo de forma inovadora, temperando o seu rock urbano e vibrante com a fertilidade do folclore colombiano, abordando em suas letras questões sociais, direitos das mulheres e respeito ao meio ambiente.

Já na segunda metade da mesma década, o grupo Sidestepper, liderado pelo produtor inglês Richard Blair, lançava em 1997 o álbum “Southern Star”, que pode ser visto como marco inaugural de misturas e experimentações da música afro-caribenha com o dancehall, o drum’n’bass e a música eletrônica, algo que veio a se expandir e se consolidar na primeira década do século XXI. A banda Puerto Candelaria, surgida no ano 2000, em Medellín, celebraria a cumbia e outros ritmos originários (como o porro e o chucu chucu) junto ao jazz, ska e rock, igualmente um dos mais importantes e prestigiados grupos de seu país.

Cinco anos mais tarde nascia o Bomba Estéreo, aclamada agrupación de Bogotá, auto-intitulada nueva cumbia colombiana, trazendo uma ousada mescla de cumbia, champeta e ritmos caribenhos com rock, reggae e música eletrônica. Já em 2006 é a vez do coletivo musical (e visual) Systema Solar, de Barranquilla, adicionar salsa e calipso à velha-nova mistura.

Outro projeto de enorme relevância a surgir nos últimos anos foi o supergrupo Ondatrópica, composto por Mario Galeano (Frente Cumbiero e Los Pirañas) e pelo DJ e também produtor inglês, Will Holland, mais conhecido como Quantic. Ondatrópica foi criado em 2012 com a missão de recrutar estrelas colombianas do passado para gravar e excursionar com Galeano e Quantic.

“A ideia é reunir um grupo de músicos da velha guarda com músicos jovens, juntá-los em um estúdio de gravação e repensar, retrabalhar o conceito de música tropical colombiana”, comenta Mario Galeano no mini-documentário “Frente Cumbiero y Quantic presentan Ondatrópica” (2012), que apresentava o projeto.

O álbum foi gravado no lendário - e supracitado - estúdio Discos Fuentes, e lançado em julho de 2012, consagrando o resgate e a mistura exitosa do tradicional com o moderno no país. Um cenário riquíssimo, que ainda traz: ChocQuibTown (hip-hop), Monsieur Periné (gypsy swing/jazz), Humberto Pernett (“caribbean raver”), Lido Pimienta (synthpop indígena/afro-colombiano), Alcolirykoz (hip-hop), este trilhando um caminho pavimentado a duras penas pelo pioneiro grupo La Etnnia, entre os anos 1980 e 1990; e muitos outros. Rompendo barreiras e se apresentando em turnês e festivais pelo mundo.

Apesar de também inspirar-se nos ritmos autóctones de seu país, Los Rolling Ruanas, um dos mais novos grupos a despontar no cenário musical da Colômbia, não possui como fontes a cumbia ou salsa, mas sim a carranga, música originária dos Andes colombianos, nos anos 1970.

“A banda nasceu da espontaneidade. Cada um de seus integrantes encontrou através de sua história uma relação com a tradição, com a ancestralidade, com o rock, com os Beatles, com Velosa (Jorge Velosa, cantautor colombiano e um dos criadores da carranga), com as vacas, as pastagens, guitarras, vozes e canções”, assinala o vocalista Juan Diego Moreno, que também toca guacharaca (instrumento de percussão) no grupo.

Igualmente fora do radar da explosão da música tropical colombiana, o grupo Diamante Electrico, formado em 2012 — e vencedor do Grammy Latino de melhor álbum de rock em 2015 e 2017 —, vem se consolidando como forte nome do novo rock alternativo de seu país. Juan Galeano, vocalista e baixista da banda, enxerga o cenário atual de forma positiva, se comparado a um passado não muito distante – e socialmente traumático para o país.

“Acredito que novos espaços para a música alternativa foram abertos por aqui. Colômbia é um país que esteve em guerra por muitos anos (referindo-se ao narcotráfico e aos cartéis de drogas) e por isso não havia muito interesse das pessoas em cultura, ou mesmo qualquer coisa que lhes obrigasse a pensar um pouco. Agora estamos em outro momento e sinto que evoluímos, inclusive exportando muitos talentos”.

Juan também exalta o boom da nova cumbia colombiana. “Nós (da banda) gostamos muito! Los Pirañas, Ghetto Kumbe, Carmelo Torres, Systema Solar, Ondatrópica, são bandas de altíssimo nível e que representam muito bem a regresso das músicas tradicionais a Bogotá, e como elas foram transformadas por essa nova geração”.

Qualquer tipo de música emergente com uma boa identidade e um bom canal de comunicação conseguirá fazer parte de seu respectivo nicho, tanto na Colômbia quanto em nível internacional

Perguntado se existe — em detrimento do rock — um excesso na divulgação apenas de artistas cuja proposta seja a mistura de ritmos regionais com música eletrônica, Juan Galeano responde que “a música urbana comercial tem, sim, eclipsado muitas coisas, e com isso, o espaço para outros estilos se fecha. Mas ao mesmo tempo o underground segue sendo muito relevante. Seguiremos aqui, sem alarde, com menos apoio da mídia de massa — como a rádio —, mas alcançando nossos objetivos através da música.”

Sobre o mesmo tema, o vocalista de Los Rolling Ruanas opina que “as novas expressões da cumbia são uma plataforma de comunicação e difusão cultural de nossas músicas. O ‘beat’ natural desses gêneros provoca uma explosão de sons capazes de fazer multidões inteiras dançarem. E existem estilos que, pelo contrário, buscam relacionar-se com sua audiência através de outros elementos, como textos, harmonias, texturas musicais. Todos elementos igualmente válidos, que cativam o público através de outra perspectiva, sem a necessidade de ‘mexer a cadeira’.”

“Qualquer tipo de música emergente com uma boa identidade e um bom canal de comunicação conseguirá fazer parte de seu respectivo nicho, tanto na Colômbia quanto em nível internacional”, complementa Juan Diego Moreno.

E na chamada música popular colombiana, além de Shakira e Maluma, nomes como Carlos Vives e Yolanda Rayo são tidos como ícones, não só da salsa e do pop, como das telenovelas, atuando e compondo temas para as mesmas. Yolanda Rayo, inclusive, compôs o tema de abertura de “Betty, a Feia”, a mais exitosa novela da história daquele país, retransmitida em mais de cem países, entre eles o Brasil.

Um dos grandes nomes do reggaeton na atualidade é J Balvin, responsável, entre outros feitos, por destronar em agosto de 2017 o megahit “Despacito”, do porto-riquenho Luis Fonsi, preterido do topo da lista do Spotify por “Mi gente”. E J Balvin também lançou no final do ano passado a música e vídeo de “Downtown”, em parceria com Anitta, ultrapassando 300 milhões de visualizações no YouTube.

Em entrevista para o jornal “El Espectador” no último dia 16 de setembro, o diretor de sincronização da Warner/Chappell Music Colombia, Daniel Mora, conta que “o país vive um momento incrível musicalmente falando. Somos os maiores exportadores de música da América Latina. (...) As expectativas de toda a região estão postas sobre a Colômbia e isso gera muita responsabilidade. Contudo, estamos progredindo muito com os 48 artistas colombianos que temos”, conclui o diretor da Warner.

E o Bomba Estéreo, da concorrente Sony Music, fará show único de sua “Jungla Tour” no próximo dia 30 de novembro, em São Paulo, na Áudio Club. ¡Imperdible!

* Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês apresentaremos ritmos e grupos da Colômbia.

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