Tipo Importação: rock indiano tem tempero local e Beatles na mistura
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Tipo Importação: rock indiano tem tempero local e Beatles na mistura

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Diante de um mercado dominado pela filmi music — as trilhas sonoras dos filmes de Bollywood —, o rock conseguiu uma entrada modesta na Índia, nos anos 1950, por meio de lançamentos de artistas como Elvis Presley. Os LPs atraíam a atenção de um público jovem, mas nada que realmente ameaçasse as composições feitas para o cinema.

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Foi a partir dos anos 1960, no caminho inverso, que o rock despontou para os indianos: quando George Harrison interessou-se pelo som da cítara que havia ouvido em um restaurante em Londres e decidiu colocar aquilo na música dos Beatles de alguma maneira. Saiu em busca do instrumento, encontrou um em uma loja na Oxford Street e o levou ao estúdio para incluir algumas notas em alguma faixa de “Rubber Soul” (1965); a escolhida foi “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)”. 

A paixão do beatle pela sonoridade indiana foi tão arrebatadora que ele sentiu a necessidade de ir à Índia para ter contato pessoalmente com a origem daquilo tudo — decisão reforçada depois de conhecer o músico indiano Ravi Shankar em um jantar nos EUA. Shankar se tornou seu guru espiritual e o orientou nos caminhos da música indiana. 

George nunca mais foi o mesmo, os Beatles também não, e outras bandas, como Rolling Stones e Byrds,  resolveram levar o som da cítara para suas composições. Nascia ali o raga rock: um pop-rock que traz elementos indianos ao centro das composições.

George Harrison ao lado de Ravi Shankar, que toca uma cítara, durante encontro dos dois em Los Angeles / Foto: Getty Images
George Harrison ao lado de Ravi Shankar, que toca uma cítara, durante encontro dos dois em Los Angeles / Foto: Getty Images

A inclusão de sua cultura na música ocidental fez com que muitos músicos jovens da Índia decidissem fazer rock também — afinal, eles não precisavam mais deixar suas origens de lado para serem roqueiros. 

As bandas formadas nesse primeiro momento, entre os anos 1960 e 1970, focavam nas gravações de covers de Beatles e Rolling Stones. Aquelas com trabalho próprio começaram a despontar mesmo nos anos 1980. Conheça as principais de cada década.

Anos 1980: Rock Machine — hoje Indus Creed 

A mais importante foi a Rock Machine, formanda em Mumbai em 1984 e considerada a primeira banda de rock autoral da Índia. Como a distribuição dos discos era precária, foi também quem despertou a atenção para a questão da pirataria no país. A indústria fonográfica estava preocupada com isso, mas os membros da banda nem tanto: eles aproveitaram para checar onde os discos piratas eram apreendidos e deram atenção a essas regiões na maior turnê nacional que a Índia havia visto até então. Aquele lance de ganhar um limão e fazer uma limonada. O som deles era assim:

Em 1993, a Rock Machine teve uma troca de componentes e decidiu trocar o nome para Indus Creed. Fez uma pausa de 1999, voltou em 2010 e está na ativa até hoje. O som atual está um pouco diferente, mas continua fazendo bastante sucesso. Dá uma olhada:

Anos 1990: Euphoria

A chegada da MTV à Índia nos anos 1990 aumentou o leque de influências para as bandas de rock locais. Muitas se voltaram para o metal, outras preferiram ir no caminho do Britpop — principalmente por causa do sucesso de bandas inglesas compostas por descendentes de indianos, como a Cornershop.

Euphoria: nos anos 1990, a música ‘Dhoom Pichuk Dhoom’ foi um marco para a música local / Foto: Divulgação
Euphoria: nos anos 1990, a música ‘Dhoom Pichuk Dhoom’ foi um marco para a música local / Foto: Divulgação

Nesse clima de caldeirão de influências, a banda Euphoria conseguiu finalmente atingir o estrelato. Formada em 1988 e com diversas mudanças de formação ao longo dos anos, nos anos 1990 veio o primeiro contrato com uma gravadora (a Universal) e o lançamento do álbum que trouxe a música que depois seria conhecida como a que quebrou a hegemonia da filmi music como representante da Índia nas TVs do país: “Dhoom Pichuk Dhoom”.  

Em 2000, a banda lançou seu segundo álbum de estúdio e o single de divulgação, “Maaeri”, tornou-se a música “marca registrada” da Euphoria — mais ou menos como “Song 2” é para o Blur. Os caras continuam na ativa e até hoje não lançaram nada que supere esse sucesso. 

Anos 2000: Avial

O nome é de um prato da culinária indiana (uma espécie de ratatouille local) e tem tudo a ver com a proposta da banda: circular por todos os subgêneros do rock possíveis – embora o rock mais pesado domine a produção da Avial.

Cantando em dialetos ou em inglês, a base das letras da Avial são as tradições folclóricas da Índia, especialmente da região sul.  

Anos 2010: The Local Train

Formada em 2008, The Local Train tinha seu pequeno prestígio alternativo, mas nada estrondoso. O pulo do gato veio em 2015, quando a banda foi escolhida por um concurso nacional de talentos como o ato musical mais promissor do país. O primeiro álbum, “Aalas Ka Pedh”, tornou-se o mais ouvido via streaming daquele ano.

Rock do The Local Train tende ao mais calminho, com pitadas indianas aqui, outras ocidentais ali / Foto Divulgação
Rock do The Local Train tende ao mais calminho, com pitadas indianas aqui, outras ocidentais ali / Foto Divulgação

O status de banda grande permitiu um tempo bom para a composição de novas músicas e a produção de um novo álbum. “Vaaqif” foi lançado no começo de 2018 e já ganhou disco de platina. O rock que The Local Train faz tende ao mais calminho, com pitadas indianas aqui, outras ocidentais ali. Passaria por uma banda britânica de origem indiana sem dificuldade. 

*Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês apresentaremos ritmos e artistas da Índia.  

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