Tom Zé explica o segredo de sua vitalidade: ‘Trabalhar sempre’
Inspiração

Tom Zé explica o segredo de sua vitalidade: ‘Trabalhar sempre’

Aos 82 anos de idade, Tom Zé é um dínamo — e não para de trabalhar. "Eu tenho o hábito de acordar às 5h para trabalhar", conta o baiano. "Nasci num mundo em que a atividade do homem na Terra era trabalhar. Trabalhar é o contato com Deus, a plenitude, o dever do homem. Desde criança sei disso”. Atualmente, ele está divulgando o show em que comemora o cinquentenário de seu primeiro disco, "Grande Liquidação", de 1968. Nos palcos, ele recria a obra na íntegra, com direito a intervenções sobre composição, gravações e o contexto da época, transformando a apresentação em um seminário sobre sua própria produção. Além disso, também faz palestras, participa de festivais e está o tempo todo produzindo — o que, segundo ele, é o segredo de sua vitalidade: “Sou um trabalhador persistente, tenho 200 ideias para aproveitar só dez. E não tenho pena de perder as outras, não é um sofrimento, não é carga, não é peso. A natureza me fez assim, assim é o ofício”.

"Surge um problema: eu vou, começo a estudar, escrevo, faço projetos de canções e acontece às vezes de não ir adiante. Não é bloqueio, é falta de achar o caminho. Na minha escola de música se ensinava isso, quando isso acontecer joga tudo pela janela e começa de novo. Isso dá muita rapidez ao trabalho, é uma verdadeira bênção. Tem compositor que morre abraçado no que faz, mas não joga uma música fora, o que é um defeito terrível", ele continua tentando verbalizar seu processo de criação, atualmente ao computador, acompanhado sempre de um gravador digital. "Qualquer pensamento que tenho eu gravo. Eu cantarolo a ideia, vou cuidar da minha vida e depois eu ouço. Depois de ouvir a ideia e mostro pra Neusa".

Qualquer pensamento que tenho eu gravo. Eu cantarolo a ideia, vou cuidar da minha vida e depois eu ouço. Depois de ouvir a ideia e mostro pra Neusa

Neusa Martins é sua fiel companheira, que o acompanha desde que se mudou para São Paulo, no final dos anos 1960. E ela é capital neste processo. "Ela é um crivo severíssimo que tenho em casa. Quando estou em dúvida, eu pergunto à Neusa, que me diz 'não está à sua altura'. Aí jogo fora", continua. "Ela sempre me deu apoio moral porque acreditava no que eu estava fazendo, mesmo quando eu estava por baixo."

"Eu só faço discos conceituais, que são discos sobre um assunto só”, continua. “E aí eu começo a compor todas as músicas sobre os assuntos que parece que são de interesse da sociedade, que tratam do mesmo tema, cada uma com um ângulo diferente. Eu luto, porque eu não sou um gênio: meu trabalho é 80% de suação e 20% de inspiração. Sempre foi assim, principalmente a partir do 'Estudando o Samba'".

O disco de 1976 é um marco duplo na carreira de Tom, o primeiro em que se deu conta de que costumava compor em cima de um conceito. "Eu estava fazendo o disco e percebi que ele só tinha sambas, e sambas de naturezas completamente diversas, uma variedade incrível de sambas, inclusive os que eu estava criando", lembra. O disco também é um marco pessoal para Tom justamente porque, por causa de seu título, foi levado por engano por um David Byrne que passeava nos sebos de discos do Brasil buscando discos de samba. Quando o ex-líder dos Talking Heads foi ouvir as novas aquisições em casa, percebeu que “Estudando o Samba” trazia uma outra espécie de samba — dissecado, destrinchado, reconfigurado. A partir daí, passou a caçar os discos mais antigos de Tom Zé e se apaixonou pelo tropicalista. Isso foi no início dos anos 1990, quando o cantor cogitava seriamente em voltar para o interior da Bahia e largar a música para trabalhar no comércio de sua família. Graças ao fôlego injetado por David, Tom voltou a gravar discos e foi redescoberto pelos brasileiros que haviam esquecido que ele foi um dos nomes mais inventivos e ousados da música brasileira décadas antes.

