Tradutora de Libras fala sobre trabalhar em shows de Alok e interpretar versos ‘quentes’ do funk carioca
Inspiração

Tradutora de Libras fala sobre trabalhar em shows de Alok e interpretar versos ‘quentes’ do funk carioca

No último fim de semana, Mariana Lima foi até Vinhedo, no estado de São Paulo para trabalhar em um evento de música eletrônica pela primeira vez. Já acostumada com os palcos, ela não toca nenhum instrumento nem canta profissionalmente. Mariana faz um “show” específico para uma parte do público: ela é tradutora da Língua Brasileira de Sinais, conhecida como Libras. Ao contrário do que muitos podem imaginar, no palco do DJ Alok, ela não encarou a noite como um desafio na carreira — e a explicação é simples.

“As pessoas surdas frequentam todo tipo de lugar. E a música eletrônica tem algo que é especial porque o surdo sente bastante a batida, que é algo que existe no funk também. Tanto é que quando a produção do Alok viu que tinha muitos surdos lá, eles chamaram as pessoas para ficarem perto da caixa de som som justamente para que eles sentissem as vibrações", contou a tradutora, cuja mãe é deficiente auditiva. Ela se aproximou dos sinais depois que o irmão e a mãe notaram que um frequentador da Igreja Unida — fundada pelo avô de Mariana em São Paulo — entrava e saía sem conversar com ninguém. “Minha mãe descobriu que ele era surdo. Meu irmão na época tinha uns nove anos e ela começou a investir nele para que ele aprendesse”, conta.

Mariana Lima ao lado de Lulu Santos: ela já trabalhou para dezenas de artistas / Foto: Arquivo pessoal
Mariana Lima ao lado de Lulu Santos: ela já trabalhou para dezenas de artistas / Foto: Arquivo pessoal

O talento e a proximidade com a igreja deu à Mariana a primeira oportunidade de traduzir um show. Priscilla Alcântara, cantora de influências cristãs, viu o trabalho de Mariana em um culto e a convidou para participar do lançamento de seu DVD, “Até Sermos Um”. A partir dali, outras portas se abriram no mercado, que só tem crescido.

Instagram URL not provided

Recentemente, a tradutora trabalhou na festa “Combatchy”, organizada por Anitta, pela terceira vez. A edição contou com a participação de Luísa Sonza, Lexa e MC Rebecca. Coube a Mariana textos, digamos, inusitados para traduzir, como “cai de boca no meu bocetão”. A dificuldade não tem nada a ver com puritanismo, é uma questão de literalidade.

“O surdo é literal. Ele não entende uma frase como 'estou de barriga cheia', porque ele vai olhar para a sua barriga e ver que ela está normal. Acontece que a gente usa essa expressão para dizer que estamos satisfeitos. Se a pessoa chega e fala 'hoje eu dei para o meu namorado”, eu não posso falar isso em Libras porque se eu falar ‘eu - dei - namorado’, ele vai me perguntar: ‘deu o quê?’. Para ele, dar é algo que é material. Eu tenho que falar ‘eu - sexo - namorado’. Se eu falo ‘cai de boca no meu bocetão’, ele não vai entender. Ele vai achar que é cair no sentido literal, de que ‘alguém caiu’”, explica.

A fé cristã em nada atrapalha o trabalho de Mariana. Ela lida de forma tranquila com o fato de frequentar uma igreja evangélica e estar em ambientes traduzindo versos como os do funk carioca. “É o que eu já falei outras vezes, as pessoas trabalham em mercados, mas ninguém critica o que elas vendem. Ninguém deixa de vender um produto ou outro porque é cristã. Esse é meu trabalho. A minha criação cristã, a minha postura, minha índole, ela não muda aonde eu vou, muito pelo contrário. Acho que, para mim, é uma oportunidade ímpar para eu mostrar algumas coisas que as pessoas talvez não saberiam, como por exemplo que Jesus é amor acima de qualquer coisa”, diz. Além das traduções em shows — que tem feito com bastante frequência ao longo do ano —, ela também ministra cursos e aulas e realiza trabalhos com Organizações Não-Governamentais.

A tradutora com Tiago Iorc, com quem trabalhou no Acústico MTV / Foto: Arquivo pessoal
A tradutora com Tiago Iorc, com quem trabalhou no Acústico MTV / Foto: Arquivo pessoal

Entre os artistas mais difíceis de traduzir, ela cita Tiago Iorc e Nando Reis. “Eles são poetas. Se você pegar ‘Relicário’, ele começa a cantar já sabendo sobre o que ele está falando, mas quem ouve a música tenta construir o que ela significa no processo. Isso é algo que em Libras a gente precisa explicar. Às vezes a gente tira uma parte que está no final e traz para o começo para que eles entendam o que a música diz”, explica. “Se eu fizer os sinais exatos de ‘é uma índia com um colar’, eles vão achar que o cara é muito louco, que ele tomou alguma coisa. Eu tenho que explicar o contexto, que a música é sobre dar valor às pequenas coisas, às coisas simples, às tardes lindas que não querem se pôr, mas isso dentro do ritmo e do contexto. A gente tem que dar um jeito de explicar sem perder o ritmo, a essência do artista.”

Por conta disso, a preparação para os shows inclui estudar as letras previamente. Outra forma de deixar a tradução ainda mais apurada, é mostrá-lá para um surdo, para que ele possa dizer se está adequado. “O surdo não sabe português. Alguns até sabem, mas eles são a minoria. É igual eu chegar em um americano e perguntar se ele quer comer arroz ou feijão, para ele é outra realidade. A gente tem que saber o que e como falar”, explica.

Em 2018, Mariana viajou o Brasil acompanhando Wesley Safadão. A turnê deu à tradutora uma oportunidade de aprender expressões de outros estados. Assim como em qualquer outro idioma, a Língua Brasileira de Sinais também sofre regionalismos. “A língua é muito geo-localizada e tem muita coisa que muda de um lugar para o outro. Em Minas, por exemplo, se fala ‘uai’, algo que não é falado no Rio de Janeiro. Você tem que adaptar. Em Belém, no fim do show, alguns surdos me procuraram e perguntaram o que significavam certos sinais que eu tinha feito. Eu expliquei e eles me mostraram que lá se fazia de outra forma. Acaba sendo um curso itinerante para mim.”

Mariana Lima e Wesley Safadão / Foto: Arquivo pessoal
Mariana Lima e Wesley Safadão / Foto: Arquivo pessoal

E se alguém ainda acha que surdos não gostam de frequentar espaços com música, é bom acordar logo. “As pessoas limitam muito a cabeça do surdo. Tem gente que acha que surdos não gostam de ir para a balada, mas eles são seres humanos como a gente. Ninguém vai para a balada só para ouvir música, a gente vai para a balada porque a gente gosta de alguém ou porque a gente quer curtir, paquerar, dançar... O surdo também tem essa vontade. A música faz parte do bolo, mas não é o bolo todo.”

Como em toda língua, o estudo de Libras tem que ser constante para que não se perca a fluência. Mariana acha curioso que as pessoas ainda estranhem o fato de ela continuar a fazer cursos na área. “Libras é uma língua como qualquer outra. Se até o português é reformado, que dirá Libras. Não é só a palavrinha que a gente muda, é o conceito, o pensamento, a cultura. Você não pode parar. A gente tem que estar em um processo de constante aprendizado”, conclui.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest