Tom Jobim está com um pigarro brabo; 25 anos sem o pândego soberano
Inspiração

Tom Jobim está com um pigarro brabo; 25 anos sem o pândego soberano

Há 25 anos, o coração de Tom Jobim parou em Nova York. Foi no final de 1994, ano do tetra com Romário, Bebeto, Dunga, Cafu e Taffarel; ano também do Plano Real, implantado em fevereiro, que interrompeu décadas de inflação nociva e gerou um longo ciclo de crescimento econômico no país. Tom já era um gênio aclamado mundialmente há coisa de três décadas, quando saiu pelo selo Verve “The Composer of ‘Desafinado’ Sings”. Mas passou-se muito tempo até que começassem a pulular pela imprensa brasileira referências a ele como “maestro soberano”, pescando a expressão criada por Chico Buarque na canção “Paratodos” (lançada um ano antes da morte do mais genial compositor da bossa nova).

A reverência do epíteto pode ser justa, justíssima, mas vestia mal o personagem conhecido em todos os lugares, bares e não-bares, que freqüentou. Tom foi, até os últimos dias de seus 67 anos de vida, um gênio acessível, um gentleman que levava a informalidade carioca para além da arrebentação dos mares escoceses — e também da espuma da cervejinha, do remanso do vinho e outros ambientes líquidos que porventura se apresentassem.

Tom Jobim com um certo Francis Albert, em 1967/ Foto: Getty
Tom Jobim com um certo Francis Albert, em 1967/ Foto: Getty

Era um sábio boa praça que estava a um simples telefonema de distância da imprensa para palpitar sobre os mais diversos — e ocasionalmente estapafúrdios — assuntos. Nas redações dos jornais locais, os repórteres sabiam disso e abusavam um pouco do jeito de ser, assim, facinho, daquele sempre espirituoso frasista.

Na última vez que o entrevistei, para o “Jornal do Brasil”, oito meses antes de sua morte, Tom estava terminando as gravações do último álbum, “Antônio Brasileiro”, que tinha participações de Dorival Caymmi (1914-2008), de Sting e da filhota Maria Luiza Jobim, então com seis anos. O encontro foi no velho estúdio da gravadora Som Livre, em Botafogo — por uma enorme coincidência, o mesmo prédio ocupado hoje pela Webedia, proprietária do Reverb, de cuja redação batuco este maltraçado google doc.

Na ocasião, o câncer na bexiga de Tom era um segredo muito bem guardado. Sem poupar a garganta dos amados charutos e do sagrado café, ele lutava também contra um pigarro insistente para terminar a gravação de “Chora Coração”, parceria com Vinicius de Moraes. Lembro de uma discussão com um redator ou subeditor porque, na versão inicial do texto, flexionei o verbo expectorar tendo como sujeito o venerável mestre. A entrevista saiu sem essa. Dá para ler aqui.

Tom já era eterno. Estava sempre ali. Para a minha geração, tinha estado sempre ali, nos ensinando, nos iluminando, nos emocionando e nos divertindo — sim, porque como leciona outro mestre, Ruy Castro, por muito tempo, ele compôs sem compromisso com a eternidade, fazendo música popular (ou pop, dependendo dos pendores anglicistas do freguês) movida a inspiração e contas a pagar no fim do mês. Não necessariamente em ordem alguma.

Não era um caso de “Frank Sinatra has a cold” ("Frank Sinatra está resfriado"), aquele texto clássico do Gay Talese, suprassumo do new journalism. A matéria fechava no dia seguinte, e ainda tinha uma entrevista por telefone com o Sting para fazer pela manhã e entrar na mesma edição. O fato é que o grande Tom Jobim estava rouco naquela noite de março. Expectorou, pigarreou, fez ruídos pouco associáveis a um “maestro soberano”. E, afinal, mandou um take perfeito dos versos de Vinicius: “Quando o dia está bonito/ Ainda a gente se distrai/ Mas que triste de repente/ Quando o véu da noite cai”.

Antes de acertar o vocal no ângulo, o maestro mandou uma das pérolas que soltava cotidianamente: “Eu sou o homem mais humilde do mundo. Sem falsa modéstia”. Depois do gol, arrematou: “A falsa modéstia sempre ajuda”. O filho Paulo Jobim, produtor do disco, propôs que ele emendasse gravando outra, “Forever Green”. A resposta foi manhosa: “Mas eu tô rouco, Paulinho… Num dia sem gelo vou cantar muito melhor. Amanhã vou tomar o dobro do uísque. Sem gelo”.

Ao fim da entrevista, ele deu mostra de outro tipo de humor, doce-amargo. “Antigamente eu era um rapaz magrinho, o telefone quase não tocava, aquela luta com o aluguel… Agora o barco está grande, tenho netos, sustento cinco mil pobres, o estoque de manhãs da gente vai acabando. Mas tenho composto. Mais do que eu queria, mais do que eu merecia.”

No dia seguinte, gravou o vocal que ficou faltando na música: “Chora coração/ Ouve só meus ais/ Eu não posso mais”. Não sei se foi um dia sem gelo para o Tom. Hoje, 25 anos depois, vai ser um dia on the rocks, celebrando a felicidade de viver num país que teve por 67 outonos esse pândego soberano.

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