Tommy Aldridge, remanescente de 1985, mostra a força da história viva do Rock in Rio no Whitesnake
Rock in Rio 2019

Tommy Aldridge, remanescente de 1985, mostra a força da história viva do Rock in Rio no Whitesnake

O espírito trüe do Rock in Rio esteve no Palco Sunset neste sábado (28). E não, não estamos falando de David Coverdale, 68 anos, um dos últimos exemplares de uma linhagem de "rock gods", frontman do Whitesnake, ícone da primeira edição do festival, em 1985. Cantando alguns tons abaixo, mas com carisma, sabedoria e presença de palco muito acima dos reles normais — "rock god" é outro papo, né? —, ele encheu olhos e ouvidos de fãs de diferentes gerações. Com quatro décadas completas de carreira, a banda inglesa é um caso de memória afetiva mantida não só entre os amantes do rock pesado, mas também a partir de baladas como "Is This Love?", estrelas das playlists que acompanham pessoas de todas as idades ao empurrar carrinhos de supermercado.

Mas era na bateria que residia a alma do Rock in Rio, grandiosa, altamente enérgica, conciliando apelo popular e uma competência enorme, longe do alcance dos músicos comuns. O americano Tommy Aldridge, 69 anos, mostrou que continua sendo uma casa de força, um legítimo monstro do rock, hipertécnico e ao mesmo tempo pura emoção na performance. Ele provou isso botando pressão até mesmo no clássico do Deep Purple "Burn", uma das canções de assinatura de David Coverdale, que Tommy faz questão de tocar do seu jeito, em arranjo com dois bumbos. Mas o que levou o público à loucura foi seu solo — sim, um solo de bateria, em 2019! Vigoroso e cênico, ele fez de seu batuque furioso um diálogo com a plateia, que, empolgada, se deixou reger, reação por reação. E o fez por boa parte do solo batucando com as mãos, à moda do mítico John Bonham (1948-1980), do Led Zeppelin. Uma viagem no tempo incrível, porque repetiu em grande parte o solo que Tommy havia mostrado em 19 de janeiro de 1985, quando integrava a banda de Ozzy Osbourne.

Com Ozzy, em 1982 / Getty/Larry Marano
Com Ozzy, em 1982 / Getty/Larry Marano

Tommy Aldridge começou a tocar com o Whitesnake dois anos depois da primeira edição do Rock in Rio, em 1987. Durante os anos 1990, no hiato do grupo, teve uma vida nômade, aumentando sua reputação como "clínico de bateria", com cultuadas aulas em vídeo e tocando com bandas importantes como o Motörhead. Entre 2002 e 2009, retomou as atividades como baterista do grupo de Coverdale, abandonadas em favor de boas temporadas como Thin Lizzy, ao lado de um outro ex-Whitesnake que havia brilhado em 1985, no Rock in Rio, o guitarrista John Sykes. Em 2012,voltou ao emprego no Whitesnake, e desde então vem fazendo o que sempre fez, sem audível ou aparente perda na performance, mesmo se aproximando dos 70 anos.

Nascido no Mississípi, mas criado na Flórida, Tommy não poderia ter começado a carreira de forma mais característica, em um das principais bandas de rock sulista (southern rock) da história, Black Oak Arkansas. Tocou ainda com Pat Travers e com Gary Moore (1952-2011) antes de ser contratado por Ozzy Osbourne junto com seu parça Rudy Sarzo e o legendário guitarrista Randy Rhoads (1956-1982). O cantor inglês era seu fã desde os tempos em que o Black Oak Arkansas abriu para o Black Sabbath, nos anos 1970, mas foi a amizade de Tommy com Randy que selou a ponte. Com Ozzy, Tommy gravou "Bark At The Moon" e os álbuns ao vivo "Speak Of the Devil" e "Tribute".

Um fato pouco divulgado é que o convite para tocar com o Whitesnake aconteceu em 1985, no ano do Rock in Rio, mas que, na época, Tommy preferiu declinar, porque sabia dos atritos que rolavam entre David Coverdale e John Sykes.

Na banda de Ozzy Osbourne, Tommy presenciou algumas das cenas mais chocantes da história do rock no palco. Ele estava no palco em El Paso, no Texas, na noite de Halloween em que o vocalista mordeu a cabeça de um morcego, achando que era um bichinho de borracha. "Estavam jogando um monte de parafernália de terror no palco, era Halloween... Ozzy estava olhando pra mim na hora em que mordeu e cuspiu", lembrou Tommy, em uma entrevista à revista "Glide", em 2015.

Autodidata, Tommy Aldridge mostra o respeito pelo ofício ao mencionar em entrevistas sua reverência ao inglês Aynsley Dunbar, que teve curta, porém marcante passagem pelo Whitesnake (por coincidência, entrou no grupo em 1985, substituindo Cozzy Powell, que ocupou a bateria do grupo durante o primeiro Rock in Rio). "Aynsley é um dos meus bateristas favoritos no planeta. Um dos menos comentados, embora todos os seus maiores fãs sejam bateristas. Eu o ouvi pela primeira vez com David Bowie, e depois com Frank Zappa, percebi o quanto era incrível". Ninguém é monstro por acaso.

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