Tipo Importação o lado mais Pacífico da música da Colômbia
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Tipo Importação o lado mais Pacífico da música da Colômbia

Um país, dois oceanos. A Colômbia é banhada pelo Atlântico e pelo Pacífico que desaguam em abundância de recursos naturais, passando por uma rica gastronomia, até chegar na herança indígena e africana. À oeste, o exuberante Pacífico colombiano, caracterizado tanto por praias de areia escura quanto por doces demanjar blanco.E, aproveitando o ensejo, vamos saborear no Tipo Importação um pouco dos melhores manjares musicais afro-colombianos. Essa é uma região de danças e ritmos edulcorados, sejam abozao e chirimía (Pacífico Norte), ou currulao, bunde e salsa (Pacífico Sul); alguns desses ritmos são acrescidos de jazz, R&B, hip-hop e outras expressões musicais.

Em Cali, por exemplo, se impõe a salsa colombiana, ou salsa caleña, fortemente influenciada pela cumbia local, que lhe dá tempero próprio nos passos e acrobacias durante o baile. O epíteto de “Capital Mundial da Salsa” nasceu nos anos 1980, após décadas bailando e absorvendo grandes nomes cubanos e porto-riquenhos do estilo. E um dos grandes nomes a surgir em Cali nesse período foi o Grupo Niche, na ativa desde 1978, liderado pelo multi-instrumentista Jairo Varela Martínez (até 2002) e pelo compositor e produtor Alexis Lozano (que deixou o grupo ainda em 1983 para formar a Guayacán Orquesta).

“Jairo e eu nos conhecemos em Bogotá (...) e logo começamos a elaborar a ideia de um grupo de salsa com um sabor e um som nosso, dos chocoanos (nascidos em Chocó, departamento do Pacífico Sul)”, contou Alexis sobre o surgimento do Niche, em entrevista em 2014. “Até porque os negros de Chocó e do Pacífico nos anos 1970 não tinham sequer um craque de futebol ou cantor brilhante em quem se inspirar e imitar, ou ao menos uma orquestra que os representasse. E por isso o nome Grupo Niche foi muito bem escolhido, porque nós representávamos o niche, que significa negro, que era o povo marginalizado de Chocó e do Pacífico”.

Além da salsa, o bambuco sonsureño (bambuco sulista), também é resultado de misturas, mas neste caso de várias danças e da miscigenação pós-colonização espanhola. O bambuco sonsureño apresenta forte influência dos ritmos do sul do continente, como a chacarera argentina, a cueca chilena, além de danças e músicas tradicionais de Peru e Bolívia. Segundo o site da produtora e selo independente espanhol Tierra Candela, “mesmo sendo um ritmo alegre, sua expressão melódica é melancólica”. As letras do bambuco sulista “são inspiradas tanto na cotidianidade, paisagem e tradições, quanto na memória coletiva de seu povo”.

Ainda sobre memória, segundo consta no Centro Nacional de Memória Historica, fundação ligada ao governo daquele país, destacam-se os chamados “cantos de Chocó”. E dentre eles, os alabaos, que são cânticos de origem africana que “reúnem uma grande quantidade de pessoas em distintas zonas do pacífico colombiano, com intuito de criar uma ponte entre vivos e mortos”.

Os alabaos (pronúncia local para alabado, que significa louvado), possuem também “cantos de cunho social dedicados à história de seu povo, à violência sofrida pelo conflito armado, ao perdão e à reconciliação”. A tradição, que remonta à época da brutal colonização espanhola, fazia dos velórios rituais de passagem de profundo valor simbólico, onde escravos cantavam festejando enfim a “libertação” do amigo igualmente subjugado. Herança conservada geração pós geração em Chocó, e declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Colômbia em 2014.

Outro patrimônio cultural da região é a cantautora e compositora Zully Murillo. Grande expoente do clã dos Murillo, família de longa tradição musical de Chocó, é considerada uma das figuras mais significativas do folclore do Pacífico colombiano. Sua música também encarna as heranças africana, indígena e europeia presentes no país.

Criado em 1999, o Grupo Folclórico Socavón, de Cauca, é outro que busca conservar e difundir a música tradicional do Pacífico Colombiano. E dos 13 músicos, seis são mulheres cantoras.

La Mojarra Eléctrica, de Bogotá, liderada pelo multi-instrumentista Jacobo Vélez, traz, desde 2001, jazz amalgamado aos ritmos nativos chirimía e currulao; além de funk, fanfarra, rock e hip-hop. Um legítimo salseiro-exaltação das raízes afro-colombianas.

E os nove músicos do grupo La Mambanegra, de Cali, comportam o projeto seguinte do incansável Jacobo Vélez. Autointitulados “colombian break salsa”, são responsáveis por “uma mistura furiosamente energética de salsa com funk e influências caribenhas, junto com R&B, jazz e linhas de teclado”, segundo definição do jornal inglês “The Guardian”, em 2017.

Formado em 2008, o grupo de Esteban Copete y su Kinteto Pacífico põe os mesmos currulao e chirimía para dialogar com jazz, bossa nova e R&B, combinando marimba com sax soprano. Esteban Copete é neto do renomado compositor Petronio Álvarez, considerado um dos maiores expoentes do folclore na região Pacífica. Esteban Copete y su Kinteto Pacífico se apresentaram no Brasil em 2013, no Festival El Mapa de Todos, em Porto Alegre.

Por fim, um dos nomes mais conhecidos e celebrados – nacional e internacionalmente - da nova música colombiana: o trio ChocQuibTown, que harmoniza organicamente a sonoridade moderna e urbana das capitais do mundo com o folclore tradicional do litoral Pacífico. O grupo família, formado pelo casal Goyo (Gloria Emilse Martínez Perea) e Tostao Valencia, além de Slow Mike (Miguel Andrés Martínez Perea, irmão de Goyo), faz questão de explicitar suas origens já no nome da agrupación: Choc vem de Chocó e Quib da capital Quibdó, cidade natal de Tostao e Mike. Um orgulho igualmente estampado no título e nas letras do álbum de estreia, “Somos Pacífico”, de 2007. Outra prova da estreita ligação do grupo com suas raízes é a participação de Zully Murillo no tema “Calentura”, que abre o álbum “Eso Es Lo Que Hay”, de 2011.

São quase duas décadas de banda e oito discos nas costas pacíficas, sendo “Sin Miedo”, de 2018, o mais recente. Além de três indicações ao Grammy Latino, conquistando dois prêmios: melhor canção alternativa (“De Donde Vengo Yo”, 2010) e melhor álbum de fusão tropical (“El mismo”, 2015). ChocQuib Town já se apresentou no Brasil em duas ocasiões, e mais recentemente pode ser ouvido na trilha sonora da novela “O Outro Lado do Paraíso”, da Rede Globo. O tema em questão é”Cuando Te Veo”, cujo vídeo conta com mais de 43 milhões de visualizações no YouTube. É a afro-colombianidade banhada em modernidade para milhares de telas - de lares a celulares.

* Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês apresentaremos ritmos e grupos da Colômbia.

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