Tipo Importação: Saiba mais sobre a cena musical portuguesa
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Tipo Importação: Saiba mais sobre a cena musical portuguesa

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Se você já esteve em Portugal, queridinho atual dos turistas brasileiros, deve ter notado que os lusos são apaixonados pela MPB. Acordes dos violões de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil podem ser ouvidos a qualquer momento, seja como trilha sonora de uma pequena tasca de Alfama ou no rádio de um táxi a caminho de Vila Nova de Gaia. Não é possível, no entanto, dizer o contrário. Apesar de compartilhar o mesmo idioma, o brasileiro médio conhece muito pouco da música produzida do outro lado do Atlântico, e muitas vezes a reduz aos mais gastos clichês do fado ou (pior ainda) às apresentações do Roberto Leal no programa do Gugu. O fato é que estes estereótipos não se aplicam mais faz tempo: o país atravessa uma de suas mais áureas fases de produção musical, e está começando a ser reconhecido internacionalmente por isso. 

OUÇA: A música eletrônica dançante e pensante do DJ Moullinex

LEIA MAIS: Mas, afinal, o que é o Reverb? 

“Vivemos um momento de ouro na música portuguesa”, garante ao Reverb a cantora Ana Bacalhau, vocalista que esteve uma década à frente do grupo Deolinda, um dos mais populares do país. “Temos quantidade e qualidade, temos músicos com visão, inteligência e paixão. Encontramos bandas e artistas incríveis em todos os gêneros e estamos prontos para conquistar o mundo, sem dúvida alguma”.

Vivemos um momento de ouro na música portuguesa. Temos quantidade e qualidade, temos músicos com visão, inteligência e paixão. Estamos prontos para conquistar o mundo, sem dúvida alguma

Deveras, Portugal tem se mostrado capaz de revelar artistas tão diversos como talentosos. Basta lembrar de Moullinex, que ascendeu rapidamente ao circuito da música eletrônica internacional, e da rapper Capicua, que trabalhou com Emicida recentemente. Sem falar em gratas surpresas do pop-rock que já contam com alguns anos de estrada, como os Diabo na Cruz, a banda Linda Martini e o quinteto Capitão Fausto. Na própria música tradicional, também existem exemplos de renovação, como o Fado Bicha, que deu uma roupagem LGBTI ao gênero de Amália Rodrigues.

“Minha grande aposta é a Surma, de Leiria. Se ela fosse islandesa, a ‘Pitchfork’ já teria dado uma capa pra ela. First Breath After Coma e a Peixe Avião, de Braga, também são muito boas”, aponta o pesquisador brasileiro Luiz Alberto Moura, cuja tese de doutorado na Universidade Nova de Lisboa estuda o impacto das gravadoras independentes portuguesas no cenário da música lusa.

É difícil estipular marcos ou demarcar o exato início da afirmação da música portuguesa no cenário pop global, até porque processos deste tipo levam anos até serem concluídos. É possível, no entanto, começar a contar essa história com a vitória de Salvador Sobral no Eurovisão 2017 com a canção “Amar pelos Dois” (que inclusive virou tema de novela no Brasil). A consagração do cantor lisboeta no ultrapopular festival, que anualmente reúne artistas de todo continente em uma acirrada disputa musical, serviu para aumentar o amor próprio de um povo que costuma ser reticente com a viabilidade internacional de sua cultura sonora.

“A vitória mexeu com a autoestima do país, assim como o título da Eurocopa de 2016”, diz Moura. “O português vem vencendo um certo complexo de inferioridade que tinha em relação ao resto da Europa, e é um fato que a música deles está se consolidando no continente”.

O potencial da música portuguesa entrou no radar do mercado europeu. Tanto é que, também no ano passado, o país foi o principal convidado do Eurosonic Noorderslag, híbrido de festival, conferência e feira de negócios que reúne o setor em Groningen, na Holanda. A delegação lusa tinha cerca de cem profissionais e 21 artistas. Uma reportagem do jornal “Observador” notou que a viagem rendeu quase 1 milhão de euros em retorno à economia da área no país. Para uma nação que acaba de se recuperar de uma severa crise, apostar na música pode se mostrar um excelente investimento, tanto artístico como econômico. 

“Esse ‘boom’ das bandas é muito maior do que a música em si, é social”, analisa Moura. “Tem a ver com as pessoas receberem educação musical desde cedo, saberem falar inglês muito bem. Se você está em contato com música desde a infância e fala outra língua, sua cabeça se abre. Com o crescimento da economia, a tendência é que a música cresça junto. O contexto empurra a música para frente”. 

* Tipo Importação é um especial que, todo mês, vai apresentar o melhor da música de países não tão visados pelos brasileiros. Neste mês de estreia do Reverb, apresentaremos ritmos e grupos de Portugal.


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