'Todos Merecem Morrer': a trilha sonora do livro de Clarissa Wolff
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'Todos Merecem Morrer': a trilha sonora do livro de Clarissa Wolff

A jornalista e escritora Clarissa Wolff não gosta de pop, rock, hip-hop ou de música indie somente. Seu gosto musical é maior do que os gêneros isolados. "Eu gosto de músicas tristes", diz. Aos 27 anos, a autora de "Todo Mundo Merece Morrer" (Verus) passeia pelos mais diferentes estilos em busca da melancolia que lhe soa bem aos ouvidos (“Se me deixassem só com a discografia do Leonard Cohen para o resto da minha vida, eu sobreviveria"). Isso fica evidente já no início de sua obra. A autora dedicou uma página inteira do livro para citar cada um dos álbuns que a ajudaram a escrever a história, que discorre sobre moralidade, ódio e compaixão.

"Para mim, os álbuns são parte do resultado final do livro, parte da história, independentemente da escuta, e muito mais que uma homenagem. Eles também trazem a força emocional da própria arte para a história", explica.

Existe uma mágica que só a música é capaz de criar. Quase como uma máquina de teletransporte para dentro de um personagem, de um estado emocional, de um sentimento

"Todo Mundo Merece Morrer" é um livro que pode ser lido em qualquer ordem. Começar do capítulo um ou do cinco, não importa. Todos os caminhos levam às histórias de 12 pessoas que estavam em um trem da linha do metrô durante o ataque de um atirador. O capítulo restante reflete sobre o percurso de vida do assassino. O título da obra não é uma afirmação ou um questionamento. Está aberto para a ponderação do leitor. Cabe a ele decidir: todo mundo merece morrer?

Clarissa tinha como objetivo inicial construir uma playlist para cada capítulo e outra, geral, em que cada música representasse um personagem. A ideia foi adaptada e se transformou na tal lista de álbuns, que reúne intérpretes dos mais diversos gêneros musicais.

“Quando eu conheci o Paul Beatty, autor de 'O Vendido', perguntei se ele ouvia músicas pra escrever, por causa das tantas referências musicais presentes no livro. Ele disse que prefere o silêncio. Eu gosto do silêncio, mas eu gosto da música também. Acho que escrever é quase um transe, e existe uma mágica que só a música é capaz de criar. Quase como uma máquina de teletransporte para dentro de um personagem, de um estado emocional, de um sentimento. Achei justo dar o crédito a uma parte que foi tão essencial no meu processo criativo”, conta Clarissa.

Em entrevista ao Reverb, Clarissa explicou o porquê de ter escolhido cada um dos álbuns para a lista de "Todo Mundo Merece Morrer" e ainda escolheu uma faixa de cada um para representá-los aqui:

‘Ruins’, de Grouper

Música: ‘Clearing’

"Esse disco saiu na época em que eu comecei a escrever e ele tem uma qualidade etérea que parece me fazer flutuar alguns poucos centímetros acima do chão, um estado levemente dissociado da realidade que é perfeito pra escrever".

‘101 Bach’, de Johann Sebastian Bach

Música: ‘Violin Concerto No. 1 in A Minor, BWV 1041’

"Desde sempre escuto muito Bach, é parte da minha vida, transpira paz e transe pra mim. Provavelmente sempre vai aparecer nessas listas — se eu continuar fazendo".

‘My Beautiful Dark Twisted Fantasy’, de Kanye West

Música: ‘Monster’

"Essa uma análise completamente feita em retrospecto, mas esse álbum, como o livro, não é exatamente o que a gente espera a partir do estereótipo de um rapper. A delicadeza de algumas letras, o piano no começo de ‘Runaway’, o carinho distorcido em ‘Blame Game’, acho que é um disco que também te puxa pra dentro e te pega de surpresa".

Yeezus’, de Kanye West

Música: ‘Blood On The Leaves’

"Esse é meu disco favorito do Kanye e é outro que provavelmente vai aparecer sempre que eu fizer essas listas. Ele tem uma energia que ferve, uma raiva quente, que escorre, sabe? Acho que esse casa perfeito com o sentimento da história".