Antes disso, o final dos anos 1980 foi um período difícil para Tom Zé, que mantinha-se ativo mas sem conseguir marcar shows ou gravar discos. "Tem uma coisa que acontece na música, que é quando você cai no conceito geral e diretores e músicos que eram grandes amigos param de falar com você e você perde amizades também. Nem todos, mas tem um tipo de amigo que vai", lembra, mais com pena que rancor.

Este período em que passou no ostracismo foi preenchido pelo trabalho no jardim do prédio onde mora há anos no bairro das Perdizes, em São Paulo. "Foi uma descoberta maravilhosa. Quando você está no jardim, acontece uma coisa, que só contando, porque ninguém aqui da nossa sociedade vai em jardim, cavar chão, botar planta, virar, mexer...", lembra. "A terra é uma substância e um componente do planeta muito forte e com muito significado. Principalmente para mim, porque eu convivi com homens da terra".

SAÚDE MENTAL

Ele lembra também do valor terapêutico deste trabalho, que segue até hoje. "Quando você está por baixo, você tem naturalmente sentimentos como nervosismo, medo, ansiedade, angústia, tristeza... E quando você passa duas horas cavando, plantando... Isso desaparece completamente. É inacreditável. Era o tratamento de psicanalista que eu não podia fazer. Depois que eu passei a cuidar das plantas, fiz 30 anos de psicanálise para ficar melhor. Mas faço o jardim até hoje".

Tem artista que chega às 17h, toma um uísque e faz uma música que todo mundo vai cantar o ano todo. Isso é uma maravilha, mas não sei fazer

"Trabalhar o tempo todo é ótimo, trabalho muito e não me queixo", continua feliz por estar sempre na labuta. "Tem artista que chega às 17h, toma um uísque e faz uma música que todo mundo vai cantar o ano todo. Isso é uma maravilha, mas não sei fazer", admite.

Tom Zé Trabalha muito, vive bem e não se queixa de dinheiro. Ao falar nisso, dá uma pequena aula de história ao relembrar a ligação dos árabes com os espanhóis e portugueses que vieram para o Brasil e influenciaram a vida do “homem da roça”, como diz, clientes da loja dos pais, que repassavam a cultura dos antepassados para frente, oralmente. Essa vivência, segundo ele, foi a primeira de suas duas grandes e mais ricas heranças.

"A outra herança veio quando o jornal 'O Estado de S. Paulo' mandou Euclides da Cunha cobrir a guerra de Canudos, em 1898, e assim um homem culto conheceu o Nordeste profundo e descobriu tudo isso que eu, sem perceber, já sabia ali do balcão da loja. Os meus tios falavam muito dele e eu acabei lendo", diz, referindo-se ao clássico "Os Sertões", lançado em 1902. "A primeira parte, ‘A Terra’, é muito difícil, eu lia saltando as páginas. Até que eu cheguei na segunda parte, ‘O Homem’, e aquilo falava de mim. Eu pensava que o povo da roça, o meu povo, era desconhecido de todos, então fiquei muito excitado com aquela possibilidade e comecei a ler o livro com um interesse cada vez mais voraz. Eu era uma criança e aquele era um livro culto, mas eu entendia porque eu sabia falar a língua da loja, a língua da cidade, uma porção de línguas. Aí tem a última parte do livro, ‘A Guerra’, que é gibi puro".

"Essas duas grandes heranças, que, na verdade, são três — a do homem da roça, a da loja e a do livro do Euclides — foram a grande riqueza que eu recebi na vida", conclui. "Eu não sabia que eu estava juntando tudo isso com um amor imenso. Não sabia que isso era cultura, mas comecei a ver o mundo com essa lente. E aí tive a sorte de, na Bahia, quando a gente chegou na universidade, de encontrar Edgard Santos (fundador e primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia, que revolucionou o ensino superior baiano em seu tempo), que transformou Salvador num centro cultural sem comparação com qualquer outro lugar do mundo na época. Tanto que Gilberto Gil e Caetano Veloso, super sensíveis, imediatamente comandaram o tropicalismo daquela maneira. Eu tive uma herança que se fosse traduzir como dinheiro teria bilhões e bilhões de dinheiros”.

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