Tom Speight conta como a música ajudou a lidar com a doença de Crohn
Inspiração

Tom Speight conta como a música ajudou a lidar com a doença de Crohn

Tom Speight encontra um livro dos Beatles em cima da mesa. Ele tenta abrir para folheá-lo, olha algumas fotos e depois se senta confortavelmente em um sofá. O britânico está em São Paulo, na sede da produtora que está organizando seus shows no Brasil. “Já toquei com o Paul McCartney”, o músico conta, empolgado, lembrando do tempo em que estudou na Liverpool Institute for Performing Arts (LIPA), universidade fundada pelo ex-beatle no mesmo prédio da escola de música que ele próprio estudou. “Ele sempre aparece por lá. Tive uma aula de composição com ele e, nesse dia, tocamos um pouco juntos na sala”.

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Speight, que se apresenta em São Paulo, este sábado (23), no House of Bubbles, depois de um show no Rio de Janeiro, começou a carreira em 2016, quando lançou o EP "Little Love". De lá pra cá, já soltou diversos singles e já prepara o álbum de estreia, “Collide”, com lançamento marcado para abril. O inglês vem ao Brasil porque, de maneira inusitada, acabou estabelecendo uma relação próxima com o país. A canção “Little Love” acabou chegando ao primeiro lugar das virais no Spotify brasileiro quando foi lançada, em 2016, e todos os seus lançamentos subsequentes têm encontrado um público fiel e alguns milhões de reproduções no streaming entre ouvintes daqui.

Canções são momentâneas. Você escreve e aquele momento se desenrola, ganha novos significados. Por exemplo, não me sinto triste quando canto. É como se eu superasse aquele momento a partir do momento que coloquei em uma canção.

Mas a história de Speight é mais atribulada do que aparenta. O cantor e compositor foi diagnosticado com uma doença sem cura, a Doença de Crohn, que afeta o sistema digestivo. “Desde que descobri, já acabei no hospital umas seis vezes. Isso deu uma atrapalhada na minha carreira algumas vezes”, conta. “Fiquei sabendo que tinha a doença quando senti os sintomas: vomitava muito, perdi muito peso, sentia muita dor. Foi bastante agressivo no início. Eu tinha uns 18 anos, estava na faculdade. Você sabe como funciona, as pessoas bebiam e se divertiam e eu não… era meio chato. Mas, enfim, acontecem coisas muito piores com as pessoas por aí”.

Nos últimos dez anos, Speight já fez duas cirurgias para tratar da Doença de Crohn. “Já tomei vários coquetéis de drogas diversas para fazer o tratamento. É uma coisa que, às vezes está melhor, às vezes está pior. Demorou cerca de quatro anos para que eu pudesse me sentir com a saúde de uma pessoa normal”, explica ele, que continua com o tratamento, sem previsão de parar. “Nunca acaba, não tem como ignorar isso. Mas, como disse, essa é apenas uma parte da minha vida. E agora já estou bem. Tem algumas coisas, por exemplo: não bebo, não fumo. Nunca fui de beber muito, mas penso que seria legal tomar um drink uma vez ou outra depois de um show. Mas sei que isso não vai acontecer. Acabo sendo mais sensível para coisas desse tipo”.

Se por muitos anos a doença foi um impeditivo no seguimento da carreira artística de Speight, recentemente, ele encontrou – pela música – uma maneira de lidar com as recaídas. Ano passado, quando estava começando a gravar o disco, ele se sentiu mal e teve que ir ao hospital. “Fiquei lá dois meses e, quando voltei, não conseguia terminar o álbum”, lembra. “Esse período foi o pior de todos porque eu estava muito focado em fazer o disco”. O artista até fez uma música enquanto estava hospitalizado. “Lost to Me” estará presente em “Collide”. “Era tipo a sexta semana no hospital, minha mãe deixou o violão e eu comecei a compor essa faixa. Depois, gravamos ela no (famoso estúdio) Abbey Road. Então, foi bem louco: do hospital para o estúdio e depois o disco. É aquele ditado dos limões e da limonada lá, você sabe”.

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Speight começou a compor muito cedo, com oito anos de idade, e desde então nunca parou. Mais recentemente, ele vem tratando de temas pessoais (“90% de tudo é pessoal”, diz), desde relacionamentos amorosos até a relação com os pais. As exceções são uma faixa ainda inédita inspirada pela série “Stranger Things”, da Netflix, e “Heartshaker”, na qual diz ter usado um pouco mais de “licença poética” para escrever. Para ele, a música funciona como uma espécie de terapia. “É como um alívio, uma liberação de estresse”, explica. “Você bota o coração ali. E sinto orgulho disso. Por exemplo, não considero ‘Lost to Me’ como a ‘música do hospital’. Canções são momentâneas. Você escreve e aquele momento se desenrola, ganha novos significados. Por exemplo, não me sinto triste quando canto. É como se eu superasse aquele momento a partir do momento que coloquei em uma canção”.

Sonoramente, Speight é influenciado, desde a infância, por nomes do rock e do folk, desde a maior referência, os Beatles, até Simon & Garfunkel, mas também algumas bandas mais recentes, entre elas o Arctic Monkeys. Na passagem pelo Brasil, ele tem aproveitado para conhecer um pouco da nossa música. Está encantado por Jorge Ben, mas também guardou um disco do Trio Mocotó para escutar futuramente. Com exceção dos brasileiros, todas as influências devem ser ouvidas em “Collide”, trabalho que ele gravou em uma região afastada da cidade. “Não tinha conexão nem no celular, fiquei deslocado da sociedade, focado em fazer o álbum. Foi bem legal, registramos a maior parte ao vivo, então tem muita expressão humana e pouca interferência de computador. Ficamos muito tempo tentando pegar os melhores takes. Com certeza farei o segundo disco desta maneira”.

Tom Speight: influências de folk e rock compõem repertório do cantor / Foto: Divulgação
Tom Speight: influências de folk e rock compõem repertório do cantor / Foto: Divulgação

Quando perguntado sobre os planos e sonhos para a carreira, Speight diz que quer fazer muitos shows. “Uns 100 [por ano], se for possível”, brinca, mas sem deixar escapar a ambição. Com uma trajetória de superação e de força para lidar com as dificuldades através da música, o britânico não esconde a paixão instantânea pelo Brasil (“O pessoal aqui realmente canta as letras, é lindo”), lugar para onde quer voltar na turnê do vindouro disco. Por enquanto, ele enumera as prioridades: “Meu foco principal é ficar bem, o segundo é fazer música. E eu preciso do primeiro para fazer o segundo, então, é por aí.”

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