Ultraviolence’, de Lana Del Rey

Música: ‘Cruel World’

"‘Ultraviolence’ não só é meu disco, como minha música favorita da Lana Del Rey, mas essa música é muito mais a essência do próximo livro do que desse. Lana é presente na minha vida como Leonard Cohen ou The National, esse disco foi lançado na época em que escrevia, então é natural que apareça aqui. É estranho pensar em ligações específicas porque nada mais é do que os sentimentos que eu, pessoalmente, tenho ao ouvir".

Songs of Love and Hate’, de Leonard Cohen

Música: ‘Dress Rehearsal Rag’

"Esse é meu disco favorito do Leonard Cohen, que é meu artista favorito, então é audição semanal na minha vida. Essa música não é minha favorita do disco - em geral, não foi esse meu critério nas escolhas - mas é a que, por algum motivo oculto do meu inconsciente, parece a certa".

‘Berlin’, de Lou Reed

Música: ‘How Do You Think It Feels’

"Esse também é meu disco favorito do Lou Reed e presente em muitos momentos. Quando fiz minha última cirurgia, tirei o útero e os ovários por causa de um câncer, esse disco vivia no repeat por dias a fio. Isso aconteceu no segundo e último ano em que trabalhei nesse livro, então ele também foi muito presente. Penso que ele teria tudo a ver com o capítulo da Eva, mas vim a ouvir muito depois de terminar de escrever esse capítulo em especial".

Kind of Blue’, de Miles Davis

Música: ‘So What’

"Todo domingo, eu e meu namorado acordávamos já tarde, com o sol entrando pela janela na nossa quitinete atrás do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Ele então colocava esse disco pra tocar, eu ia cozinhar, e depois do almoço ia escrever. Marcou muito o momento".

The Marble Index’, de Nico

Música: ‘No One Is There’

"Compramos esse vinil da Gaía Passarelli, minha amiga, e ouvi o disco pela primeira vez na vitrola que anos depois vendi pra ela. Foi uma experiência muito desconcertante. Passou na hora a ser um dos meus discos favoritos e o sentimento que tenho quando escuto ainda é ótimo para me colocar na zona mental para escrever".

In Utero’, do Nirvana

Música: ‘Serve the Servants’ ou ‘Rape Me’

"Meu disco favorito do Nirvana, uma das minhas bandas favoritas da vida. Tive um amor tardio por eles, pós-adolescência, muito mais focado na problemática mental do Kurt do que nas músicas raivosas da adolescência hormonal. Entrar na cabeça desses personagens não era a coisa mais fácil do mundo em alguns momentos, e a raiva que o disco me emprestava tinha uma função bem prática".

‘Are We There’, de Sharon Van Etten

Música: ‘Your Love Is Killing Me’

"A Sharon Van Etten canta a tristeza de um jeito muito bonito, e compõe uma imagem muito curiosa com as suas entrevistas gentis e doces. Esse disco tem uma das músicas que para mim é um dos hinos da violência doméstica contra a mulher, “Your Love Is Killing Me”. Apesar de não ter sido um tema que eu trabalhei no livro, a dor que o disco evoca é universal".

‘Goo’, de Sonic Youth

Música: ‘Kool Thing’

"Para lidar com toda a opressão que eu estava escrevendo, precisa de um pouco de resistência, né?"

‘Trouble Will Find Me’, de The National

Música: ‘This Is The Last Time’

"Minha banda favorita. Em 2014, quando comecei a escrever esse livro, fui a um show deles pela primeira vez em Barcelona e foi um daqueles sentimentos canalizados a cada vez que parava para escrever".

‘The Velvet Underground & Nico’, de The Velvet Underground & Nico

Música: ‘I’m Waiting For The Man’

"Sim, foi para o capítulo sobre drogas. Ouvia sem parar. Era perfeito".

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